{"id":1343,"date":"2016-06-12T06:30:17","date_gmt":"2016-06-12T09:30:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/?p=1343"},"modified":"2016-06-13T12:30:10","modified_gmt":"2016-06-13T15:30:10","slug":"despedida-programada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/despedida-programada\/","title":{"rendered":"Despedida programada"},"content":{"rendered":"<p><strong>(da Revista do Correio) (fotos Zuleika de Souza\/@cbfotografia)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O best-seller Marley e Eu, lan\u00e7ado em 2005 pelo jornalista norte-americano John Grogan, foi um sucesso de vendas e se manteve por 110 semanas na lista dos livros mais vendidos no Brasil. Embora a obra seja uma biografia de Grogan, todos os acontecimentos da fam\u00edlia s\u00e3o narrados incluindo a perspectiva de Marley, ressaltando a import\u00e2ncia do labrador e detalhando suas aventuras. O livro ganhou uma adapta\u00e7\u00e3o para o cinema em 2008 e uma das cenas mais emocionantes foi a da eutan\u00e1sia do c\u00e3o. Ele sofria de uma doen\u00e7a t\u00edpica da ra\u00e7a: a tor\u00e7\u00e3o de est\u00f4mago. Ap\u00f3s o procedimento, feito em uma cl\u00ednica veterin\u00e1ria, o corpo do animal \u00e9 enterrado no quintal da casa em que vivia e a fam\u00edlia simula um funeral, com direito a cartas e desenhos feitos pelas crian\u00e7as. Como qualquer processo de luto, perder um bichinho tamb\u00e9m envolve dificuldades de aceita\u00e7\u00e3o, saudades e medo para todos, especialmente para os cuidadores, que algumas vezes precisam tomar a dif\u00edcil decis\u00e3o de aliviar o sofrimento do animal e antecipar a morte dele.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1344\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1344 alignleft\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655-200x300.jpg\" alt=\"CBPFOT090520160655\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655-200x300.jpg 200w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655-768x1152.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655-683x1024.jpg 683w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655-233x350.jpg 233w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655-550x825.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655-230x345.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT090520160655.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A fam\u00edlia da empres\u00e1ria Samara Campos(foto), 38 anos, j\u00e1 passou v\u00e1rias vezes pela experi\u00eancia de ter um pet em estado terminal. Volta e meia ela resgata algum c\u00e3o e gato abandonado em estado fr\u00e1gil de sa\u00fade. O caso mais marcante para ela foi o da cadela Suzi. Ela partiu em 2002, depois de viver 14 anos, ap\u00f3s desenvolver um c\u00e2ncer causado pela inje\u00e7\u00e3o de anticoncepcionais. Mesmo com a redu\u00e7\u00e3o do tumor, a doen\u00e7a j\u00e1 havia se espalhado para o corpo todo. &#8220;A gente removeu o tumor e ela passou um m\u00eas sofrendo. Ela foi definhando porque n\u00e3o tinha mais jeito&#8221;, lamenta Samara. Suzi chegou em uma caixa de sapatos, ap\u00f3s ser rejeitada pela m\u00e3e, e foi companheira fiel desde a inf\u00e2ncia da empres\u00e1ria. &#8220;Foi igual filha pra mim&#8221;, recorda. Justamente pela carga emocional, Samara defende que a eutan\u00e1sia foi o melhor caminho para se despedir da amiga. &#8220;Voc\u00ea vai deixar seu filho sofrendo com c\u00e2ncer ou vai abreviar o sofrimento dele? \u00c0s vezes, \u00e9 uma coisa sem expectativa, que precisa acabar&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m j\u00e1 perdeu um fila brasileiro de 3 anos para a parvovirose, uma doen\u00e7a causada por um v\u00edrus que provoca, entre outras coisas, diarreia com sangue. Samara viu morrer ainda duas de suas gatas resgatadas das ruas: uma com os dois olhos perfurados e o v\u00edrus da leucemia felina, e a outra, mordida por um cachorro. A agress\u00e3o danificou muitos \u00f3rg\u00e3os internos da gatinha, que foi desacreditada pela veterin\u00e1ria. &#8220;Ela at\u00e9 tentou fazer alguma coisa, mas a pr\u00f3pria medica\u00e7\u00e3o usada praticamente sacrificou a bichinha. Ela teve hemorragia interna&#8221;, diz. &#8220;As pessoas tinham que pensar que existe muito bicho sendo<\/p>\n<p>sacrificado por irresponsabilidade. Abandonam o bicho, sem pensar o que vai ser dele amanh\u00e3, que acaba passando fome na rua. Quando chegamos para resgatar, j\u00e1 est\u00e1 doente&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Nos casos em que as doen\u00e7as s\u00e3o mais fortes do que as solu\u00e7\u00f5es disponibilizadas pela medicina, uma op\u00e7\u00e3o pode ser abreviar o tempo restante de vida do animal, quando h\u00e1 excesso de dor e falta de esperan\u00e7as. O veterin\u00e1rio Fernando Resende explica que a regra \u00e9 analisar cada caso separadamente, sem generaliza\u00e7\u00f5es. Problemas antes vistos como irrevers\u00edveis, hoje j\u00e1 t\u00eam solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A paralisia das patas traseiras, por exemplo, j\u00e1 foi motivo suficiente para encurtar a vida do pet. Uma das causas mais frequentes \u00e9 a displasia coxofemural, doen\u00e7a heredit\u00e1ria e degenerativa que apresenta os primeiros sintomas ainda na inf\u00e2ncia, como dificuldade de caminhar. A professora Hosana Marques, de 50 anos, sacrificou a cadela Nika na d\u00e9cada de 1990, ap\u00f3s o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. Na \u00e9poca, a displasia coxofemural tinha status de doen\u00e7a degenerativa sem perspectiva de melhoras e a fam\u00edlia n\u00e3o foi aconselhada a seguir com os cuidados do tratamento.<\/p>\n<p>Atualmente, por\u00e9m, j\u00e1 existem empresas que desenvolvem cadeiras de roda pr\u00f3prias para os bichos, permitindo que eles tenham mais qualidade de vida. Al\u00e9m do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de que as defici\u00eancias f\u00edsicas n\u00e3o s\u00e3o totalmente incapacitantes tamb\u00e9m permitiu que os animais conquistassem o direito a uma segunda chance.<\/p>\n<p>Fatores determinantes para optar pela eutan\u00e1sia s\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o financeira e a disponibilidade do tutor, al\u00e9m da idade, da ra\u00e7a e do estado de sa\u00fade do animal. Quando o uso das medica\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o surte mais efeito e o bicho sofre, \u00e9 dado o primeiro alerta. O procedimento geralmente \u00e9 recomendado pela equipe veterin\u00e1ria quando n\u00e3o existe perspectiva de melhora ou de cura de uma condi\u00e7\u00e3o que prejudica a qualidade de vida do animal. A decis\u00e3o final, por\u00e9m, sempre \u00e9 do tutor. &#8220;Recomendamos que seja feito no caso do animal que n\u00e3o tenha condi\u00e7\u00f5es de receber o tratamento ou o propriet\u00e1rio, por quaisquer motivos, n\u00e3o possa cuidar&#8221;, esclarece Resende.<\/p>\n<p>Caso a decis\u00e3o seja pela eutan\u00e1sia, o procedimento jamais deve ser realizado em casa, mas sempre em uma cl\u00ednica com unidade de pronto atendimento, onde os batimentos card\u00edacos e outros sinais vitais do animal s\u00e3o verificados em tempo real. Al\u00e9m disso, o profissional usa medicamentos espec\u00edficos, que n\u00e3o causam sofrimento e agem no organismo de modo r\u00e1pido, provocando a parada cardiorrespirat\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para uma passagem tranquila<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma vez tomada a decis\u00e3o, \u00e9 preciso se preparar para o dia do procedimento. A psic\u00f3loga Elaine Alves, membro do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Morte, da Universidade de S\u00e3o Paulo, explica que o chamado luto antecipat\u00f3rio \u00e9 um processo que j\u00e1 come\u00e7a antes da partida. Apesar de n\u00e3o amenizar a dor, o momento \u00e9 importante, pois a ang\u00fastia, o medo e a ansiedade mais controlados ajudam na aceita\u00e7\u00e3o. Outro passo importante \u00e9 sempre que poss\u00edvel acompanhar o procedimento de eutan\u00e1sia, permanecer junto do pet e &#8220;ir at\u00e9 o final, mesmo que seja dif\u00edcil&#8221;, como a especialista define. Caso o tutor n\u00e3o tenha condi\u00e7\u00f5es emocionais para encarar a passagem, deve ser feita uma despedida.<\/p>\n<p>O acompanhamento com psic\u00f3logos, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 essencial, mas \u00e9 indicado para quem n\u00e3o consegue lidar com a situa\u00e7\u00e3o e reprime os pr\u00f3prios sentimentos: &#8220;O luto n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, n\u00e3o precisa de terapia. A pessoa vai pra terapia porque a sociedade n\u00e3o est\u00e1 disposta a ouvir. O luto por animal \u00e9 um luto n\u00e3o autorizado. A maioria das pessoas n\u00e3o entende isso e n\u00e3o d\u00e1 valor para essa perda&#8221;, denuncia. &#8220;Falar \u00e9 o tratamento. N\u00e3o existe dor maior nem menor, existe a dor da pessoa que deve ser respeitada&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga ressalta tamb\u00e9m a import\u00e2ncia de que toda a equipe veterin\u00e1ria, principalmente o m\u00e9dico, seja solid\u00e1ria aos tutores que est\u00e3o prestes a perder um pet. &#8220;Voc\u00ea sente que n\u00e3o est\u00e1 sozinho, que voc\u00ea est\u00e1 sendo cuidado. \u00c9 importante que o veterin\u00e1rio acolha esse sofrimento e esteja junto&#8221;, recomenda.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1345\" aria-describedby=\"caption-attachment-1345\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1345\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1345\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034-300x298.jpg\" alt=\"Foto Arquivo Pessoal. Paulo Henrique Vieira com sue c\u00e3o Feio.\" width=\"300\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034-300x298.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034-768x762.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034-350x347.jpg 350w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034-550x546.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034-230x228.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBNFOT070620161034.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1345\" class=\"wp-caption-text\">Foto Arquivo Pessoal. Paulo Henrique Vieira com sue c\u00e3o Feio.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi o que aconteceu com a fam\u00edlia do assistente t\u00e9cnico Paulo Henrique Vieira(foto), 25 anos. H\u00e1 quatro meses, eles disseram adeus a Feio, um fila brasileiro de 13 anos. Feio estava com um c\u00e2ncer assintom\u00e1tico h\u00e1 mais de um ano, e quando a doen\u00e7a foi descoberta, j\u00e1 era tarde. O c\u00e3o estava em estado terminal e nenhum tratamento foi iniciado. Foi, ent\u00e3o, submetido a uma eutan\u00e1sia. &#8220;Ele era muito grande e forte, mas na \u00e9poca s\u00f3 estava pele e osso. A gente via que ele estava mal, mas achou apenas que ele n\u00e3o estava comendo, nunca esper\u00e1vamos o pior&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Apesar de Paulo sentir que a perda foi pior que um falecimento comum e op\u00e7\u00e3o pela eutan\u00e1sia tenha antecipado o sofrimento, o apoio veio de quem acompanhou o drama desde o in\u00edcio: a veterin\u00e1ria. Al\u00e9m de explicar que a cirurgia n\u00e3o era garantia de cura, a profissional teve empatia pela situa\u00e7\u00e3o. &#8220;O jeito dela foi cuidadoso. Foi amaciando a gente, nos preparando para falar. Ela foi atenciosa, jamais disse \u2018precisamos mat\u00e1-lo porque est\u00e1 morrendo\u2019&#8221;, relembra Paulo, agradecido. Nenhum membro da fam\u00edlia acompanhou os momentos finais de Feio, pois a veterin\u00e1ria orientou que traria mais sofrimento. Foi garantido a eles que o procedimento, com inje\u00e7\u00e3o legal, foi r\u00e1pido e indolor. O corpo foi descartado pela pr\u00f3pria cl\u00ednica, com o lixo hospitalar, como \u00e9 determinado pelo procedimento padr\u00e3o. &#8220;L\u00e1 em casa todo mundo cuidava dele. Minha m\u00e3e e minha irm\u00e3, quando ficaram sabendo, sentiram-se muito abaladas&#8221;, conta ele.<\/p>\n<p>Outra orienta\u00e7\u00e3o para se fortalecer durante o processo \u00e9 encontrar amparo na religi\u00e3o, principalmente no caso das pessoas radicalmente contra a eutan\u00e1sia. Marta Antunes, vice-presidente da Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira, explica que a doutrina esp\u00edrita n\u00e3o sugere a pr\u00e1tica j\u00e1 que o sofrimento \u00e9 do corpo e n\u00e3o do esp\u00edrito. &#8220;Qualquer ser vivo, seja humano ou animal, se est\u00e1 perto de morrer, procuramos deixar que a natureza siga seu curso. N\u00e3o fomos n\u00f3s que demos aquela vida. A eutan\u00e1sia \u00e9 viola\u00e7\u00e3o do direito de viver e tentativa de se livra do pr\u00f3prio sofrimento em ver a situa\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma. A \u00fanica medida pr\u00e1tica, segundo ela, a ser tomada \u00e9 o uso de medicamentos para evitar a dor, al\u00e9m de oferecer carinho ao bicho. O apoio \u00e9 uma ferramenta importante para enfrentar as enfermidades.<\/p>\n<p>Marta explica que a doutrina esp\u00edrita estabelece que os bichos eutanasiados t\u00eam o mesmo destino dos demais, apesar de a passagem ser mais dif\u00edcil. Ela lembra ainda que o processo piora o desconforto do animal, j\u00e1 que ele \u00e9 capaz de sentir o que est\u00e1 acontecendo. &#8220;O instinto \u00e9 uma lei biol\u00f3gica, \u00e9 a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Ele sabe quando est\u00e1 sob amea\u00e7a&#8221;, diz. Ela ainda acrescenta que \u00e9 preciso ter em mente que a vida continua na dimens\u00e3o extraf\u00edsica, n\u00e3o se encerrando com a morte do corpo. Essa seria ent\u00e3o a raz\u00e3o da exist\u00eancia de la\u00e7os afetivos. Para pessoas que n\u00e3o acreditam em vida ap\u00f3s a morte, superar a perda pode ser mais dif\u00edcil. &#8220;Quem n\u00e3o acredita que a vida continua vai sofrer. Quando cremos que a vida continua, temos a esperan\u00e7a de nos reencontrarmos e de sabermos que est\u00e1 bem&#8221;, comenta. Nesses casos, um caminho poss\u00edvel para aliviar o luto \u00e9 se doar para alguma atividade. &#8220;Canalizar pra uma causa social, humanit\u00e1ria, fazer o bem, porque gente de alguma maneira diminui aquele sofrimento&#8221;, recomenda. Isso seria mais eficaz do que tentar substituir o animal, por exemplo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Neglig\u00eancia profissional<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os problemas enfrentados pelo akita de Est\u00e9fane Cruz, 22 anos, n\u00e3o foram uma fatalidade. Tudo come\u00e7ou quando Ryu Aka ingressou em um curso de adestramento, em 2013. A estudante conta que o animal era muito bonito e ela desejava que ele frequentasse exposi\u00e7\u00f5es, mas, para isso, o comportamento do akita precisaria ser adaptado. O canil de onde Ryu Aka veio indicou um adestrador, cuja \u00fanica informa\u00e7\u00e3o conhecida \u00e9 que morava em Sobradinho. Ele n\u00e3o revelava seu endere\u00e7o e sempre encontrava Est\u00e9fane em algum local para buscar o c\u00e3o. Quando o akita tinha 1 ano e meio de idade, a jovem notou que ele havia voltado ferido do treinamento. &#8220;O adestrador o machucou nas costas. Quando ele voltou, estava com movimento involunt\u00e1rio nas patas de tr\u00e1s&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Est\u00e9fane levou Ryu Aka em v\u00e1rios veterin\u00e1rios. Um dos profissionais amea\u00e7ou, inclusive, chamar a pol\u00edcia. Apesar das tentativas insistentes da estudante, o adestrador nunca mais atendeu a suas liga\u00e7\u00f5es e est\u00e1 desaparecido desde ent\u00e3o. Durante as consultas, foi descoberto tamb\u00e9m que Ryu Aka, fragilizado pelas agress\u00f5es, tinha contra\u00eddo a erlichiose, conhecida como doen\u00e7a do carrapato. &#8220;A gente tinha muita f\u00e9 de que ia dar certo, mas quando a gente encontrou esse veterin\u00e1rio, ele falou que n\u00e3o tinha mais volta, tinha perdido os movimentos do pesco\u00e7o pra baixo&#8221;, desabafa. O m\u00e9dico tentou aplicar uma vacina e indicar o uso de cadeira de rodas, mas, ap\u00f3s o 11\u00ba dia de tratamento, Est\u00e9fany foi chamada para se despedir. Caso a doen\u00e7a alcan\u00e7asse os pulm\u00f5es, Ryu Aka n\u00e3o conseguiria mais respirar. &#8220;A gente n\u00e3o espera que v\u00e1 perder essa parte t\u00e3o importante da sua vida por um descuido de uma outra pessoa&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como um ente querido<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A jornalista Luana Rodrigues, 24 anos, despediu-se da gata Jujuba em junho de 2015. A sobrevida da bichana foi longa e razoavelmente saud\u00e1vel. Na \u00e9poca da descoberta do c\u00e2ncer, em 2012, ela estava prenha e teve mais duas ninhadas em seguida. Conseguiu amamentar todos os filhotes e um deles ainda vive com Luana. O primeiro veterin\u00e1rio consultado deu a op\u00e7\u00e3o pela eutan\u00e1sia, mas, como a doen\u00e7a ainda estava controlada, a fam\u00edlia decidiu seguir com o tratamento.<\/p>\n<p>Com a progress\u00e3o da doen\u00e7a, apareceram feridas na pele da gata, que eram tratadas com pomada. O tumor, por\u00e9m, n\u00e3o parava de avan\u00e7ar e quando os machucados ficaram muito grandes Luana decidiu aliviar a dor do animal. Em novembro de 2015, aos 14 anos, Jujuba foi levada ao Centro de Zoonoses, e a equipe veterin\u00e1ria do local garantiu que a eutan\u00e1sia poderia ser aplicada.<\/p>\n<p>No mesmo dia, a gata foi preparada para o procedimento. &#8220;N\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00e3o. Como ela era muito velha, se a gente fizesse cirurgia seriam m\u00ednimas as melhorias&#8221;, explica Luana. A jovem \u00e9 grata pelo tempo de despedida que teve durante o tratamento de Jujuba e garante que \u00e9 preciso reconhecer os limites do animal. &#8220;Voc\u00ea v\u00ea que \u00e9 igual com uma pessoa, um ente querido. N\u00e3o aceita de inicio, mas depois acaba se conformando e sabendo que aquilo dali era o melhor, sem ser ego\u00edsta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Depois do adeus<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1346\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1346\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567-300x199.jpg\" alt=\"CBPFOT080620160567\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567-768x510.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567-350x232.jpg 350w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567-550x365.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567-230x153.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160567.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Memorial Jardim dos Animais, inaugurado em 2011, foi o primeiro cemit\u00e9rio particular para animais do Centro-Oeste e j\u00e1 recebeu mais de 1,2 mil corpos. A psicopedagoga Sheila Ribeiro decidiu criar o espa\u00e7o depois que o kyi-leo Bigode chegou \u00e0 fam\u00edlia, h\u00e1 14 anos. Bigode est\u00e1 vivo e saud\u00e1vel, mas, quando a psicopedagoga assistiu a uma reportagem de televis\u00e3o falando sobre os destinos p\u00f3s-morte para os pets, percebeu que n\u00e3o existiam op\u00e7\u00f5es para honrar a mem\u00f3ria do companheiro como ela gostaria. &#8220;\u00c9 nosso filho de quatro patinhas&#8221;, declara.<\/p>\n<p>O cemit\u00e9rio fica em uma \u00e1rea rural, entre \u00c1guas Lindas de Goi\u00e1s e Santo Ant\u00f4nio do Descoberto. A fundadora do cemit\u00e9rio explica que executar o projeto fora da \u00e1rea foi uma decis\u00e3o cuidadosamente pensada: &#8220;A \u00e1rea rural \u00e9 o habitat natural deles. Tem uma vis\u00e3o bonita da natureza, que garante que eles est\u00e3o bem guardadinhos e cuidados.&#8221;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1347\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1347 alignleft\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566-199x300.jpg\" alt=\"CBPFOT080620160566\" width=\"199\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566-199x300.jpg 199w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566-768x1156.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566-680x1024.jpg 680w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566-233x350.jpg 233w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566-550x828.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566-230x346.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2016\/06\/CBPFOT080620160566.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 199px) 100vw, 199px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A equipe conta com seis membros, incluindo motorista, atendimento e ger\u00eancia. S\u00e3o v\u00e1rias as possibilidades de contrata\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o. No caso dos jazigos perp\u00e9tuos, o valor chega a R$ 500 e h\u00e1 como adicionar o caix\u00e3o de mais um animal pelo custo de R$ 250. Nos outros casos, depois de dois anos \u00e9 questionado ao tutor se os restos mortais podem ir para o oss\u00e1rio ou se ele renovar\u00e1 mais dois anos no jazigo. Para os jazigos n\u00e3o perp\u00e9tuos, a taxa \u00e9 de R$ 300. O plano funer\u00e1rio, comprado antecipadamente, permite que o valor seja pago em tr\u00eas ou cinco vezes, dependendo do sepultamento escolhido. Sheila explica que essa \u00e9 uma chance de maior planejamento financeiro, j\u00e1 que os custos com um sepultamento podem ser altos. Todas as op\u00e7\u00f5es exigem a taxa de manuten\u00e7\u00e3o anual de R$ 132, independente do n\u00famero de corpos, e incluem l\u00e1pide em granito, traslado do corpo, embalagem padr\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o da sala de vel\u00f3rios. Quando o tutor opta por realizar o sepultamento dias ap\u00f3s a morte, o corpo \u00e9 encaminhado para refrigera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela ainda criou o Dia de Agradecimento, sempre no primeiro s\u00e1bado de outubro, ao notar que as visitas aconteciam principalmente no Dia de Finados, apesar de o local ser aberto de 9h \u00e0s 16h em dias \u00fateis. Ela ressalta ainda que o clima era de muita tristeza e esse n\u00e3o era o objetivo quando criou o Jardim dos Animais. Al\u00e9m do tradicional lanche, no Dia de Agradecimento s\u00e3o feitas v\u00e1rias atividades para celebrar as hist\u00f3rias de quem Sheila chama de &#8220;inquilinos&#8221;.<\/p>\n<p>Ela inicia os trabalhos fazendo a ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco de Assis, protetor dos animais, e faz discurso de apoio. Os tutores soltam bolinhas de sab\u00e3o, participam de uma roda de conversa para compartilhar hist\u00f3rias memor\u00e1veis dos bichos e levam fotografias para o mural do estabelecimento. &#8220;Imagino que as pessoas querem falar sobre eles. Todos ficam muito emocionados em levar a foto, principalmente os idosos, para quem a perda \u00e9 mais dif\u00edcil&#8221;, garante. A data tamb\u00e9m ajuda em uma atividade extraoficial do Jardim dos Animais: o recebimento de doa\u00e7\u00f5es de ra\u00e7\u00e3o e utens\u00edlios dos falecidos para abrigos. Sheila conta que, em todos esses anos de trabalho, a maior recompensa e aprendizado \u00e9 o amor incondicional. &#8220;\u00c9 muito lindo ver o tanto que os animais ajudam as pessoas e saber que estou ajudando naquele momento me torna uma pessoa mais feliz.&#8221;<\/p>\n<p>Outra alternativa \u00e9 a crema\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o Para\u00edso Animal, criado em Sobradinho tamb\u00e9m em 2011, por Luis Felippe Lopes, em uma tentativa de garantir paz para o bicho de estima\u00e7\u00e3o, \u00e9 especializado no servi\u00e7o e tamb\u00e9m. O servi\u00e7o pode ser contratado a partir de R$ 500. Muitos tutores optam pela crema\u00e7\u00e3o pela possibilidade de guardar as cinzas, fazer um memorial ou mesmo jogar o material no mar. Alguns \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, como prefeituras, fazem isso gratuitamente.<\/p>\n<p>Nesses casos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel levar os restos mortais para casa, j\u00e1 que as crema\u00e7\u00f5es s\u00e3o coletivas. A medida costuma ser uma solu\u00e7\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica: quando o animal faleceu devido a doen\u00e7as desconhecidas ou transmiss\u00edveis, como toxoplasmose e raiva, enterrar favorece o ciclo de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que diz a lei<\/strong><\/p>\n<p>Para abrir um cemit\u00e9rio particular, um dos documentos necess\u00e1rios \u00e9 o licenciamento ambiental, j\u00e1 que enterrar corpos sem estudo do solo pode causar contamina\u00e7\u00e3o do local. No Distrito Federal, o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela emiss\u00e3o de licen\u00e7as \u00e9 a Secretaria do Meio Ambiente. O par\u00e2metro legal para a autoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 a Pol\u00edtica Nacional de Meio Ambiente, institu\u00edda pela Lei Federal n\u00ba 6.938\/81. O servi\u00e7o \u00e9 regulamentado pelo Sindicato dos Cemit\u00e9rios e Cremat\u00f3rios Particulares do Brasil (Sincep).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sacrif\u00edcio \u00e9 uma das solu\u00e7\u00f5es para dar fim \u00e0 dor de animais doentes. 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