{"id":1023,"date":"2020-11-22T13:12:43","date_gmt":"2020-11-22T16:12:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1023"},"modified":"2020-11-22T13:12:43","modified_gmt":"2020-11-22T16:12:43","slug":"a-musica-e-o-divino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-musica-e-o-divino\/","title":{"rendered":"A m\u00fasica e o divino"},"content":{"rendered":"<p>A arte nasce de c\u00e9rebro e cora\u00e7\u00e3o, navega entre a ideia e a emo\u00e7\u00e3o; mas nem Freud conseguiu explicar a manifesta\u00e7\u00e3o, a centelha, a tal inspira\u00e7\u00e3o que d\u00e1 in\u00edcio ao processo criativo. \u2018De onde voc\u00ea tirou isso?\u2019, costumam ouvir os artistas. E por mais que expliquem, a gente s\u00f3 tem uma certeza: eles tamb\u00e9m n\u00e3o sabem.<\/p>\n<p>O samba tentou traduzir, com palavras de Paulo C\u00e9sar Pinheiro, como se d\u00e1 o nascimento. \u201cE o poeta se deixa levar por essa magia, e o verso vem vindo e vem vindo uma melodia\u201d. E chega no divino: \u201c\u00c9, faz pensar, que existe uma for\u00e7a maior que nos guia. Est\u00e1 no ar\u201d.<\/p>\n<p>A se acreditar nos antigos gregos, seriam fa\u00edscas produzidas por nove musas. Assim, Euterpe surgia para os m\u00fasicos, Erato para os poetas, Terps\u00edcore para os bailarinos e por a\u00ed adiante. Vindo dos c\u00e9us ou do Olimpo, o mist\u00e9rio da inspira\u00e7\u00e3o persiste.<\/p>\n<p>O radialista Ruy Godinho investiga a produ\u00e7\u00e3o da m\u00fasica popular do pa\u00eds h\u00e1 algum tempo. J\u00e1 publicou tr\u00eas livros \u2013 um quarto est\u00e1 no prelo e o quinto, dedicado aos compositores mineiros, em prepara\u00e7\u00e3o \u2013 e fez um programa de r\u00e1dio contando o processo da cria\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es. <em>Ent\u00e3o, Foi assim?<\/em> \u00e9 o t\u00edtulo do projeto.<\/p>\n<p>Com entrevistas e pesquisas, ele descobriu um monte de curiosidades sobre as 226 can\u00e7\u00f5es que est\u00e3o nos primeiros volumes da s\u00e9rie. Tamb\u00e9m escrutinou as motiva\u00e7\u00f5es dos compositores para encontrar os temas.<\/p>\n<p>Ele conta, por exemplo, que o samba <em>Sonho Meu<\/em>, escrito por D\u00e9lcio Carvalho e D. Ivone Lara, n\u00e3o foi feito para algum amor distante, como se imaginava, mas para os exilados, nos \u00faltimos dias de regime militar. E que o tema veio a Carvalho durante uma viagem de \u00f4nibus. Mas Godinho n\u00e3o resolveu a quest\u00e3o da inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado h\u00e1 poucos dias, o disco <em>Budapest Concert<\/em>, de Keith Jarrett, oferece pistas mais firmas para buscar uma resposta. O pianista norte-americano come\u00e7ou a se destacar com Charles Lloyd e, depois, Miles Davis, mas queria a liberdade absoluta que s\u00f3 o solo oferece. E entregou ao mundo um dos discos fundamentais do jazz: The K\u00f6ln Concert.<\/p>\n<p>Jarrett \u00e9 um improvisador; n\u00e3o se repete, busca a m\u00fasica em permanente evolu\u00e7\u00e3o e despreza a pauta que pereniza a composi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o toca mais. Dois derrames lhe paralisaram a m\u00e3o esquerda.<\/p>\n<p>O concerto que est\u00e1 sendo lan\u00e7ado foi gravado na terra natal dos av\u00f3s dele, o que oferece uma carga adicional de emo\u00e7\u00e3o. H\u00e1 1h 27min de m\u00fasica, dividida em 12 partes. Apenas uma delas \u2013 a 12\u00aa \u2013 teve alguma limita\u00e7\u00e3o; foi desenvolvida sobre a base de 12 compassos do blues tradicional.<\/p>\n<p>As demais s\u00e3o temas livres, criados naquele momento, diante de centenas de pessoas, numa manifesta\u00e7\u00e3o viva da influ\u00eancia de Euterpe, a musa dos m\u00fasicos. Duas can\u00e7\u00f5es formais fecham a grava\u00e7\u00e3o, mas certamente n\u00e3o se ouvir\u00e1 <em>It\u2019s a<\/em> <em>Lonesome Old Town<\/em> ou <em>Answer Me<\/em> da forma que ele apresenta em lugar nenhum.<\/p>\n<p>O improviso \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o da arte em estado bruto, sem filtros e polimentos. \u00c9 quase como ouvir o canto divino.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 22 de novembro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arte nasce de c\u00e9rebro e cora\u00e7\u00e3o, navega entre a ideia e a emo\u00e7\u00e3o; mas nem Freud conseguiu explicar a manifesta\u00e7\u00e3o, a centelha, a tal inspira\u00e7\u00e3o que d\u00e1 in\u00edcio ao processo criativo. \u2018De onde voc\u00ea tirou isso?\u2019, costumam ouvir os artistas. E por mais que expliquem, a gente s\u00f3 tem uma certeza: eles tamb\u00e9m n\u00e3o sabem. 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