{"id":607,"date":"2020-12-11T15:51:10","date_gmt":"2020-12-11T18:51:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=607"},"modified":"2020-12-11T16:40:05","modified_gmt":"2020-12-11T19:40:05","slug":"angelica-freitas-cancoes-atormentar-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/angelica-freitas-cancoes-atormentar-poesia\/","title":{"rendered":"Ang\u00e9lica Freitas: Versos que atormentam"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 2008, a poeta Ang\u00e9lica Freitas passou uma temporada na Holanda. N\u00e3o tinha um tost\u00e3o no bolso, mas tinha uma bicicleta velha e um cart\u00e3o de biblioteca. O combo permitiu muita leitura e o tempo deu in\u00edcio \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o de <em>Can\u00e7\u00f5es de atormentar<\/em>. Nos anos seguintes, Ang\u00e9lica foi morar na Argentina e em Pelotas. S\u00f3 voltou para S\u00e3o Paulo em 2017. \u201cEscrevi muito nessa \u00e9poca, inclusive o poema que d\u00e1 t\u00edtulo ao <em>Um \u00fatero (\u00e9 do tamanho de um punho)<\/em> eu escrevi quando estava em Delft. O que acontece \u00e9 que eu abro o caderno e deixo as coisas acontecerem, normalmente, e \u00e0s vezes elas acontecem. E quando elas acontecem \u00e9 muito claro pra mim. Esses poemas s\u00e3o os que quero mostrar\u201d, conta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No meio do caminho entre Delft e S\u00e3o Paulo, Ang\u00e9lica publicou <em>Um \u00fatero \u00e9 do tamanho de um punho<\/em> e <em>Guadalupe,<\/em> uma hist\u00f3ria em quadrinhos criada em parceria com o ilustrador Odyr Bernardi. Dois livros, como ela diz, \u201cligados \u00e0 mulher\u201d. \u201cForam projetos de escrita. Mas paralelamente eu estava l\u00e1 com os meus cadernos, escrevendo o que aparecia. Acabei voltando, sempre com essa pr\u00e1tica de escrita que me acompanha h\u00e1 muitos anos. Ent\u00e3o eu tinha j\u00e1 muitos poemas para publicar, e at\u00e9 alguns poemas acabaram sendo publicados em revistas no Brasil e fora. Juntei no Can\u00e7\u00f5es aqueles que me pareciam representar esse per\u00edodo da minha vida, e os temas recorrentes pra mim: mulher, nacionalidade, poesia, etc\u201d, avisa a autora, que hoje passa uma temporada na Alemanha como parte do programa de resid\u00eancia art\u00edstica Artists in Berlin, do Deutscher Akademischer Austauschdienst, o Servi\u00e7o Alem\u00e3o de Interc\u00e2mbio Acad\u00eamico.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p>ah, se eu fosse uma sereia<\/p>\n<p>teria mais o que fazer<\/p>\n<p>do que ficar cantando pra eles<\/p>\n<p>do que tentar seduzi-los<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na capital alem\u00e3, Ang\u00e9lica conta que est\u00e1 escrevendo \u201cumas coisas\u201d, lendo muito, absorvendo a vibe da cidade que ela descreve como muito generosa e repleta de bons caf\u00e9s. \u00c9 de l\u00e1 que observa as transforma\u00e7\u00f5es do mundo e a pandemia, mas tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es humanas, a condi\u00e7\u00e3o feminina, o lugar da poesia e a constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade, temas presentes em <em>Can\u00e7\u00f5es de atormentar<\/em>. No livro, os versos revisitam a inf\u00e2ncia da autora, mas tamb\u00e9m o Brasil contempor\u00e2neo, aquele marcado pela viol\u00eancia da repress\u00e3o policial, pelo machismo, pela perplexidade diante de uma ideia de pa\u00eds que volta\u00a0 e meia desmorona.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p>micro-ondas<\/p>\n<p>explicar o brasil a um extraterrestre<\/p>\n<p>tua cara numa bandeira, conheceriam a l\u00edder<\/p>\n<p>e acabariam contigo: parte suja<\/p>\n<p>da conquista.<\/p>\n<p>mas agora j\u00e1 foi, de outra maneira: vista a\u00e9rea<\/p>\n<p>da amaz\u00f4nia, vinte e tantas<\/p>\n<p>hidrel\u00e9tricas<\/p>\n<p>pros teus ovos fritos no micro-ondas.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/cancoes-de-atormentar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-610\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/cancoes-de-atormentar-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Can\u00e7\u00f5es de atormentar<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Ang\u00e9lica Freitas. Companhia das Letras, 106 p\u00e1ginas. R$ 49,90<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 muitas homenagens e cita\u00e7\u00f5es no livro &#8211; Ana Cristina C\u00e9sar, Fabr\u00edcio Corsaletti, Veronica Stigger. Pode contar um pouco o que te inspirou nessas pessoas e qual o papel delas na tua poesia?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fabr\u00edcio e Veronica s\u00e3o companheiros de estrada. Admiro muito os dois, n\u00e3o s\u00f3 pela obra, mas pelas pessoas incr\u00edveis e generosas que s\u00e3o. Uma conversa de meia hora com os dois me d\u00e1 a certeza de que estou no meu pr\u00f3prio caminho. N\u00e3o sei se d\u00e1 pra entender. E a Ana C, bom, \u00e9 amor antigo. Mudou a minha maneira de escrever, l\u00e1 quando eu tinha 15 anos. \u00c9 um caminho muito maluco esse da poesia, \u00e0s vezes \u00e9 solit\u00e1rio e confuso, ent\u00e3o quem te avisa dos becos sem sa\u00edda e cachorros brabos e tamb\u00e9m das melhores vistas pra descansar merece todas as homenagens.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em poemas como \u201cvoc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 uma teta ca\u00edda\u201d e \u201ctr\u00eas poetisas em forma de pera\u201d, \u00e9 a quest\u00e3o feminina que te conduz? Por qu\u00ea? E qual o lugar dessa quest\u00e3o na tua poesia?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A quest\u00e3o feminina est\u00e1 sempre pra mim, porque absurda. Voc\u00ea nasce de um jeito e te obrigam a ser de um time. Mas se me enganaram, foi por pouco tempo. Na adolesc\u00eancia eu j\u00e1 saquei que n\u00e3o me identificava com o mundo feminino, nem com o masculino. Como n\u00e3o colocar isso nos poemas? As rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas s\u00e3o muito loucas, e os meus poemas s\u00e3o tamb\u00e9m respostas ao mundo. Mas se estou aqui mostrando a minha l\u00edngua, tamb\u00e9m devo dizer que, com o passar dos anos, tenho sentido compaix\u00e3o pelo absurdo. Dif\u00edcil de explicar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pode contar um pouco sobre a origem de \u201calgum caf\u00e9 em ros\u00e1rio\u201d? O capitalismo oprime o poeta? Qual a import\u00e2ncia do \u00f3cio para a cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O capitalismo \u00e9 a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo, com as pessoas. Pelo menos no nosso tempo de vida, \u00e9 o tipo de rela\u00e7\u00e3o que tivemos. Trocamos o nosso tempo e energia vital por dinheiro, que \u00e9 uma coisa simb\u00f3lica, n\u00e3o existe na realidade. N\u00e3o \u00e9 o ideal, acho que pod\u00edamos inventar outras maneiras de viver melhor. Mas as pessoas t\u00eam medo de perder o pouco que t\u00eam, de viver miseravelmente. Sou a favor da renda universal b\u00e1sica, por exemplo. Acho que d\u00e1 pra fazer. Tudo d\u00e1 pra fazer. Mas temos que imaginar o mundo coletivamente, n\u00e3o acho que voc\u00ea possa decidir as coisas pelos outros. Como voc\u00ea faz pra botar todo mundo pra imaginar o mundo? Acho que quando fizeram o or\u00e7amento participativo l\u00e1 em POA foi um in\u00edcio. Mas deixa eu puxar a brasa pra minha sardinha, acho que poetas fazem isso. Artistas fazem isso. A minha sardinha \u00e9 nossa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em \u201cas roupas v\u00eam da \u00e1sia\u201d voc\u00ea fala das dist\u00e2ncias f\u00edsicas que s\u00e3o encurtadas pelo nosso modo de consumir (consumo, ali\u00e1s, \u00e9 tema de outros versos n\u00e9?): como voc\u00ea encara esses modos de consumir, j\u00e1 que \u00e9 um tema que vez ou outra aparece em algum poema?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bem, eu n\u00e3o romantizo a pobreza e acho que essa ideia de poeta pobre e fodida n\u00e3o \u00e9 pra mim, eu gosto de caf\u00e9s e viagens, mas o fato \u00e9 que depois que larguei o meu emprego de jornalista, depois que abri m\u00e3o de um sal\u00e1rio que entrava todo m\u00eas na minha conta, pra me dedicar a escrever poesia, n\u00e3o tive dinheiro pra comprar nem livro nem roupas por muitos anos, uns dez anos, vai. Comecei a ganhar roupas das minhas irm\u00e3s, roupas que elas n\u00e3o queriam mais, ou \u00e0s vezes me compravam um casaco que eu estava precisando, coisas assim. E usei, uso, essas roupas at\u00e9 gastar. Fiz um poema pra umas cal\u00e7as que me acompanharam muitos anos, t\u00e1 no livro. Ganhei da Renata, minha irm\u00e3. Ganhei uns t\u00eanis Nike da minha irm\u00e3 Cristina h\u00e1 5 anos, n\u00e3o tirei dos p\u00e9s desde ent\u00e3o. \u00e0s vezes mostro os t\u00eanis pra ela pela c\u00e2mera do celular, quando falamos. &#8220;Lembra desses t\u00eanis&#8221;, eu pergunto. E ela ri &#8220;Nossa! Tu ainda t\u00e1 usando eles.&#8221; T\u00f4. O &#8220;As roupas v\u00eam da \u00c1sia&#8221; tem a ver com a constata\u00e7\u00e3o de que quase tudo que estava em contato pr\u00f3ximo com a minha pele n\u00e3o foi feito no pa\u00eds onde nasci, mas num continente long\u00ednquo, a \u00c1sia. A primeira vez que me dei conta disso, que uma jaqueta era de, sei l\u00e1, Bangladesh, me deu uma vertigem. E fiquei pensando: esse pano aqui, antes de ser pano, era uma planta em Bangladesh. E foi costurado por uma pessoa que vive em Bangladesh. Dessa constata\u00e7\u00e3o a pensar: quem ser\u00e1, quantos anos tem, como vive, \u00e9 um pulo pra mim. Essa pessoa gastou horas da vida dela pra costurar a jaqueta que estou usando. Gosto de imaginar os fios que me ligam a ela. E quero que ela esteja bem, que tenha onde dormir, o que comer, que tenha uns momentos em que se inunde de beleza.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea morou fora um tempo, est\u00e1 passando uma temporada na Alemanha, enfim, vai e vem h\u00e1 alguns anos. Que saudade voc\u00ea sente do Brasil nesses intervalos no exterior?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o compro muito a ideia de nacionalidade, de regionalismo. Uma s\u00e9rie de decis\u00f5es tomadas por meus antepassados me fez nascer no Brasil, em Pelotas. Tenho passaporte portugu\u00eas. E a\u00ed? Vivi em muitos lugares, todos eu chamei de casa. Brasil pra mim n\u00e3o \u00e9 o territ\u00f3rio. Quando ou\u00e7o m\u00fasica brasileira, Tom Z\u00e9, por exemplo, sinto: &#8220;Eu venho da\u00ed&#8221;. Muito claramente. Quando ou\u00e7o o Vitor Ramil, tamb\u00e9m. Se estou longe de Pelotas h\u00e1 muito tempo e ou\u00e7o &#8220;Deixando o Pago&#8221;, do Vitor, pode ser que eu chore. Brasil \u00e9 o lugar onde tem a maior concentra\u00e7\u00e3o de pessoas que eu amo. E eu tenho saudades delas. Acho que estamos passando por uns tempos dif\u00edceis, e n\u00e3o preciso me alongar aqui, mas \u00e9 isso, estamos passando.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2008, a poeta Ang\u00e9lica Freitas passou uma temporada na Holanda, N\u00e3o tinha um tost\u00e3o no bolso, mas tinha uma bicicleta velha e um cart\u00e3o de biblioteca. O combo permitiu muita leitura e o tempo deu in\u00edcio \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o de Can\u00e7\u00f5es de atormentar. Nos anos seguintes, Ang\u00e9lica foi morar na Argentina e em Pelotas. S\u00f3 voltou para S\u00e3o Paulo em 2017. \u201cEscrevi muito nessa \u00e9poca, inclusive o poema que d\u00e1 t\u00edtulo ao Um \u00fatero eu escrevi quando estava em Delft. O que acontece \u00e9 que eu abro o caderno e deixo as coisas acontecerem, normalmente, e \u00e0s vezes elas acontecem. E quando elas acontecem \u00e9 muito claro pra mim. 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