{"id":1062,"date":"2021-01-24T11:42:13","date_gmt":"2021-01-24T14:42:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1062"},"modified":"2021-01-24T11:42:13","modified_gmt":"2021-01-24T14:42:13","slug":"pimenta-no-dos-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/pimenta-no-dos-outros\/","title":{"rendered":"Pimenta no dos outros"},"content":{"rendered":"<p>A pimenteira secou em plena pandemia. E n\u00e3o tinha a quem culpar. Normalmente se justifica a morte do arbusto com algum invejoso que passou pelo local e jogou seu olho gordo pelo ambiente. Os esot\u00e9ricos acreditam que a pimenteira, qualquer uma, at\u00e9 as que produzem frutos que n\u00e3o ardem, tem o poder de atrair as energias ruins, embora morram no processo.<\/p>\n<p>Todo mundo conhece algu\u00e9m com fama de seca-pimenteira. Nem sempre t\u00eam grandes olheiras, andam curvados e com express\u00e3o circunspecta, quando n\u00e3o furibunda \u2013 a descri\u00e7\u00e3o \u00e9 lombrosiana, se n\u00e3o do tipo criminoso definido pelo psiquiatra italiano Cesare Lombrose, mas pessoas com car\u00e1ter definido pela apar\u00eancia f\u00edsica. Preconceito em estado bruto.<\/p>\n<p>Mas a ci\u00eancia moderna j\u00e1 destruiu os dois mitos. O de Lombrose por se tratar de um absurdo desmedido, como se todos os fac\u00ednoras fossem feiosos e os belos, inocentes. A ci\u00eancia tem mesmo essa mania de acabar com o prazer dos mist\u00e9rios, da aventura; est\u00e1 cada dia mais dif\u00edcil ser criativo. \u00c9 a biologia quem demonstra que pimenteira \u00e9 uma planta de vida curta.<\/p>\n<p>Algumas duram dois anos, mas a maioria morre em 12 meses, se tanto, e precisa ser substitu\u00edda por outra, mesmo que receba todos os nutrientes e seja bem regada. Mas os aprendizes de bruxaria n\u00e3o desistem e tentam fazer com que a gente siga algumas regras para evitar que a casa seja infestada por gnomos, quando a maioria de n\u00f3s luta contra baratas.<\/p>\n<p>Para proteger a casa nos ensinam a manter plantas pontudas nos cantos do terreno; se tiver espa\u00e7o, palmeiras pata-de-elefante, se for uma \u00e1rea mais espalhada, espada-de-s\u00e3o-jorge ou comigo-ningu\u00e9m-pode e, em vaso, serve qualquer espinheiro. Menos cacto, sabe-se l\u00e1 porque. Por via das d\u00favidas, \u00e9 sempre bom ter um bom alarme eletr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Se bem que o objetivo dessa gente n\u00e3o \u00e9 nos proteger dos amigos do alheio, como se dizia no velho jarg\u00e3o policialesco, mas da inveja. As faltas divinas andam meio desmoralizados nesses nossos tempos. A inveja \u00e9 um dos pecados capitais, que na verdade podem ser traduzidos como v\u00edcios e est\u00e3o uma escala abaixo dos pecados mortais.<\/p>\n<p>Ainda assim, a remiss\u00e3o s\u00f3 funciona com a pena determinada pelo padre. N\u00e3o s\u00e3o pecados inconfess\u00e1veis, como os veniais \u2013 aborto, blasf\u00eamia, adult\u00e9rio e mais 15. Para se redimir desses, basta o arrependimento puro e simples. Curioso \u00e9 que o terrorismo faz parte dessa lista, assim como o suic\u00eddio, um ato dif\u00edcil de se arrepender.<\/p>\n<p>Mas os invejosos j\u00e1 inventaram at\u00e9 uma grada\u00e7\u00e3o para justificar alguma coisa. \u00c9 o caso de inveja branca, que seria quase uma admira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fosse a pseudo conota\u00e7\u00e3o racista que tentam impingir \u00e0 sugest\u00e3o, como se branco (o da bandeira da paz) e preto (o da bandeira dos piratas) se resumissem \u00e0 cor de pele. Ou n\u00e3o podemos mais dizer \u2018grana preta\u2019 e \u2018deu um branco\u2019?<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o vou substituir as pimenteiras que secarem. Mais f\u00e1cil ir ao mercado e comprar no saquinho a variedade que quiser e misturar no vinagre de ma\u00e7\u00e3. Mas, para garantir, vou manter o vidro com sal grosso e carv\u00e3o e a figa de madeira por perto.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 24 de janeiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pimenteira secou em plena pandemia. E n\u00e3o tinha a quem culpar. Normalmente se justifica a morte do arbusto com algum invejoso que passou pelo local e jogou seu olho gordo pelo ambiente. 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