{"id":1019,"date":"2020-11-15T16:07:43","date_gmt":"2020-11-15T19:07:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1019"},"modified":"2020-11-15T16:07:43","modified_gmt":"2020-11-15T19:07:43","slug":"realidade-fantastica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/realidade-fantastica\/","title":{"rendered":"Realidade fant\u00e1stica"},"content":{"rendered":"<p>Romancista pode inventar o que quiser; mundos paralelos, universos multidimensionais, personagens on\u00edricos, cenas mirabolantes. Jornalista precisa ser muito menos criativo; deve descrever fatos, se ater a obviedade da not\u00edcia e, ainda que v\u00e1 al\u00e9m do acontecimento, tem que manter os p\u00e9s no ch\u00e3o \u2013 ainda que, para atrair o leitor, use truques liter\u00e1rios; mas nada que v\u00e1 al\u00e9m de uma frase de efeito ou palavras provocadoras. S\u00e3o, portanto, p\u00f3los opostos de um mesmo of\u00edcio, aquele que trata de colocar palavras no papel imaculado.<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez a obra mais fant\u00e1stica da vida de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez seja a comprova\u00e7\u00e3o que um escritor objetivo \u2013 como o que escreveu o detalhado <em>Not\u00edcias de um Sequestro<\/em> \u2013 pode habitar a mesma cabe\u00e7a do delirante ficcionista de <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>. Mas algumas vezes realismo e fantasia se misturaram, conforme ele pr\u00f3prio admitiu, de maneira inversa.<\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o cabe jornalismo; nas not\u00edcias, fic\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente mentira. Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Na colis\u00e3o dos universos de Garc\u00eda M\u00e1rquez, not\u00edcias inventadas fizeram parte do portf\u00f3lio do jornalista, criador da Funda\u00e7\u00e3o Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI), em 1994. Ele admitiu ter inventado um protesto numa cidade do interior da Col\u00f4mbia para escrever uma mat\u00e9ria de jornal e, em outra ocasi\u00e3o, at\u00e9 ter criado um poeta \u2013 fict\u00edcio autor de cinco livros \u2013 para escrever uma coluna.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode comparar pecadilhos \u2013 assim seriam? \u2013 do escritor com, por exemplo, as perip\u00e9cias de Jayson Blair, jornalista americano que enganou editores e leitores do vetusto The New York Times publicando uma s\u00e9rie de artigos falsos ou plagiados, desmascarado em 2003. Ainda que sejam, ambos, farsantes.<\/p>\n<p>A melhor obra de Garc\u00eda M\u00e1rquez est\u00e1 mesmo na fic\u00e7\u00e3o; \u00e9 assim que ser\u00e1 lembrado enquanto a palavra escrita tiver algum valor. Mesmo que preferisse ser reconhecido como jornalista, sua contribui\u00e7\u00e3o no campo foi muito mais te\u00f3rica do que pr\u00e1tica, at\u00e9 pela dubiedade de algumas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Garc\u00eda M\u00e1rquez disse que todos os seus livros t\u00eam rigor jornal\u00edstico. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que ele fez obras a serem esmiu\u00e7adas por qualquer um que pretenda insistir no que ele chamava de \u201ca melhor profiss\u00e3o do mundo\u201d, caso de <em>Not\u00edcias de um Sequestro <\/em>e<em> Relato de um N\u00e1ufrago<\/em>. Mas ele tinha uma vis\u00e3o bem ampla da defini\u00e7\u00e3o de jornalismo.<\/p>\n<p>O livro <em>Gabo Periodista<\/em>, lan\u00e7ado pela FNPI e ainda sem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas, dispon\u00edvel em e-book, procura condensar o pensamento do escritor sobre o of\u00edcio. \u00c9 uma colet\u00e2nea de sua rela\u00e7\u00e3o com a not\u00edcia e com os jornalistas, a quem por muitas vezes evitou, preferindo ele mesmo contar sua hist\u00f3ria ao v\u00ea-la narrada por outros.<\/p>\n<p>Garc\u00eda M\u00e1rquez disse que todos os seus livros nasceram de hist\u00f3rias reais, \u00e0s quais ele adicionou o del\u00edrio. Mas, mais uma vez: se \u00e9 verdade que pode haver uma fic\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, com o aproveitamento de fatos reais para digress\u00f5es, o contr\u00e1rio \u00e9 impens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para simplificar: jornalismo pode ser feito com arte, mas n\u00e3o \u00e9 arte.<\/p>\n<p>Tudo isso poderia ser muito \u00fatil para o Brasil de hoje, onde a fic\u00e7\u00e3o tem engolido a realidade com uma voracidade fam\u00e9lica. Mas ser\u00e1 que a verdade ainda interessa a algu\u00e9m?<\/p>\n<p>Foto: cena do filme <em>Cr\u00f4nica de uma Morte Anunciada<\/em><\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 15 de novembro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romancista pode inventar o que quiser; mundos paralelos, universos multidimensionais, personagens on\u00edricos, cenas mirabolantes. 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