{"id":1001,"date":"2020-10-11T17:45:25","date_gmt":"2020-10-11T20:45:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1001"},"modified":"2020-10-11T17:45:25","modified_gmt":"2020-10-11T20:45:25","slug":"um-lobisomem-entre-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-lobisomem-entre-nos\/","title":{"rendered":"Um lobisomem entre n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>Medo fascina. Ningu\u00e9m sabe exatamente porque as pessoas leem livros e veem filmes macabros, que deixam os cabelos da nuca em p\u00e9, d\u00e3o frio na espinha e tremeliques pelo corpo; sensa\u00e7\u00f5es longe de serem agrad\u00e1veis. H\u00e1 arrepios melhores. Mas o horror abra\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem defenda que o corpo pede libera\u00e7\u00e3o de adrenalina para melhorar os reflexos, outros garantem que a sensa\u00e7\u00e3o de medo, que traz a consci\u00eancia de estar a salvo, ajuda a explorar a estranha fascina\u00e7\u00e3o pela morte e pelo sofrimento. Seja como for, as hist\u00f3rias de terror surgiram h\u00e1 mil\u00eanios.<\/p>\n<p>Os gregos foram os primeiros a registrar as hist\u00f3rias de lobisomens, metamorfos que ganham caracter\u00edsticas lupinas na lua cheia. Mas provavelmente a lenda vem de muito antes e abarcou todas as culturas, inclusive a brasiliense, como, dia desses no Bar da Baixinha, me contou o (\u00f3timo) escritor Waldir Rodrigues Pereira.<\/p>\n<p>\u201cAmanh\u00e3, lua cheia \u2013 \u200bA lua cheia mal se anunciava e eu estava triste e solit\u00e1rio, ainda um rapaz, apreciando \u00e0 beira-mar o c\u00e9u estrelado de maio. A areia fina da praia deliciava os meus p\u00e9s e o panorama espl\u00eandido alimentava os sonhos. A lua se refletia nas ondas do mar encapelado. Nesse instante, um ins\u00f3lito desvario tomou conta de mim. O mar espelhado multiplicava a lua em muitas luas e, de repente, um carrossel de luas cirandava minha cabe\u00e7a, rodopios de luz que me levaram ao desfalecimento.<\/p>\n<p>Dormi horas a fio sobre a fria areia.<\/p>\n<p>\u200bAcordei \u00e0 luz primeira do amanhecer, a pouco e pouco despertando para a realidade. Deparei-me, no entanto, com o fen\u00f4meno ou fantasia que nunca se afastou de mim completamente, a ideia de que uma espessa pelagem de urso se desvanecia progressivamente sobre os meus bra\u00e7os e pernas, t\u00e3o rapidamente que n\u00e3o posso assegurar que os pelos espessos tenham de fato existido. Finalmente, sonolento e sedento, tive a impress\u00e3o de que um rebanho de cabras tivesse me visitado \u00e0 noite, pois havia sulcos e pisadas de caprinos por toda a areia em volta de mim.<\/p>\n<p>Em casa, contei a minha m\u00e3e o ocorrido, tamb\u00e9m para justificar minha aus\u00eancia. Ela me falou de lendas do sert\u00e3o nas noites de lua cheia.<\/p>\n<p>O tempo passou em nossas vidas e eu me lembro sempre de lhe pedir que me amarrasse nas noites de lua cheia. Ela sorria, dizendo-me \u201cvai dormir que depois eu chego para lhe amarrar\u201d.<\/p>\n<p>Sei que falava brincando, mas o fato \u00e9 que se um dia ela me amarrou, por certo tamb\u00e9m me desamarrou, porque eu nunca senti nenhuma diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Hoje, sem minha m\u00e3e e vendo que amanh\u00e3 \u00e9 dia de lua cheia, n\u00e3o tenho a quem pedir que me preserve do ins\u00f3lito e eventual acontecimento, pois, na hip\u00f3tese de vir a me transformar em lobisomem, eu n\u00e3o teria com quem contar para me desamarrar no dia seguinte. Portanto, resta-me apelar a quem encontrar um ser estranho deambulando por a\u00ed que, antes de pensar na bala de prata definitiva, olhe bem nos meus olhos e tenha comisera\u00e7\u00e3o ante a tristeza de um lobo solit\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 11 de outubro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medo fascina. 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