{"id":1012,"date":"2020-10-31T13:09:48","date_gmt":"2020-10-31T16:09:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1012"},"modified":"2020-10-31T13:09:48","modified_gmt":"2020-10-31T16:09:48","slug":"crime-na-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/crime-na-noite\/","title":{"rendered":"Crime na noite"},"content":{"rendered":"<p>A queda parecia impar\u00e1vel. N\u00e3o houve um pulo, um escorreg\u00e3o, nada; o corpo j\u00e1 surgiu solto no ar, bra\u00e7os balan\u00e7ando sem controle. At\u00e9 a dor que a bursite vinha provocando nos \u00faltimos dias sumiu.<\/p>\n<p>Era poss\u00edvel sentir o vento no cabelo, o que provocava uma sensa\u00e7\u00e3o d\u00fabia, entre o prazer de estar livre e solto e a agonia de n\u00e3o saber se haveria um ch\u00e3o duro no fim do caminho.<\/p>\n<p>Mas o final foi mesmo com as p\u00e1lpebras abertas. Sonhos nem sempre s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es t\u00e3o fortes a ponto de fazer com que se lembre deles ao acordar, mas por algum motivo aquelas sensa\u00e7\u00f5es todas \u2013 que devem ter durado mil\u00e9simos de segundo no tempo obtuso dos rel\u00f3gios, mas que permearam grande parte do sono \u2013 estavam presentes naquele momento de despertar.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho mais o exemplar do dicion\u00e1rio de oniromancia que usei muito num programa de r\u00e1dio para interpretar os sonhos dos ouvintes e, mesmo se o tivesse, n\u00e3o ia procurar sentido algum na manifesta\u00e7\u00e3o. Estou enfrentando tantas situa\u00e7\u00f5es conscientes no trabalho que n\u00e3o quero nem saber o que o subconsciente est\u00e1 achando de tudo isso.<\/p>\n<p>Mas um freud de botequim \u2013 ou do r\u00e1dio \u2013 me diria que o sonho \u00e9 uma forma virtual de fuga ou de liberdade, fruto do estresse, da correria e preocupa\u00e7\u00f5es. H\u00e1, portanto, um desejo reprimido. O jung do mesmo boteco talvez dissesse que o meu c\u00e9rebro est\u00e1 tentando me equilibrar, oferecendo alguma compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Faz tempo que o homem tenta adivinhar as coisas (inclusive sonhos), inventando os m\u00e9todos mais malucos, alguns cru\u00e9is como a antropomancia, que usaria o cora\u00e7\u00e3o de pessoas sacrificadas, outros inocentes como a esticomancia, que busca explica\u00e7\u00f5es a partir da p\u00e1gina de um livro qualquer, aberta a esmo.<\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o feitos abertamente, como a cartomancia, por meio de baralhos, ou a quiromancia, a leitura das m\u00e3os (h\u00e1 tamb\u00e9m a an\u00e1lise dos p\u00e9s, podomancia). Mas outras consultas s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis a portas bem fechadas \u2013 ou nem isso \u2013, como a prolactomancia, que exige uma observa\u00e7\u00e3o do fiof\u00f3 do consultante.<\/p>\n<p>Mas os sonhos s\u00f3 valem a pena se sonhados enquanto estamos acordados e dispostos a realiz\u00e1-los.<\/p>\n<p>Antes assim do que o ocorrido com Valdomiro, amigo novo, que chegou esbaforido sem falar nada, o oposto do que fazia todo dia. \u201cO que foi, companheiro?\u201d, estranhamos. S\u00e9rio, olhou para cada um e disparou: \u201cEu morri ontem \u00e0 noite\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos j\u00e1 acostumados \u00e0s esquisitices dele, como todo editor de imagens de tev\u00ea, maluquete, meio gaiato, moinante em tempo integral. Mas estava claro que estava levando o caso muito a s\u00e9rio, at\u00e9 demais. Passou o dia sisudo, ensimesmado, evitando at\u00e9 fazer o turbilh\u00e3o de perguntas que costuma disparar o tempo todo.<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e0 noite topou contar o sonho; e com riqueza de detalhes. Fora assassinado a facadas, viu o pr\u00f3prio sangue escorrendo para o ralo. E de alguma forma ele parecia acreditar que estava morto, um ectoplasma fora do corpo, errando como assombra\u00e7\u00e3o. Com cara de detetive de filme ruim encarou um a um:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 vou sossegar quando descobrir quem me matou.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 1 de novembro<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A queda parecia impar\u00e1vel. N\u00e3o houve um pulo, um escorreg\u00e3o, nada; o corpo j\u00e1 surgiu solto no ar, bra\u00e7os balan\u00e7ando sem controle. At\u00e9 a dor que a bursite vinha provocando nos \u00faltimos dias sumiu. 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