{"id":1016,"date":"2020-11-08T20:26:49","date_gmt":"2020-11-08T23:26:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1016"},"modified":"2020-11-08T20:26:49","modified_gmt":"2020-11-08T23:26:49","slug":"somos-todos-mussum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/somos-todos-mussum\/","title":{"rendered":"Somos todos Mussum?"},"content":{"rendered":"<p>A l\u00edngua portuguesa tem sido muito achincalhada nesses tempos. H\u00e1 muita concorr\u00eancia com tanto neologismo, erro proposital (\u201c\u00e9 n\u00f3is\u201d, por exemplo), estrangeirismo e at\u00e9 invas\u00e3o visual\/sonora, que transforma express\u00f5es inteiras em desenhos em palavras (emojis, figurinhas). E tem a invas\u00e3o dos politicamente corretos.<\/p>\n<p>Estava aguardando o in\u00edcio de uma reuni\u00e3o quando as pessoas come\u00e7aram a chegar. \u201cBom dia, a todos\u201d, se repetiam com a mesma vibra\u00e7\u00e3o modorrenta daquela manh\u00e3 chuvosa, at\u00e9 que o rapaz com cal\u00e7as de feltro xadrez e blusa colorida entrou: \u201cBom dia, todes!\u201d. Todes.<\/p>\n<p>Deixei passar. Talvez fossem os ouvidos cansados, entorpecidos pela m\u00fasica eletr\u00f4nica do bar na noite anterior. Mas a cada interven\u00e7\u00e3o do rapaz eu estranhava \u2013 \u201csomos amigues\u201d, \u201cestamos animadics\u201d \u2013 parecia uma mistura de Mu\u00e7um e Zacarias, dos Trapalh\u00f5es, at\u00e9 que a curiosidade matou o gato; perguntei ao rapaz ao lado: \u201c\u00c9 l\u00edngua presa?\u201d.<\/p>\n<p>Temos convivido at\u00e9 com l\u00ednguas-presas presidenciais, o que em si nunca foi problema. Bem mais graves s\u00e3o as locu\u00e7\u00f5es que saem dessas bocas oficiais. A anquiloglossia \u00e9 um fen\u00f4meno natural, quando a membrana que fica sob a l\u00edngua \u00e9 menor e atrapalha a dic\u00e7\u00e3o. Nada demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o era. Estava mais para l\u00edngua solta. O colega ao lado me explicou que aquela era a nova forma correta de falar, o idioma inclusivo que acabaria com todo preconceito. Nessa nova forma de se expressar, por exemplo, n\u00e3o cabem mais pronomes pessoais \u2013 n\u00e3o existe mais ele e ela, por exemplo. Virou tudo \u00edle.<\/p>\n<p>Se eu j\u00e1 achei estranho quando declararam que est\u00e1vamos sendo governados por uma presidenta, avalie agora. Depois que descobri que o Tinder \u2013 aquele site de namoro \u2013 admite 37 identidades de g\u00eanero (n\u00e3o \u00e9 mais sexo) n\u00e3o deveria estranhar nada mais, mas eu ainda n\u00e3o perdi a capacidade de me espantar com a estupidez, o que me parece bom sinal para quem n\u00e3o quer se inoculado pelo v\u00edrus da asneira, pelo menos n\u00e3o al\u00e9m da conta.<\/p>\n<p>Soube at\u00e9 que o Conselho da Uni\u00e3o Europeia lan\u00e7ou um guia de \u201ccomunica\u00e7\u00e3o inclusiva\u201d para a l\u00edngua portuguesa. Com tanta gente passando fome, morando nas ruas, se injetando com drogas pesadas e tocando o terror, os nobres embaixadores deveriam ter outras preocupa\u00e7\u00f5es na cabe\u00e7a, mas isso \u00e9 s\u00f3 a opini\u00e3o de um idiota sul-americano que fala \u2013 e gostaria de continuar falando \u2013 a l\u00edngua de E\u00e7a, Machado e Paulo Coelho.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou refrat\u00e1rio a novas ideias. Mas o mundo parece nos empurrar para um abismo. Numa outra reuni\u00e3o, a mocinha reclamou que estava sendo desrespeitada. Eu simplesmente pedi desculpas (por algo que n\u00e3o sei) e disse: \u201cEu n\u00e3o estou lhe desrespeitando, s\u00f3 colocando meu ponto de vista\u201d. Ela respondeu: \u201cSe eu estou me sentindo desrespeitada \u00e9 porque voc\u00ea est\u00e1 me desrespeitando\u201d. T\u00e1 bom, ent\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o me diz respeito se o sujeito quer andar vestido de girafa e falar assoviando como uma girafa, ou assumir a identidade sexual que quiser. S\u00f3 quero a liberdade de n\u00e3o participar desse desfile de carnaval sem serpentina e lol\u00f3 e saber que elas gostam de ser chamadas de elas, assim como eles gostam de ser eles.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 8 de novembro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A l\u00edngua portuguesa tem sido muito achincalhada nesses tempos. 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