{"id":1037,"date":"2020-12-27T11:17:34","date_gmt":"2020-12-27T14:17:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1037"},"modified":"2020-12-27T11:17:34","modified_gmt":"2020-12-27T14:17:34","slug":"amor-e-sexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/amor-e-sexo\/","title":{"rendered":"Amor e sexo"},"content":{"rendered":"<p>As amigas diziam que ela era danadinha. Havia uma pontinha de inveja na afirma\u00e7\u00e3o, talvez porque ela se comportasse de modo bem mais liberal que todas as outras; por isso, saia mais, beijava mais, conhecia mais gente, era mais popular. E nem ligava para os coment\u00e1rios \u2013 ou pelo menos dizia nem ligar.<\/p>\n<p>Mas ela passou a exagerar, at\u00e9 a correr riscos. Virou prisioneira da liberdade que tanto cultuou desde menina, com o pr\u00f3prio pai, que pagou as primeiras doses de chope e tamb\u00e9m de destilados, bebendo \u00e0 mesma mesa, na certeza que estava livrando o mundo de mais uma chata.<\/p>\n<p>\u201cQuem n\u00e3o bebe \u00e9 insuport\u00e1vel\u201d, dizia para justificar o ato. Ela cresceu e foi para o mundo com vol\u00fapia, mas uma ponta de amargura e solid\u00e3o, como a personagem de Um Caso Perdido, samba do Paulinho da Viola.<\/p>\n<p>Tinha realmente uma vida ativa, ligada na tomada, energizada. Parecia ir bem at\u00e9 se internada pela primeira vez numa cl\u00ednica para dependentes qu\u00edmicos, num ato raro: ela pr\u00f3pria foi ao estabelecimento e pediu a interna\u00e7\u00e3o depois de comprometer o emprego por causa dos excessos. Passou dois meses mexendo com a terra, plantando e colhendo, participando de palestras e trocando experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Voltou ao mundo renovada, decidida a n\u00e3o beber mais, o que cumpriu por muitos anos. Mas, talvez como forma de compensar as carraspanas, namorava. Com a mesma vol\u00fapia que consumiu copos no passado, colecionava amores. Era uma divers\u00e3o de quem n\u00e3o queria compromisso, ela dizia para as amigas, mas a verdade \u00e9 que ela queria algo mais, embora n\u00e3o soubesse.<\/p>\n<p>Da mesma maneira que viu os excessos de \u00e1lcool, ela pr\u00f3pria enxergou exageros nos amores. E um soube que havia um grupo de Dependentes do Amor e do Sexo, nos mesmos moldes dos Alco\u00f3licos An\u00f4nimos que ela frequentou, conseguindo vencer os 12 passos. Eram 10 pessoas na primeira reuni\u00e3o, realizada numa sala da Asa Norte, incluindo uma mediadora. N\u00e3o estranhou nada.<\/p>\n<p>As cadeiras estavam dispostas em c\u00edrculos, havia uma mesa com lanches no canto da pequena sala, o ambiente era s\u00f3brio, tudo como no AA. E o m\u00e9todo \u00e9 bem parecido: as pessoas se apresentam, se declaram dependentes e narram fatos acontecidos com elas e que as levaram at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que os vexames proporcionados pelo \u00e1lcool ficam embotados, mas os atos praticados por quem depende de amor e sexo s\u00e3o bem mais vivos na mem\u00f3ria. Mas a consci\u00eancia tem que ser maior que a vergonha.<\/p>\n<p>A cada caso, ela se enxergava. \u201cJ\u00e1 fiz isso\u201d, dizia para si mesma. Mas n\u00e3o conseguiu falar nada na primeira vez; sexo \u00e9 um tabu muito mais forte que o alcoolismo. Ela, que nunca teve problemas de narrar suas aventuras at\u00e9 para pessoas n\u00e3o muito pr\u00f3ximas, se sentiu oprimida naquele ambiente.<\/p>\n<p>A nossa amiga entendeu que estava usando o sexo como droga. A ci\u00eancia explica: a libera\u00e7\u00e3o da dopamina provoca sensa\u00e7\u00e3o de prazer semelhante, porque atingem a mesma regi\u00e3o do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Pela segunda vez ela venceu o desespero, a ang\u00fastia e o v\u00edcio. A pr\u00f3xima batalha est\u00e1 marcada: o inimigo da vez \u00e9 o chocolate.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em\u00a0 20 de dezembro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As amigas diziam que ela era danadinha. Havia uma pontinha de inveja na afirma\u00e7\u00e3o, talvez porque ela se comportasse de modo bem mais liberal que todas as outras; por isso, saia mais, beijava mais, conhecia mais gente, era mais popular. E nem ligava para os coment\u00e1rios \u2013 ou pelo menos dizia nem ligar. 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