{"id":514,"date":"2019-11-07T12:08:54","date_gmt":"2019-11-07T15:08:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=514"},"modified":"2019-11-07T12:08:54","modified_gmt":"2019-11-07T15:08:54","slug":"novo-romance-adriana-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/novo-romance-adriana-lisboa\/","title":{"rendered":"O lirismo cir\u00fargico de Adriana Lisboa"},"content":{"rendered":"<h3>A perda inesperada da m\u00e3e, em 2014, mobilizou a escritora Adriana Lisboa para escrever <em>Todos os santos<\/em>. Devastada, ela precisou lidar com um luto que, at\u00e9 ent\u00e3o, era apenas uma probabilidade remota. Ao enfrentar a dor do desaparecimento materno, encontrou um eco liter\u00e1rio extremamente delicado. <em>Todos os santos<\/em> \u00e9 um livro triste e melanc\u00f3lico, costurado por uma combina\u00e7\u00e3o de palavras cirurgicamente pin\u00e7adas no l\u00e9xico l\u00edrico que Adriana manuseia t\u00e3o bem.<\/h3>\n<p>Vanessa e Andr\u00e9 formam um jovem casal de pesquisadores que emigrou para a Nova Zel\u00e2ndia na expectativa de estudar o comportamento de uma categoria espec\u00edfica de p\u00e1ssaros. Amigos na inf\u00e2ncia, amantes na adolesc\u00eancia, eles s\u00e3o fruto de um encontro marcado por trag\u00e9dia. Vanessa perdeu o irm\u00e3o afogado em uma piscina de clube durante uma festinha de anivers\u00e1rio de crian\u00e7a. O acidente destro\u00e7ou a fam\u00edlia da menina, os pais se separaram e o pai se aproximou da m\u00e3e de Andr\u00e9, o que estreitou a conviv\u00eancia entre os jovens. De uma paix\u00e3o adolescente para uma vida em comum, a trajet\u00f3ria de Andr\u00e9 e Vanessa parece rom\u00e2ntica e \u00f3bvia, mas um segredo plantado entre os dois h\u00e1 d\u00e9cadas vai abrir caminhos que escapam da banalidade.<\/p>\n<p>O plot \u00e9 pouco para falar da escrita da Adriana Lisboa, marcada por uma maneira de construir o espa\u00e7o liter\u00e1rio que emociona e desconcerta. O romance traz aspectos que sempre estiveram presentes no universo da autora, como os deslocamentos, um contexto contempor\u00e2neo, uma ideia (nada idealizada) de Brasil, refer\u00eancias na hist\u00f3ria recente do pa\u00eds e uma liga\u00e7\u00e3o muito intensa com a poesia. Em <em>Todos os santos<\/em>, ela acrescenta mais uma: a preocupa\u00e7\u00e3o com o planeta.<\/p>\n<p>No espectro de dores dos personagens e no pr\u00f3prio rol de urg\u00eancias de Adriana est\u00e1 a quest\u00e3o clim\u00e1tica. \u201cA quest\u00e3o que julgo mais importante dos nossos dias \u00e9 o que o chamado Antropoceno vem representando de dano irrepar\u00e1vel, sobretudo em termos de crise clim\u00e1tica e extin\u00e7\u00f5es em massa \u2014 o que tamb\u00e9m envolve perda e luto, para al\u00e9m de uma necessidade urgente de a\u00e7\u00e3o\u201d, diz, em entrevista, por e-mail, enviada de Austin (Estados Unidos), onde d\u00e1 aulas no Departamento de Espanhol e Portugu\u00eas da Universidade do Texas. \u201cGosto muito do conv\u00edvio com o espanhol e a cultura mexicana e centro-americana, por estar t\u00e3o perto da fronteira (embora nesta mesma fronteira a grav\u00edssima crise migrat\u00f3ria seja outro dos vexames deste governo)\u201d, repara, depois de morar no Colorado por uma d\u00e9cada e de um breve per\u00edodo na Nova Zel\u00e2ndia. \u201cMas vou todos os anos ao Brasil, onde tenho fam\u00edlia, amigos e muitos elos afetivos. Continuo escrevendo em portugu\u00eas e acho que isso n\u00e3o vai mudar nunca\u201d, avisa.<\/p>\n<p>Todos os santos<br \/>\nDe Adriana Lisboa. Alfaguara, 148 p\u00e1ginas. R$ 49,90<\/p>\n<h2>Entrevista: Adriana Lisboa<\/h2>\n<p><strong>Quais as perdas impressas nesse romance?<\/strong><br \/>\n<em>Todos os santos<\/em> come\u00e7ou a ser pensado em 2014, quando perdi a minha m\u00e3e de modo inesperado. Foi devastador, e um luto dessa envergadura, at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 probabilidade remota para mim, se tornou algo vivido na carne. Al\u00e9m disso, a quest\u00e3o que julgo mais importante dos nossos dias \u00e9 o que o chamado Antropoceno vem representando de dano irrepar\u00e1vel, sobretudo em termos de crise clim\u00e1tica e extin\u00e7\u00f5es em massa &#8211; o que tamb\u00e9m envolve perda e luto, para al\u00e9m de uma necessidade urgente de a\u00e7\u00e3o. E, \u00e9 claro, h\u00e1 tantos ideais pol\u00edticos e sociais indo por \u00e1gua abaixo com os governos de extrema direita em diversas partes do mundo. Ent\u00e3o, o romance tem o desejo de dialogar um pouco com tudo isso, mas atrav\u00e9s de uma reflex\u00e3o e uma elabora\u00e7\u00e3o \u00edntimas, de uma personagem narradora que revisita sua hist\u00f3ria pessoal e busca saber quais os futuros caminhos poss\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>\u201cEle fez o inevit\u00e1vel coment\u00e1rio sobre a desgra\u00e7a dos nosso tempos, a inefici\u00eancia dos nossos poderes, a infla\u00e7\u00e3o que comia solta. E ele nem sabia, coitado, o quanto a coisa ainda ia piorar. Reclamava de barriga cheia, pobre Jonas\u201d: olhando para o Brasil hoje, o quanto pioramos? Com que perspectiva voc\u00ea v\u00ea o pa\u00eds, depois de tantos anos fora?<\/strong><br \/>\nPioramos em quase tudo. O Brasil de hoje me parece viver uma cat\u00e1strofe, possibilitada em grande parte pela cat\u00e1strofe que aconteceu com as elei\u00e7\u00f5es estadunidenses de 2016 e a caixa de Pandora que a chegada de Trump ao poder abriu. O que me traz algum alento \u00e9 ver a for\u00e7a dos movimentos de resist\u00eancia. N\u00e3o tenho como avaliar qual seria a minha percep\u00e7\u00e3o se estivesse o ano todo no Brasil, mas tanto a\u00ed quanto aqui, e em outras partes do mundo, assusta ver o quanto o capitalismo neoliberal parece estar cada vez mais encontrando no neofascismo uma forma pol\u00edtica extremamente conveniente de se firmar no poder.<\/p>\n<p><strong>Sobre deslocamento, ele \u00e9 elemento importante em<em> Azul corvo<\/em>, em <em>Han\u00f3i<\/em>, e agora em<em> Todos os santos<\/em>. Tem a ver com seu pr\u00f3prio deslocamento?<\/strong><br \/>\nQuando comecei a escrever sobre deslocamentos &#8211; primeiro com <em>Rakushisha<\/em>, que trata somente de uma viagem, e depois com <em>Azul corvo<\/em> e <em>Han\u00f3i<\/em>, que tratam de migra\u00e7\u00f5es &#8211; esse tema se relacionava mais diretamente \u00e0 minha experi\u00eancia pessoal, embora nenhum desses livros possa ser confundido com autofic\u00e7\u00e3o. Com<em> Todos os santos<\/em>, o deslocamento que mais me interessa \u00e9 o das aves: a migra\u00e7\u00e3o anual empreendida pelo kuaka entre a Nova Zel\u00e2ndia e o Alaska. O livro fala de travessias reais e metaf\u00f3ricas, da vida como travessia, acho, e do entrecruzamento de caminhos nesse processo &#8211; pessoas e seus afetos, animais, \u00e1guas dos rios e dos mares, gera\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias, hist\u00f3rias, encontros, desencontros. Penso muito na travessia roseana, no deserto que nos toca a todos atravessar, de algum modo: o sert\u00e3o que est\u00e1 em toda parte. \u00c9 o que mais me interessa no tema do deslocamento, hoje.<\/p>\n<p><strong>Pode falar um pouco sobre o di\u00e1logo da sua escrita com a poesia? O seu texto \u00e9 sempre muito po\u00e9tico\u2026<\/strong><br \/>\nMinha escrita deve \u00e0 poesia faz d\u00e9cadas. Passei a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia escrevendo poesia. Meu primeiro projeto liter\u00e1rio \u201coficial\u201d foi um romance, mas eu nunca deixei de ler, escrever e amar poesia. Por algum motivo, sempre tive uma dificuldade imensa em avaliar os meus pr\u00f3prios versos, ent\u00e3o eles n\u00e3o sa\u00edam da gaveta, at\u00e9 um livro finalmente ganhar corpo (<em>Parte da paisagem<\/em>, publicado em 2014) e passar pela avalia\u00e7\u00e3o fundamental de algumas amigas poetas, a quem devo a coragem de sair do arm\u00e1rio como poeta tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>\u201cComparou as suas m\u00e3os \u00e0s dela. Dif\u00edcil acreditar que a sua m\u00e3o, mi\u00fada e gordinha, era o passado da m\u00e3o dela\u201d: <em>Todos os santos<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 um livro sobre o tempo, sobre as gera\u00e7\u00f5es, sobre as heran\u00e7as e como levamos isso para os relacionamentos ao longo da vida?<\/strong><br \/>\nAcho que o tempo \u00e9 um dos meus temas, desde sempre, tanto na prosa quanto na poesia: o fato de o tempo ser relativo, de se confundir ao espa\u00e7o, de conferir significado \u00e0s coisas, de alter\u00e1-las com sua passagem em nossa lembran\u00e7a, e de ter a capacidade de nos preencher com um bem-vindo apre\u00e7o pela vida, ou no m\u00ednimo um respeito por ela, quando nos damos conta &#8211; n\u00e3o racionalmente, mas visceralmente &#8211; de que esta nossa passagem por aqui \u00e9 brev\u00edssima, e a passagem dos outros pela nossa vida tamb\u00e9m. A\u00ed est\u00e1, ali\u00e1s, a ideia de travessia novamente. As gera\u00e7\u00f5es, as heran\u00e7as, o que passa e o que fica, tudo isso \u00e9 somente uma maneira de abordar esse tema mais amplo.<\/p>\n<p><strong>Seria seu livro mais geracional? H\u00e1 muitas refer\u00eancias geracionais\u2026 Foi sua inten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o foi minha inten\u00e7\u00e3o, pelo menos n\u00e3o racionalmente, mas nem tudo o que fazemos no trabalho da escrita \u00e9 decis\u00e3o racional. Minha ideia era falar menos de uma gera\u00e7\u00e3o, como uma esp\u00e9cie de porta-voz dela, e mais de experi\u00eancias particulares que tr\u00eas personagens compartilharam intimamente por fazer parte dessa gera\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 a minha tamb\u00e9m. Mas \u00e9 sempre preciso lembrar de se trata de um recorte, e que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma inten\u00e7\u00e3o no romance de fazer uma esp\u00e9cie de apanhado geral das experi\u00eancias dessa gera\u00e7\u00e3o &#8211; especificamente, a que cresceu no Rio de Janeiro entre os anos 1970 e 1990.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A perda inesperada da m\u00e3e, em 2014, mobilizou a escritora Adriana Lisboa para escrever Todos os santos. Devastada, ela precisou lidar com um luto que, at\u00e9 ent\u00e3o, era apenas uma probabilidade remota. Ao enfrentar a dor do desaparecimento materno, encontrou um eco liter\u00e1rio extremamente delicado. Todos os santos \u00e9 um livro triste e melanc\u00f3lico, costurado por uma combina\u00e7\u00e3o de palavras cirurgicamente pin\u00e7adas no l\u00e9xico l\u00edrico que Adriana manuseia t\u00e3o bem.<\/p>\n","protected":false},"author":82,"featured_media":516,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-514","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Adriana Lisboa todos santos lirismo romance escritora<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Adriana Lisboa fala de perda e quest\u00e3o clim\u00e1tica no novo romance, Todos os santos. 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