{"id":1008,"date":"2020-10-25T15:04:04","date_gmt":"2020-10-25T18:04:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1008"},"modified":"2020-10-25T15:04:04","modified_gmt":"2020-10-25T18:04:04","slug":"a-ameaca-da-pitanga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-ameaca-da-pitanga\/","title":{"rendered":"A amea\u00e7a da pitanga"},"content":{"rendered":"<p>Depois de uma certa idade ningu\u00e9m quer explorar mais nada. Pelo menos \u00e9 o que dizem por a\u00ed, j\u00e1 que os anos envergam e tiram o vi\u00e7o. Assim, n\u00e3o se sabe se foi o recolhimento for\u00e7ado pelo v\u00edrus ou alguma conjun\u00e7\u00e3o astral, mas os tr\u00eas amigos deram de explorar as margens do lago Parano\u00e1, aproveitando que as cercas ca\u00edram.<\/p>\n<p>Descontadas constru\u00e7\u00f5es que ficaram pelo caminho, muralhas de mato colocadas estrategicamente pelos inconformados moradores para impedir o tr\u00e2nsito ou acidentes geogr\u00e1ficos, a margem est\u00e1 desimpedida. Ou quase, j\u00e1 que bandos de capivaras deitadas ao sol intimidam.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 perigo. O mato cresceu um bocado em determinados locais, j\u00e1 que os moradores se recusam a cuidar dos agora baldios terrenos da \u00e1rea de marinha, mas fora um rato ou um calango, s\u00f3 os novos andarilhos andam por ali. E muitas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Muita gente tem vindo de longe para fazer animados piqueniques na beira do Parano\u00e1. Trazem churrasqueiras, carv\u00e3o, isopores com cerveja e carne, grandes panelas, at\u00e9 redes; o que for necess\u00e1rio para a farra. Incluindo, \u00e9 claro, essas caixas de som port\u00e1teis que revelam o gosto musical das camadas populares da cidade,<\/p>\n<p>Muitos ainda n\u00e3o aprenderam que \u00e9 educado levar o lixo embora ou, no m\u00ednimo, deix\u00e1-lo nos recipientes que foram espalhados pelo lugar. Basta uma caminhada para ver garrafas de pl\u00e1stico, latinhas, marmitas de alum\u00ednio ou isopor, embalagens diversas e at\u00e9 restos de comida.<\/p>\n<p>As poucas entradas para a orla v\u00e3o sendo ocupadas pelo mesmo p\u00fablico que nunca se empolgou muito com as \u00e1reas \u201coficiais\u201d de acesso \u00e0 \u00e1gua, exceto a prainha na estrada para o Parano\u00e1. As churrasqueiras do parque localizado ao lado da ponte do Bragueto, por exemplo, est\u00e3o sempre vazias. Diferentemente das quebradas da 7 e da 13, na mesma regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o caminho que os tr\u00eas amigos errantes percorrem, algo em torno de seis, sete quil\u00f4metros de marcha lenta, colocando os assuntos em dia enquanto apreciam a paisagem e a faina, crentes que est\u00e3o fazendo algum exerc\u00edcio. Uma parada pelo menos \u00e9 obrigat\u00f3ria, para um mergulho nas \u00e1guas frias do lago e eventuais bra\u00e7adas.<\/p>\n<p>As demais s\u00e3o causadas pela natureza, que determina o tempo de colheita. H\u00e1 pouco era \u00e9poca de catar jabuticabas nos p\u00e9s que faziam parte dos pomares privados; havia cajueiros carregados; amoras ainda verdes, assim como as mangas, quando os andarilhos passaram pelo local.<\/p>\n<p>Mas a flora pode ser trai\u00e7oeira. Parados diante de algumas pitangueiras, os tr\u00eas puseram-se a catar as frutinhas, que podem ser deliciosas, mas d\u00e3o muito trabalho, j\u00e1 que nem um punhado satisfaz a gula.<\/p>\n<p>Os mais altos puxavam os galhos para que o mais baixo pudesse tamb\u00e9m aproveitar a oferta da natureza, quando um galho escapuliu e deu-se a chicotada. O espinho passou rente ao olho esquerdo e, soubemos no dia seguinte, arranhou a retina, obrigando o uso de um tapa-olho.<\/p>\n<p>No dia seguinte o amigo passou a desfilar de m\u00e1scara contra o v\u00edrus e tapa-olho. Quase uma m\u00famia. Mas feliz. Sabia que podia ser pior, se estivessem jogando pedra para derrubar manga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de uma certa idade ningu\u00e9m quer explorar mais nada. Pelo menos \u00e9 o que dizem por a\u00ed, j\u00e1 que os anos envergam e tiram o vi\u00e7o. 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