{"id":474,"date":"2015-12-06T06:00:55","date_gmt":"2015-12-06T08:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/?p=474"},"modified":"2015-12-05T19:46:31","modified_gmt":"2015-12-05T21:46:31","slug":"companheiros-contra-a-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/companheiros-contra-a-solidao\/","title":{"rendered":"Companheiros contra a solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>(por Laura Tizzo ,especial para o Correio Braziliense)<\/p>\n<p>(fotos Jhonatan Vieira\/CB\/DA Press)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ambos vivem nas ruas, invis\u00edveis aos olhos da sociedade. Sobrevivem do que encontram descartado e dormem ao relento. Por vezes, despertam medo; por outras, compaix\u00e3o. O que n\u00e3o se pode negar \u00e9 que, para as pessoas que vivem na rua, a conviv\u00eancia com animais dom\u00e9sticos extrapola a rela\u00e7\u00e3o \u201cdono\u201d e \u201cmascote\u201d.<br \/>\nO catador Jos\u00e9 Alves de Souza , 60 anos, \u00e9 um desses homens. Apesar de ser dono de uma ch\u00e1cara em Planaltina, ele passa os dias da semana em um terreno pr\u00f3ximo \u00e0 Casa do Cear\u00e1 (910 Norte). A realidade de trabalho \u00e9 intensa. Seu Zezim, como \u00e9 conhecido, recicla papel\u00e3o, garrafa pl\u00e1stica, cobre, alum\u00ednio, sucata e ferro velho. \u00c0 noite, dorme em uma barraca de lona improvisada, embaixo de um p\u00e9 de manga, que serve de refer\u00eancia a quem quiser fazer uma visita.<br \/>\nA solid\u00e3o, no entanto, passa longe. A cadela Quira est\u00e1 sempre ao lado, com um carinho meio desastrado \u2014 cada balan\u00e7ar de rabo \u00e9 um estrondo. Ao ver o dono se aproximando, Quira se transforma. Antes deitada sobre a terra batida, ela se levanta e inicia um corre-corre, at\u00e9 que Jos\u00e9 finalmente lhe d\u00e1 a aten\u00e7\u00e3o devida. A cadela de grande porte p\u00f5e as patas embarradas sobre os ombros do dono, que retribuiu com mimos. \u201cJ\u00e1 me ofereceram R$ 1,2 mil por ela. Eu falei para deixarem a minha cachorra em paz, \u00e9 minha amiga. Poderia ser R$ 5 mil, R$ 10 mil, R$ 1 milh\u00e3o, n\u00e3o vendo. Eu j\u00e1 vivo sem o dinheiro mesmo\u201d, conta.<br \/>\nJos\u00e9 nasceu em S\u00e3o Paulo, morou em Minas Gerais, mudou-se para a Bahia, de onde veio, h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, para \u201cca\u00e7ar melhorar a vida\u201d. O \u00fanico estudo que teve foi para tirar carteira de motorista, por\u00e9m, se orgulha de ter lutado pela educa\u00e7\u00e3o das filhas. \u201cO meu sonho era estudar. Eu n\u00e3o tive (estudo), mas dei para as minhas filhas. Elas terminaram a faculdade, outra est\u00e1 se formando\u201d, relata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_475\" aria-describedby=\"caption-attachment-475\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150139.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-475\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150139-300x199.jpg\" alt=\"Aurino Costa da Silva e seu cachorro Le\u00e3o, na Asa Norte.\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150139-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150139-200x132.jpg 200w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150139-230x152.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150139.jpg 482w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-475\" class=\"wp-caption-text\">Aurino Costa da Silva e seu cachorro Le\u00e3o, na Asa Norte.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No mesmo terreno, fica a tenda de Aurino Costa da Silva, 61, que tamb\u00e9m recorre \u00e0 reciclagem para sobreviver. Cansado de testemunhar os maus-tratos que a cadela Amarela sofria do antigo dono, ele a comprou por R$ 10, o pre\u00e7o de uma garrafa de bebida alco\u00f3lica. \u201cO cara vivia com ela na rua, judiando da cachorra. Andava com ela no asfalto mesmo, em tempo de algum carro atropelar\u201d, comenta.<br \/>\nAmarela n\u00e3o \u00e9 de muitos amigos. Fica sempre quietinha, no canto, sem incomodar e sem deixar que a incomodem. Alguns meses depois da ado\u00e7\u00e3o, veio o filhote, Le\u00e3o, que de feroz s\u00f3 tem nome. \u201cValeu a pena, s\u00e3o as minhas companhias\u201d, revela o piauiense, que se mudou para o Distrito Federal prestes a completar 19 anos para ajudar a criar as irm\u00e3s.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_476\" aria-describedby=\"caption-attachment-476\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150738.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-476\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150738-300x265.jpg\" alt=\"Guilhermina Maria da Concei\u00e7\u00e3o e a sua gata Nina, na Asa Norte.\" width=\"300\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150738-300x265.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150738-200x177.jpg 200w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150738-230x203.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2015\/12\/CBPFOT021220150738.jpg 425w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-476\" class=\"wp-caption-text\">Guilhermina Maria da Concei\u00e7\u00e3o e a sua gata Nina, na Asa Norte.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Caso semelhante \u00e9 o de Guilhermina Maria da Concei\u00e7\u00e3o, 44, que h\u00e1 meses se abriga no gramado entre o Eix\u00e3o Norte e o Eixinho. Baiana, trabalhava na cidade de Barreiras, capinando e arrancando feij\u00e3o. Deixou a ro\u00e7a h\u00e1 quatro anos para morar em Urua\u00e7u, munic\u00edpio goiano a 270km de Bras\u00edlia. A maior parte do ano, no entanto, fica na barraca erguida no fim da Asa Norte, que, h\u00e1 tr\u00eas meses, conta com uma moradora nova: a gatinha Nina. \u201c\u00c9 uma amiga, a gente adora ela. Quando a gente come, ela est\u00e1 perto, a gente d\u00e1 comida. Quando eu acordo, ela sai junto. A gente pega amizade dos bichinhos\u201d, explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Car\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A porta-voz da ONG ProAnima, Simone Lima, conta que, h\u00e1 cerca de 10 anos, foi procurada por um morador de rua que pedia ajuda para a cadelinha atropelada. A entidade encontrou um veterin\u00e1rio para realizar a cirurgia, e o homem fez quest\u00e3o de pagar R$ 1 por dia \u00e0 equipe por ter salvo a vida da melhor amiga. \u201cOs v\u00ednculos podem ser estabelecidos, independentemente de classes sociais\u201d, conta.<br \/>\nO doutor em sociologia e professor dos cursos de direito e ci\u00eancia pol\u00edtica do UniCeub Edvaldo Fernandes explica que uma das consequ\u00eancias da exclus\u00e3o social \u00e9 o isolamento dos indiv\u00edduos. \u201c\u00c9 como se a sociedade buscasse eliminar essas pessoas. Como n\u00e3o se pode, simplesmente, destruir a vida alheia, as ignora. Essa pessoa que \u00e9 tratada dessa forma acaba n\u00e3o se sentindo algu\u00e9m, mas, sim, uma coisa\u201d, esclarece.<br \/>\nUma vez imposta a condi\u00e7\u00e3o de segrega\u00e7\u00e3o, a pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua, por exemplo, procurar\u00e1 se relacionar com aqueles que n\u00e3o a discriminam, que pode ser tanto algu\u00e9m na mesma condi\u00e7\u00e3o, quanto animais. \u201cMesmo as pessoas, quando s\u00e3o exclu\u00eddas, acabam por construir zonas de escapes e por improvisar solu\u00e7\u00f5es. E, \u00e0s vezes, na falta de encontrar um par, elas encontram um cachorro. O bicho vai suprir a car\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o com algu\u00e9m.\u201d<br \/>\nSegundo Edvaldo, os casos de cidad\u00e3os marginalizados que buscam a companhia de animais de estima\u00e7\u00e3o s\u00e3o frequentes, pois a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o \u00e9 uma constante. \u201cC\u00e3es e gatos, por exemplo, tratam as pessoas como elas s\u00e3o. Eles as tocam, se aproximam e, com isso, compensam um deficit de carinho, de amor e de afei\u00e7\u00e3o\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moradores de rua ganham o afago de c\u00e3es e gatos para enfrentar a dura rotina. Em muitos casos, chama a aten\u00e7\u00e3o a amizade constru\u00edda por eles. Segundo especialistas, o animal supre a car\u00eancia de muitos exclu\u00eddos socialmente<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":472,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,25,28,26],"tags":[],"class_list":["post-474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-animais-perdidos","category-comportamento","category-entrevista","category-fotografia-pet"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=474"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":478,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/474\/revisions\/478"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/472"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/maisbichos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}