{"id":1510,"date":"2026-05-22T21:18:46","date_gmt":"2026-05-23T00:18:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/?p=1510"},"modified":"2026-05-22T21:18:46","modified_gmt":"2026-05-23T00:18:46","slug":"a-arte-de-nao-fazer-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/acontece\/a-arte-de-nao-fazer-nada\/","title":{"rendered":"A arte de n\u00e3o fazer nada"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto o pa\u00eds discute o a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho de 6 x 1 e a import\u00e2ncia de um dia a mais de folga para os trabalhadores terem um tempo para a fam\u00edlia, o lazer e o descanso, no Parque da Cidade acontece uma oficina aberta e gratuita sobre a \u201cArte para n\u00e3o fazer nada.\u201d<br \/>\nProcurei mais informa\u00e7\u00f5es para divulgar o evento e conversei com o arte-educador que passar\u00e1 a tarde do dia 30, das 14 \u00e0s 19h\u00b4, no Estacionamento 13, reunido com pessoas interessadas em aprender a fazer nada. L\u00e1, os participantes ser\u00e3o provocados a fazer nada, e ao mesmo tempo, poder\u00e3o produzir desenhos, pinturas, escritas e conversas entre eles.<\/p>\n<p>A oficina faz parte do projeto Arte Pela Inquietude, que promove a arte, a criatividade, e a partilha de experi\u00eancias como meio de cura, express\u00e3o e reconex\u00e3o.<\/p>\n<p>Helton Alves Azevedo, tem 43 anos, nasceu em Bel\u00e9m, mas se considera brasiliense, porque chegou na cidade ainda beb\u00ea de colo. Ele \u00e9 o filho mais velho de m\u00e3e belenense e pai mato grossense e tem uma irm\u00e3 mais nova. \u00c9 formado em Artes e est\u00e1 terminando a gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia, curso que teve interesse ap\u00f3s fazer uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise. Sempre trabalhou como professor aut\u00f4nomo, profiss\u00e3o que gosta muito de exercer,  d\u00e1 aulas de artes em espa\u00e7os culturais, e de yoga e medita\u00e7\u00e3o no seu est\u00fadio, no Sudoeste. Nessa conversa meio filos\u00f3fica e pr\u00e1tica, ele explicou, com seu jeito calmo, atencioso e claro, o que significa fazer nada no mundo atual, e a import\u00e2ncia  dessa arte para uma vida mais saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Perguntas para Helton Azevedo:<\/p>\n<p>P- Helton, voc\u00ea gosta de ser professor?<\/p>\n<p>R- Eu adoro ser professor. Eu gosto mais de trazer temas que eu acho interessante e de colocar para os alunos e instigar ali alguma provoca\u00e7\u00e3o, algum debate, algum pensamento. Eu gosto muito disso. Eu gosto de pesquisar coisas e a\u00ed eu acabo levando para as aulas. Para al\u00e9m do conte\u00fado normal das aulas. Isso me deixa mais din\u00e2mico na aula, n\u00e3o s\u00f3 fazer a mesma coisa sempre.<br \/>\nEu dou aula de aquarela e pintura tamb\u00e9m, dou aula de yoga desde 2004. <\/p>\n<p>P- E qual \u00e9 o estilo de yoga? <\/p>\n<p>R- Hoje \u00e9 misturado. Eu fui pesquisando, fui misturando, fui diversificando e vou trazendo&#8230; Por exemplo, eu trago temas da psican\u00e1lise, temas da psicologia. Trago temas da arte, do Ayurveda, que tem a ver com yoga. E vou trazendo esses temas que eu gosto de estudar. Sobre o social, sobre sofrimento, sobre medita\u00e7\u00e3o, sa\u00fade.<\/p>\n<p>P- E como \u00e9 sua aula? Ela tem uma parte f\u00edsica, uma parte te\u00f3rica de yoga?  <\/p>\n<p>R- Na aula tem a parte f\u00edsica, que a gente faz as posi\u00e7\u00f5es, e tem a parte da medita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas durante a aula, acontece uma conversa. Que \u00e9 algo que \u00e0s vezes n\u00e3o acontece em geral nas aulas de yoga. Em geral, as aulas de yoga s\u00e3o muito caladas, muita concentra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE l\u00e1 no est\u00fadio eu mudo um pouco. Eu converso com as pessoas sobre ansiedade, sobre ang\u00fastia, sobre ins\u00f4nia, depress\u00e3o. E \u00e0s vezes temas que tem a ver com yoga, como religiosidade, pessoas que trazem experi\u00eancias das diferentes religi\u00f5es que tem, que vivem. E como a medita\u00e7\u00e3o atua nas diferentes pessoas. Ent\u00e3o eu tento conversar com as pessoas. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer o exerc\u00edcio, meditar e ir pra casa.<\/p>\n<p>P- Qual a import\u00e2ncia da medita\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>R- Uma coisa que falam muito da medita\u00e7\u00e3o \u00e9 porque tem muito estudo da medita\u00e7\u00e3o. Ela foi bem inserida na pesquisa cient\u00edfica. Mas a medita\u00e7\u00e3o tem uma coisa curiosa, porque era uma pr\u00e1tica religiosa, mas ela foi inserida na pesquisa cient\u00edfica. Ent\u00e3o ela fica entre esses dois mundos. Ela \u00e9 cientificamente comprovada e, ao mesmo tempo, ela \u00e9 uma pr\u00e1tica religiosa. A medita\u00e7\u00e3o ocupa esse lugar de uma pr\u00e1tica que, ao mesmo tempo, \u00e9 espiritual, mas que pode n\u00e3o ser. <\/p>\n<p>P- A pergunta \u00e9 por que eu deveria meditar? Por que meditar? <\/p>\n<p>R- A resposta que mais vem \u00e9 para acalmar, dormir melhor, menos estresse, talvez mais felicidade, mais paz. Essa \u00e9 a resposta que mais surge.<\/p>\n<p>P- Psicologia, psican\u00e1lise, yoga, medita\u00e7\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 num campo muito humano e que cada vez mais lida com a quest\u00e3o da sa\u00fade mental. Voc\u00ea est\u00e1 fazendo uma mistura, um mix de conhecimentos. Ent\u00e3o, qual \u00e9 o seu projeto? <\/p>\n<p>R-O meu projeto era ter o est\u00fadio de yoga, que j\u00e1 tenho, que j\u00e1 acontece h\u00e1 muitos anos. E entrar para essa hist\u00f3ria da sa\u00fade mental cada vez mais. No sentido de que o meu sonho \u00e9 expandir o est\u00fadio, mais pessoas fazerem o yoga, e tamb\u00e9m colocar uma parte no est\u00fadio que vai ter um ateli\u00ea. As pessoas v\u00e3o fazer o yoga, v\u00e3o meditar e v\u00e3o produzir alguma coisa de desenho, pintura e tem um lugar ali tamb\u00e9m de conversa, de fala, como se fosse um atendimento particular, alguma coisa de medita\u00e7\u00e3o ou com a psicologia. Ent\u00e3o, \u00e9 um lugar que abarca tudo isso. Yoga, medita\u00e7\u00e3o, arte e a terapia, num lugar maior. Esse \u00e9 meu sonho. E partindo desse lugar, eu escrevi junto com uma equipe que eu tenho para um projeto do FAC (Fundo de Apoio \u00e0 Cultura), Arte Pela Inquietude, que \u00e9 arte para os nossos sintomas angustiantes modernos, digamos assim.<br \/>\nNovas formas de existir. E a gente usa arte para isso. E esse projeto tem gravura, tem arte surreal, tem colagem e \u00e9 oferecido em escolas, s\u00e3o diferentes professores, diferentes \u201coficineiros\u201d.<br \/>\nE a minha oficina \u00e9 arte para n\u00e3o fazer nada. <\/p>\n<p>P- Interessante, como \u00e9 isso? <\/p>\n<p>R- O nosso n\u00e3o fazer, ele \u00e9 muito direcionado, ou \u00e9 para comprar, ou \u00e9 para ter uma experi\u00eancia incr\u00edvel, que \u00e9 paga. E a gente perdeu um jeito de lazer ou de \u00f3cio ,que a gente mesmo cria. Se a gente falar \u2018qual \u00e9 a nossa forma de lazer ou de divers\u00e3o que \u00e9 tradicional?\u2019, a gente n\u00e3o sabe dizer. A gente tem a forma de lazer que algu\u00e9m imp\u00f4s. Viagem, ir para o shopping, fazer um esporte, que tem que comprar um t\u00eanis, tem que comprar uma roupa, uma bicicleta. Ent\u00e3o tudo envolve um jeito de fazer que \u00e9 imposto, um lazer imposto para a gente. E, tentando resgatar um diferente lazer, o \u00f3cio vem nesse momento de n\u00e3o fazer, para eu come\u00e7ar a me escutar como eu quero gastar o meu tempo livre.<br \/>\nO tempo livre foi limitado a fazer determinadas coisas. Inclusive, tem essa hist\u00f3ria: o tempo livre tem que ser \u00fatil. Tenho que escutar um podcast, tenho que estudar, tenho que fazer um esporte, cuidar do corpo. O tempo livre ficou \u00fatil. \u00c9 engra\u00e7ado. Era para ser livre, in\u00fatil, ocioso e ele acabou se tornando um dever, mais um dever. <\/p>\n<figure id=\"attachment_1507\" aria-describedby=\"caption-attachment-1507\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3-1024x767.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"767\" class=\"size-large wp-image-1507\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3-1024x767.jpeg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3-300x225.jpeg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3-768x575.jpeg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3-800x599.jpeg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3-550x412.jpeg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3-230x172.jpeg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_3.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1507\" class=\"wp-caption-text\">Helton, usu\u00e1rio frequente do Parque \/ Foto CV maio 2026<\/figcaption><\/figure>\n<p>P- Voc\u00ea vai ter aulas aqui no Parque, como \u00e9 esse projeto com Parque? <\/p>\n<p>R- O lugar do Parque \u00e9 porque ele realmente seria o lugar ideal para ficar sem fazer nada. Tem que ser o Parque. S\u00e3o s\u00f3 dois encontros, mas poderiam ter mais. S\u00e3o dois encontros de quatro, cinco horas, para experimentar o \u00f3cio. Para experimentar o \u00f3cio, mas eu vou trazer l\u00e1pis, tinta, caneta&#8230;Quem quiser n\u00e3o fazer nada, \u00f3timo. Quem quiser conversar com as pessoas, tudo bem. E quem quiser escrever, pintar, desenhar, ou deitar, vou levar canga, almofada, cadeira. As pessoas experimentarem o momento.<br \/>\n\u00c9 interessante porque a fala da arte para n\u00e3o fazer nada consegue atrair gente. Parece bom n\u00e3o fazer nada. Mostra que tem um desejo. Tem uma demanda do n\u00e3o fazer. Talvez porque tudo virou muito dever.<br \/>\nA gente tem o dever de trabalhar, tem o dever de se divertir, tem o dever de cuidar do corpo, tem o dever de aproveitar o tempo da melhor forma. Ent\u00e3o, tem muitos deveres. O \u00f3cio n\u00e3o est\u00e1 nessa ordem do dever. Est\u00e1 numa ordem que \u00e9 inutilidade, vazio, coisa sem sentido. As pessoas tamb\u00e9m chegam no yoga falando \u201c isso aqui \u00e9 \u00fatil para qu\u00ea?\u201d \u201cSe eu meditar vai ser \u00fatil?\u201d \u00c9 tudo muito nessa l\u00f3gica da utilidade. E essa outra dimens\u00e3o ficou para tr\u00e1s. Tem uma press\u00e3o social pela produtividade. E a pessoa que n\u00e3o faz nada, ela n\u00e3o est\u00e1 inserida no sistema, n\u00e3o est\u00e1 comprando, n\u00e3o \u00e9 bom para o capitalista, n\u00e3o \u00e9 bom para o mercado, n\u00e3o \u00e9 bom para nada, o in\u00fatil. A\u00ed o in\u00fatil \u00e9 perseguido. N\u00e3o cabe espa\u00e7os de inutilidade. S\u00f3 cabe espa\u00e7os de utilidade. E a\u00ed, enquanto isso, a cabe\u00e7a vai ficando como? Uma dos aspectos que eu acho \u00e9 n\u00e3o dormir. A natureza do dormir \u00e9 ser in\u00fatil, n\u00e3o fazer nada. Mas a\u00ed dormir se transforma em um descanso para trabalhar. A\u00ed cria utilidade em cima do dormir. E fica t\u00e3o avan\u00e7ado isso que a gente usa um rel\u00f3gio para ver o quanto que eu estou dormindo certo. Eu tive tantas horas de sono REM, tantas horas de sono profundo, eu tenho que melhorar, e at\u00e9 o sono \u00e9 otimizado pelo rel\u00f3gio. O que ia ser uma parte totalmente in\u00fatil, ociosa, \u2018realmente agora eu n\u00e3o tenho que fazer nada\u2019 , vira um descanso para mais atividade. As coisas v\u00e3o se transformando.<br \/>\nEnt\u00e3o, na oficina pode chegar e n\u00e3o fazer nada. E conversar com as pessoas que est\u00e3o tamb\u00e9m fazendo nada. <\/p>\n<p>P- Mas isso \u00e9 muito subversivo nesse mundo hoje, n\u00e9? <\/p>\n<p>R- Exatamente, \u00e9 subversivo n\u00e3o fazer nada. Descansar. \u00c9 contra tudo. \u00c9 contra o hegem\u00f4nico, subversivo.<\/p>\n<p>P- E voc\u00ea acredita nisso como uma forma de aliviar as tens\u00f5es ou de viver? Porque a pessoa tamb\u00e9m pode n\u00e3o fazer nada em alguns momentos. <\/p>\n<p>R- S\u00f3 que hoje ningu\u00e9m faz nada em nenhum momento. Se, hoje, a palavra de ordem \u00e9 utilidade e fazer, isso causa v\u00e1rios problemas de sa\u00fade, como o burnout. O burnout \u00e9 nada mais que um cara que nunca para, t\u00e1 sempre trabalhando. O trabalho, n\u00e3o necessariamente o trabalho do fazer, o trabalho que a gente conhece, as horas de trabalho. Mas quando a pessoa sai dali, ela continua trabalhando, ouvindo um podcast, continua trabalhando, postando no Instagram, continua trabalhando, cuidando dos filhos, cuidando da sa\u00fade, cuidando do sono, cuidando da alimenta\u00e7\u00e3o; \u00e9 o shake de c\u00farcuma, \u00e9 o banho gelado, tudo \u00e9 um trabalho que se tem. N\u00e3o tem um momento de n\u00e3o trabalho. E a\u00ed o burnout, a pessoa pode ter burnout, mesmo sem trabalho. Porque ela nunca se deixa em paz. Ela t\u00e1 sempre em atividade, \u00e9 um trabalho constante. N\u00e3o necessariamente ligado ao servi\u00e7o ali.<br \/>\nAlgumas pessoas falam que \u00e9 gest\u00e3o pessoal, como se voc\u00ea fosse uma empresa. E a\u00ed eu sou o chefe da minha empresa. E eu sou tamb\u00e9m o empregado da minha empresa. E a\u00ed n\u00e3o tem divis\u00e3o. Eu sou o chefe e eu sou o empregado. Eu t\u00f4 me cobrando 24 horas. N\u00e3o tem como. Eu t\u00f4 vivendo nesse corpo, que dentro dele tem o chefe e tem o empregado. O chefe t\u00e1 sempre cobrando o empregado, o empregado t\u00e1 sempre entregando. Sempre entregando, entregando, entregando, entregando, entregando, performando. Performando o tempo inteiro. Nunca desliga isso. Ent\u00e3o, hoje, o desligar pode ser muito saud\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o fazer pode ser saud\u00e1vel. Dormir pode ser saud\u00e1vel.<br \/>\nAgora, o quanto equilibrar, o quanto trabalhar, o quanto n\u00e3o trabalhar, essa hist\u00f3ria foi permeando no sentido de o trabalho era muito fixo, acabava tal hora, n\u00e3o tinha mais trabalho. Hoje, a tal hora, s\u00f3 saiu do lugar, mas o trabalho continua. <\/p>\n<p>P- Como \u00e9 que voc\u00ea v\u00ea o mundo hoje, as pessoas e esse modo de viver. Voc\u00ea acha que \u00e9 poss\u00edvel mudar? <\/p>\n<p>R- Uma coisa que eu gosto de pensar \u00e9 que o artista ou quem gosta de enxergar o mundo, pensar sobre o mundo, vai oferecer essas sa\u00eddas, esses lugares como eu estou tentando oferecer o \u00f3cio, oferecer a arte. E s\u00e3o, de certa forma, pontos de tens\u00e3o do meio padr\u00e3o, do hegem\u00f4nico.<br \/>\nTenta tensionar um pouco. Ent\u00e3o, uma sa\u00edda pode ser arte. Pode ser medita\u00e7\u00e3o, pode ser leitura, no sentido de, n\u00e3o para estudar para concurso, mas uma leitura que te traga reflex\u00f5es da vida. Poesia. Uma coisa que pode ser interessante \u00e9 poder criticar o que acontece com a gente, Uma outra coisa da hist\u00f3ria desse lazer \u00e9 que, quando as pessoas se juntavam em festividades populares, ou s\u00f3 para se encontrar mesmo, se juntavam, elas pensavam mais sobre o mundo.<br \/>\nNessa reuni\u00e3o, as pessoas criticavam o mundo. E se o lazer, ele \u00e9 direcionado para uma coisa, a gente para, essa cr\u00edtica para de acontecer. Ent\u00e3o, at\u00e9 essa dire\u00e7\u00e3o do que fazer no \u00f3cio \u00e9 um jeito de controlar para a gente pensar menos sobre o nosso meio, sobre sa\u00eddas. Pode ser realmente essa, juntar com pessoas, conversar sobre os problemas, sobre como talvez atuar, como se juntar, como expressar o que angustia em outros termos, que n\u00e3o seja esporte, que n\u00e3o seja podcast, que n\u00e3o seja cuidar da sa\u00fade, que n\u00e3o seja performance, como eu posso expressar minhas ansiedades de outra maneira, pela comunidade.<\/p>\n<p>P- Ent\u00e3o, a arte \u00e9 uma sa\u00edda?<br \/>\nR- A arte \u00e9 uma sa\u00edda, que pode ser muito boa, porque arte \u00e9 essa cria\u00e7\u00e3o de algo que n\u00e3o est\u00e1 ali. A arte que pode ser escrever, pode ser dan\u00e7ar, pode ser falar, pode ser cantar, pintar, e n\u00e3o s\u00f3 essas. E n\u00e3o fazer isso para ganhar dinheiro e ficar famoso, fazer por forma de express\u00e3o.<br \/>\nJunto com pessoas. Junto com pessoas chegam ang\u00fastias, ansiedades, hist\u00f3rias, e as hist\u00f3rias modificam um ao outro, e as coisas v\u00e3o acontecendo. Nesse coletivo, traz solu\u00e7\u00f5es por si s\u00f3.<br \/>\nTraz essas solu\u00e7\u00f5es, poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es. Agora, como o mundo vai? \u00c9 uma pergunta dif\u00edcil mesmo. <\/p>\n<figure id=\"attachment_1508\" aria-describedby=\"caption-attachment-1508\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4-1024x768.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" class=\"size-large wp-image-1508\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4-300x225.jpeg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4-768x576.jpeg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4-800x600.jpeg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4-550x413.jpeg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4-230x173.jpeg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/nosso-parque-da-cidade\/wp-content\/uploads\/sites\/69\/2026\/05\/post_22.05.26_4.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1508\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;O Parque \u00e9 um \u00f3timo lugar para fazer nada&#8221; \/Foto CV maio  2026<\/figcaption><\/figure>\n<p>P- A pergunta era como voc\u00ea v\u00ea o mundo, se voc\u00ea v\u00ea de forma positiva.<\/p>\n<p>R- A gente v\u00ea quase que um senso comum que o mundo est\u00e1 mais complicado, que o mundo est\u00e1 mais negativo, que est\u00e1 tudo mais dif\u00edcil. Exatamente por quest\u00f5es mentais. E essas outras quest\u00f5es de muito trabalho, pouco tempo e pouco reconhecimento, no sentido de trabalho, ou reconhecimento no sentido de dinheiro, ou reconhecimento de valoriza\u00e7\u00e3o. Essas coisas, eu acho que afligem muito as pessoas. <\/p>\n<p>P-  Como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com o Parque? Voc\u00ea vem aqui desde quando? Voc\u00ea lembra vindo aqui crian\u00e7a? <\/p>\n<p>R-Sim, crian\u00e7a, nos parquinhos, vinha muito, e muito adolescente. O Parque, quando eu era adolescente, era antes de 2000, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m, pouca gente usava o Parque. Teve essa fase de esvaziamento. Pouca gente usava. Eu gostava muito de vir aqui, andar de bicicleta, com os amigos, e sempre, sempre vim pro Parque. Hoje em dia, todo dia, quase meio-dia, uma hora, eu estou aqui. Sou frequente, venho muito. <\/p>\n<p>P- Voc\u00ea vem fazer o qu\u00ea?<\/p>\n<p>R- Eu venho escrever coisas, trabalhar, venho s\u00f3 ficar \u00e0 toa, dou uma caminhada, sento. Pedalo \u00e0s vezes, n\u00e3o tanto quanto antes, mas pedalo. Ultimamente eu venho mais pra ficar fazendo nada.  \u00c9 uma boa utilidade no contrassenso, vir pro Parque pra fazer nada. Eu venho e fa\u00e7o nada. \u00c0s vezes fa\u00e7o exerc\u00edcio, mas o exerc\u00edcio que poderia durar 15 minutos, eu fico uma hora e meia aqui. Fico aqui, sentado, vejo coisas, olho o celular, fico. Eu uso muito assim. E fa\u00e7o uma caminhada, mas n\u00e3o \u00e9 muito. <\/p>\n<p>P- Voc\u00ea costuma ver pessoas sem fazer nada aqui? <\/p>\n<p>R- Ah, sim, como eu, eu sento, as pessoas est\u00e3o sentadas tamb\u00e9m. N\u00e3o muda muito o que as pessoas fazem. Est\u00e3o olhando o celular, tomando \u00e1gua de coco. Eu vejo pessoas usando desse jeito, como um escape. Tipo aqui, essa mo\u00e7a aqui. Est\u00e1 sentadinha, lendo o livro dela.<br \/>\nEu considero isso meio que um fazer nada. Ali\u00e1s, eu acho que aqui em Bras\u00edlia o Parque \u00e9 um dos poucos, \u00e9 um \u00fanico ou principal lugar que as pessoas fazem nada. E tem os que correm, os que brincam, mas tem muita gente sem fazer nada. Mas eu considero, mesmo lendo, fazendo nada, eu considero porque \u00e9 um momento ali de voc\u00ea estar ali. <\/p>\n<p>P- Eu queria saber, e \u00e9 uma pergunta que eu sempre fa\u00e7o nas minhas entrevistas aqui, no que voc\u00ea acredita? O que te guia na vida para viver melhor? <\/p>\n<p>R- Eu viso muito um tempo. E com  o yoga eu consigo, dando aula de yoga, porque eu consigo ter um tempo para mim. Eu acho que eu n\u00e3o consegui me direcionar tanto para um trabalho muito fixo, porque eu acho que eu valorizo muito um tempo meu, para eu ficar com os meus pensamentos, com a minha doideira, e experimentar o mundo. Eu acho que um tempo meu \u00e9 uma coisa muito importante. Outra coisa que me guia \u00e9 a minha observa\u00e7\u00e3o de mim, que tem a ver com a medita\u00e7\u00e3o. Eu lido com a arte, com a medita\u00e7\u00e3o, com os sonhos. Ent\u00e3o acho que o que guia muito a minha vida \u00e9 uma certa observa\u00e7\u00e3o comigo mesmo.<br \/>\n Mas para al\u00e9m disso, sa\u00fade mental tamb\u00e9m guia muito. O dinheiro, que \u00e9 uma coisa que, se a gente fica muito preocupado sem, e com tamb\u00e9m fica muito preocupado, \u00e9 uma coisa que permeia e que \u00e9 muito dif\u00edcil de se desvencilhar. Mas eu tento fazer esses movimentos de como existir sem o dinheiro ser a coisa principal na vida. E tentar oferecer isso para as pessoas, como esse projeto do FAC. Porque se eu estou fazendo nada, eu estou deixando de ganhar dinheiro, n\u00e9? \u00c9 horr\u00edvel isso, \u00e9 horr\u00edvel. Estou deixando de ganhar dinheiro, estou deixando de trabalhar e vira esse conflito entre o dinheiro, do trabalho e a exist\u00eancia, que pode ter outra maneira que n\u00e3o \u00e9 o dinheiro. Ent\u00e3o, o dinheiro perpassa sempre, n\u00e9? E \u00e9 dif\u00edcil, \u00e9 um desafio, \u00e9 muito desafiante mesmo. <\/p>\n<p>P- E qual seria o recado do Helton para as pessoas? <\/p>\n<p>R- Eu acho que o recado \u00e9 criar espa\u00e7os. Criar espa\u00e7os para al\u00e9m de toda a norma. Como eu crio um espa\u00e7o al\u00e9m do trabalho, al\u00e9m de descanso para o trabalho? Criar um espa\u00e7o diferente disso para me reorganizar. Se conectar.<br \/>\nClaro que, quanto mais a pessoa tem dificuldade social, menos tempo ela tem, n\u00e9? E menos possibilidade ela tem de fazer isso. Porque tem que trabalhar, \u00f4nibus, dist\u00e2ncia, remunera\u00e7\u00e3o pouca, muita conta. Dupla carga, trabalho. Isso \u00e9 muito dif\u00edcil para a pessoa tendo jornadas duplas, tr\u00eas horas de \u00f4nibus. N\u00e3o \u00e9 bem uma escolha. E se voc\u00ea falar, n\u00e3o quero, tem mais cem esperando a tua vaga. J\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o quer, tem mais cem. A gente n\u00e3o tem muita escolha, principalmente essa classe social mais baixa fica sem escolha, n\u00e9? Sem como fazer. Uma poss\u00edvel sa\u00edda pode ser resgatar movimentos tradicionais, como o canto, a dan\u00e7a, o samba. Assim as pessoas se encontram e falam sobre quem oprime, falam sobre como s\u00e3o oprimidas. Isso talvez fomente. De novo, a cultura \u00e9 uma sa\u00edda. Pode despertar organiza\u00e7\u00f5es, n\u00e9? Enquanto cada um por si, s\u00f3 no rala, fica dif\u00edcil. <\/p>\n<p>P- Ent\u00e3o, a pessoa que n\u00e3o entende de medita\u00e7\u00e3o, mas que adoraria come\u00e7ar aos poucos, voc\u00ea, como um profissional da \u00e1rea que ajuda, que colabora com isso, o que voc\u00ea diria?<\/p>\n<p>R- Eu acho que a resposta primeira \u00e9 s\u00f3 respira que vai. \u00c9 uma primeira resposta. Comece pelo tempo. Come\u00e7ar por 5 minutos, 10. S\u00f3 respirando ou s\u00f3 parado. 5 minutos. \u00c9 o tempo. O tempo \u00e9 a coisa. N\u00e3o a t\u00e9cnica. \u00c9 o tempo. <\/p>\n<p>Servi\u00e7o: <\/p>\n<p>Oficina a Arte de n\u00e3o fazer nada<\/p>\n<p>Data: 30 de maio, das 14h \u00e0s 19h, na Pra\u00e7a do Batukenj\u00e9, localizada no Parque da Cidade Sarah Kubitschek.<\/p>\n<p>Localiza\u00e7\u00e3o e inscri\u00e7\u00f5es gratuitas no formul\u00e1rio:  https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLSewvplR_anVGTgSaWN5l5eigoh12Lb2xgEGQg2b9Pq9uTsCJA\/viewform<\/p>\n<p>Livre para todos os p\u00fablicos<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es pelo e-mail: escolasociocriativa@gmail.com.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto o pa\u00eds discute o a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho de 6 x 1 e a import\u00e2ncia de um dia a mais de folga para os trabalhadores terem um tempo para a fam\u00edlia, o lazer e o descanso, no Parque da Cidade acontece uma oficina aberta e gratuita sobre a \u201cArte para n\u00e3o fazer nada.\u201d Procurei mais informa\u00e7\u00f5es para 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