{"id":618,"date":"2020-12-18T16:42:11","date_gmt":"2020-12-18T19:42:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=618"},"modified":"2020-12-18T16:49:56","modified_gmt":"2020-12-18T19:49:56","slug":"gripe-espanhola-brasil-lilia-schwarcz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/gripe-espanhola-brasil-lilia-schwarcz\/","title":{"rendered":"O navio da morte e a gripe espanhola no Brasil"},"content":{"rendered":"<h3>Lilia Schwarcz quase ficou detida nos Estados Unidos em mar\u00e7o, quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) decretou a pandemia. Ela dava aulas na Universidade de Princeton quando o pa\u00eds come\u00e7ou a tomar as medidas de isolamento com o fechamento das fronteiras. \u201cEu passei pela chegada de duas pandemias, porque estava dando aulas em Princeton, e fui quase retirada da universidade: ou volta ou fica por aqui\u201d, conta.<\/h3>\n<p>A antrop\u00f3loga conseguiu embarcar de volta para o Brasil, depois de uma quarentena iniciada em Nova York. Ou seja, Lilia est\u00e1 confinada desde antes de mar\u00e7o. Foi um tempo produtivo, que resultou em <em>A bailarina da morte &#8211; A gripe espanhola no Brasil<\/em>, livro escrito em parceria com a historiadora Heloisa Starling, um trabalho de f\u00f4lego que investiga como se deu a chegada e a dissemina\u00e7\u00e3o da pandemia de 1918 em territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/Lilia_Schwarcz_2019\u00a9Renato_Parada_04_TR.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-622\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/Lilia_Schwarcz_2019\u00a9Renato_Parada_04_TR-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para tra\u00e7ar o caminho do v\u00edrus influenza naquele in\u00edcio de s\u00e9culo, as autoras seguiram o navio Demerara, que atracou no Recife numa manh\u00e3 de setembro de 1918, com alguns tripulantes contaminados. Vinda de Liverpool (Reino Unido), a embarca\u00e7\u00e3o seguiu rumo ao sul. Pelo caminho, contaminou as cidades nas quais atracou, incluindo Salvador, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, e plantou o v\u00edrus no porto pernambucano, de onde ele se espalhou por praticamente todo o Norte e Nordeste.<\/p>\n<p>A bailarina da morte segue o Demerara. Com cap\u00edtulos divididos por cidades, Lilia e Heloisa contam como a influenza impactou e devastou a vida da popula\u00e7\u00e3o brasileira em um momento em que n\u00e3o havia sequenciamentos gen\u00e9ticos de v\u00edrus nem tecnologias vacinais t\u00e3o desenvolvidas quanto as de hoje. No entanto, as semelhan\u00e7as com a situa\u00e7\u00e3o atual parecem saltar da pesquisa de Lilia e Heloisa a cada p\u00e1gina. Desinforma\u00e7\u00e3o, falta de interesse das autoridades, abandono, isolamento social, novos h\u00e1bitos de higiene e at\u00e9 o uso da hirdoxicloroquina tornam inevit\u00e1vel tra\u00e7ar paralelos entre 1918 e 2020, embora as autoras evitem o exerc\u00edcio para n\u00e3o dar um ar de anacronismo ao livro.<\/p>\n<p>Na narrativa, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 mergulhar o leitor no contexto sociopol\u00edtico e sanit\u00e1rio da \u00e9poca ao contar a hist\u00f3ria de personagens que se destacaram durante a pandemia, mas tamb\u00e9m de an\u00f4nimos que viveram a trag\u00e9dia de ver corpos empilhados nas ruas em decorr\u00eancia da extrema mortalidade trazida pela influenza. \u201cFoi uma maneira de transformar a crise num prop\u00f3sito, porque o livro tem um claro car\u00e1ter pol\u00edtico, Ao falar de 1918, obrigatoriamente falamos de 2020. N\u00e3o que as conclus\u00f5es tenham sido condicionadas pela atualidade, mas o livro guarda um debate evidente nesse momento de obscurantismo\u201d, diz Lilia.<\/p>\n<p><em>A bailarina da morte<\/em> nasceu de uma constata\u00e7\u00e3o que intrigou as autoras: n\u00e3o havia, no Brasil, um livro sobre a gripe espanhola. \u201cVi como existia, j\u00e1 na \u00e9poca, no pr\u00f3prio contexto, um imenso sil\u00eancio. E falei com Heloisa sobre essa ideia, o que era esse sil\u00eancio e por que n\u00e3o escrev\u00edamos. Resolvemos tentar fazer o livro\u201d, conta Lilia. No in\u00edcio do projeto, as pesquisadoras n\u00e3o imaginavam que n\u00e3o poderiam se encontrar, mas o isolamento tornou-se cada vez mais necess\u00e1rio com a evolu\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica do coronav\u00edrus e foi preciso um plano B para tocar a pesquisa. Nisso, fontes como jornais e fotografias cumpriram papel simb\u00f3lico muito importante. \u201cSe n\u00e3o fosse a mem\u00f3ria dos jornais de 1918, dificilmente far\u00edamos esse livro. E isso lembra muito o cons\u00f3rcio de imprensa em 2020. E se n\u00e3o fossem os m\u00e9dicos, que passaram a escrever a partir da d\u00e9cada de 1950, e as universidades, que, a partir de ensaios e doutorados, redigiram bel\u00edssimas pe\u00e7as sobre o que foi a espanhola em diversos estados. S\u00f3 pudemos escrever gra\u00e7as a eles e aos fot\u00f3grafos da \u00e9poca.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/Heloisa-Starling.-Foto-de-Fernando-Rabelo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-621\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/Heloisa-Starling.-Foto-de-Fernando-Rabelo-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p>A pandemia de influenza foi curta no Brasil. Come\u00e7ou em setembro de 1918 e, na virada do ano, j\u00e1 era passado. No carnaval de 1919, o v\u00edrus parecia ter desistido de circular e a folia seguiu seu curso sem grandes impedimentos. Em 2020, o cen\u00e1rio \u00e9 outro. Longe da estabilidade, mais pr\u00f3ximo de uma guerra de vacinas do que de uma \u201cvolta ao normal\u201d, o mundo encontrado pelo coronav\u00edrus tem outras particularidades. Mas 1918 ainda \u00e9 capaz de ensinar e dar li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote><p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o parecia sobrar muito para uma pessoa comum fazer, al\u00e9m de lavar as m\u00e3os, sentir-se vulner\u00e1vel e come\u00e7ar a se isolar por conta pr\u00f3pria. No entanto, a solid\u00e3o aumentava o p\u00e2nico. E fazia crescer a percep\u00e7\u00e3o da fragilidade que cada um experimentava, cuidando apenas de si. \u00c9 o momento em que o indiv\u00edduo descobre que a morte pode vir de qualquer lugar, a qualquer instante, e entende a impossibilidade de obter ajuda ou confiar nas respostas fornecidas pelas autoridades pol\u00edticas e sanit\u00e1rias\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/bailarina-da-morte.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-620\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2020\/12\/bailarina-da-morte-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>A bailarina da morte &#8211; A gripe espanhola no Brasil<\/strong><br \/>\nDe Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. Companhia das Letras, 376 p\u00e1ginas. R$ 59,90<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Entrevista &#8211; LILIA SCHWARCZ<\/h2>\n<p><strong>Voc\u00ea decidiram dividir o livro em cap\u00edtulos dedicados \u00e0s cidades. Quais foram os desafios desse formato? Houve regi\u00f5es mais dif\u00edceis para a pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p>As regi\u00f5es mais f\u00e1ceis s\u00e3o as que foram dominadas pela historiografia: S\u00e3o Paulo e Rio. Havia at\u00e9 abund\u00e2ncia de fotografia. Mas t\u00ednhamos certeza, por conta da experi\u00eancia atual, que era preciso contar essa hist\u00f3ria de forma descentralizada e tivemos certeza, ent\u00e3o, de seguir o navio da morte, a rota da morte em 1918, o Demerara. Ele veio contaminado e foi levando a morte para Recife, Salvador, Rio, Santos, de onde interiorizou. E, ao interiorizar, a gente sabe que foram sendo constru\u00eddos v\u00e1rios vetores: a doen\u00e7a desceu e chegou em Rio Grande, foi para o centro do Brasil. Quer\u00edamos fazer Goi\u00e1s, mas foi mais dif\u00edcil, mencionamos como v\u00e1rias tribos desapareceram. Encontramos excelentes trabalhos em Bel\u00e9m e em Manaus, s\u00e3o cap\u00edtulos muito importantes no livro. At\u00e9 porque \u00e9 poss\u00edvel perceber um di\u00e1logo entre saberes: primeiro entre saberes cient\u00edficos, mas tamb\u00e9m os ditos populares, que, na minha concep\u00e7\u00e3o como antrop\u00f3loga, s\u00e3o t\u00e3o complexos quanto os cient\u00edficos.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o comparar com a pandemia de 2020, mas voc\u00eas fizeram um exerc\u00edcio de n\u00e3o fazer isso o tempo todo, de deixar para o final. Foi dif\u00edcil evitar essas compara\u00e7\u00f5es? <\/strong><\/p>\n<p>Uma controlou a outra. Claro que voc\u00ea vai ao passado com quest\u00f5es do presente, isso \u00e9 muito relevante, mas isso n\u00e3o quer dizer que vamos participar de cara do anacronismo. N\u00e3o nos d\u00e1vamos conta de quantas semelhan\u00e7as encontramos. Lembro do dia, na primeira vez que falamos do livro, quando eu tinha acabado de me deparar com o sal de quinino. Sal de quinino \u00e9 tamb\u00e9m usado para combater a mal\u00e1ria e \u00e9 o mesmo princ\u00edpio de cloroquina. Essas coisas, faz\u00edamos juntas e foi imposs\u00edvel n\u00e3o pensar\u2026 N\u00e3o \u00e9 dito no cap\u00edtulo para n\u00e3o configurar anacronismo, mas, na conclus\u00e3o, sim. Nenhuma autoridade sanit\u00e1ria e m\u00e9dica adotou o sal de quinino, ele era vendido pelas farm\u00e1cias. Os anunciantes colocavam nos jornais, mas voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea uma autoridade apoiando o uso do sal de quinino, diferente do contexto atual. Acolhemos as coincid\u00eancias e deixamos circunscritas ao contexto para, ao final, fazer os paralelos.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel pensar, agora, em um livro sobre a guerra da vacina? Haveria muitas semelhan\u00e7as com a contemporaneidade?<\/strong><\/p>\n<p>Pela bibliografia que li ficou claro que a hist\u00f3ria da vacina \u00e9 a hist\u00f3ria de revoltas. Ela \u00e9 obrigatoriamente pol\u00eamica, porque voc\u00ea tem que convencer o paciente que vai inocular a doen\u00e7a. Em doses n\u00e3o mortais, mas vai inocular. Ent\u00e3o todas as hist\u00f3rias de vacina\u00e7\u00f5es s\u00e3o a hist\u00f3ria de uma s\u00e9rie de revoltas. E uma coisa que me chama muito a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que a revolta da vacina de 1904 pode ser considerada uma das primeiras do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. O povo brasileiro achou que vinha a igualdade e n\u00e3o veio. Com a rep\u00fablica, achou que viria uma inclus\u00e3o social que n\u00e3o chegou e a revolta da vacina responde muito a esse term\u00f4metro. Mas tamb\u00e9m \u00e9 uma revolta contra o governo. Hoje sabemos que a vacina\u00e7\u00e3o era absolutamente necess\u00e1ria, praticamente erradicou a doen\u00e7a. E por que houve revolta? N\u00e3o porque o povo era desinformado. O povo se revoltou contra a falta de informa\u00e7\u00e3o, de diretriz. Ningu\u00e9m no governo, e na \u00e9poca era Oswaldo Cruz, que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, teve preocupa\u00e7\u00e3o de informar a popula\u00e7\u00e3o sobre o que acontecia. O que estamos vivendo agora em 2020 \u00e9 um processo muito paralelo.<\/p>\n<p><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Temos um chefe do executivo que temos que torcer para n\u00e3o atrapalhar, porque ajudar, n\u00e3o ajuda. E ele vem atrapalhando. N\u00e3o me importa muito o que Bolsonaro pensa como pessoa, me importa mais o que avaliza e ele vem avalizando um total descaso com a doen\u00e7a. Penso que \u00e9 hora de fazer uma revolta da vacina ao contr\u00e1rio, exigindo a vacina. Temos um presidente que politizou a vacina. Pandemias n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es ideol\u00f3gicas, n\u00e3o acabam na base do \u2018t\u00e1 ok\u2019, e n\u00e3o estamos no final da pandemia. N\u00e3o fizemos um papel bom no combate e temos um presidente que \u00e9 contra a vacina e n\u00e3o diz a verdade. O Brasil tem uma pol\u00edtica de vacina\u00e7\u00e3o das mais reconhecidas e valiosas e que est\u00e1 caindo por terra na presid\u00eancia do Bolsonaro e na gest\u00e3o de seu ministro general. O fato de esses n\u00fameros estarem tombando tem uma repercuss\u00e3o tremenda. E quando falamos de obrigat\u00f3ria, n\u00e3o falamos que os m\u00e9dicos entrar\u00e3o na casa das pessoas e impor\u00e3o. Se voc\u00ea n\u00e3o for vacinado, voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 o documento e n\u00e3o entrar\u00e1 em certos pa\u00edses. Essa obriga\u00e7\u00e3o j\u00e1 existe, por exemplo. \u00c9 um momento de muita inseguran\u00e7a. Estamos vivendo o dia de hoje sem planejamento do futuro, e estamos vivendo essa calamidade de um governo que n\u00e3o faz o ritual de luto, que nos custar\u00e1 muito em termos de traumas futuros, coletivos e individuais. Os bons presidentes ser\u00e3o medidos a partir da pol\u00edtica transparente que venham a fazer, pelo uso de boas informa\u00e7\u00f5es e, por fim, a partir das perspectivas e diretrizes claras que venham a importar nos seus governos. Infelizmente, acho que as perspectivas s\u00e3o dif\u00edceis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lilia Schwarcz quase ficou detida nos Estados Unidos em mar\u00e7o, quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) decretou a pandemia. 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