{"id":1071,"date":"2021-02-07T12:32:07","date_gmt":"2021-02-07T15:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1071"},"modified":"2021-02-07T12:32:07","modified_gmt":"2021-02-07T15:32:07","slug":"o-tijolo-da-discordia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-tijolo-da-discordia\/","title":{"rendered":"O tijolo da disc\u00f3rdia"},"content":{"rendered":"<p>Priscas eras, provavelmente no tempo da impress\u00e3o a chumbo quente, me recusei a publicar aqui, neste mesmo Correio, um artigo em que o autor \u2013 vamos mant\u00ea-lo no anonimato \u2013 defendia picha\u00e7\u00f5es como manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Como hoje, havia rabiscos por toda a cidade, garabulhas apressadas pelo medo da pol\u00edcia chegar \u2013 tudo propositalmente feio, segundo o autor do artigo, para nos tirar do conforto visual.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou conhecedor de artes pl\u00e1sticas; ao contr\u00e1rio, tenho dificuldade em apreciar obras-primas consagradas e relacionar arte com fei\u00fara. Reconhe\u00e7o valor em Basquiat (embora o quadro do sujeito puxando a vaquinha me incomode muito; precisa muita teoria para explicar), j\u00e1 Richter e os abstratos contempor\u00e2neos s\u00e3o muito para as minhas limitadas no\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Mas picha\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ser vista como manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito de porco que fica escondidinho dentro de cada um de n\u00f3s. Todo mundo \u2013 ou quase \u2013 tem vontade de cometer uma transgress\u00e3ozinha, faz parte da vida; a inconsequ\u00eancia aparece at\u00e9 entre os mais circunspectos, ainda que as vezes se manifeste s\u00f3 por palavras.<\/p>\n<p>O Mister Hyde aparece durante um jogo de futebol, no tr\u00e2nsito ou no carnaval, quando o sujeito tira o anel de doutor para n\u00e3o dar o que falar e ao inv\u00e9s de tomar ch\u00e1 com torradas, bebe parati. A educa\u00e7\u00e3o serve exatamente para frear esses \u00edmpetos, ou pelo menos impedir que pare\u00e7am bestiais.<\/p>\n<p>O pichador \u00e9 isso: um sujeito incapaz de se destacar por algum m\u00e9rito e que avacalha o que tem pela frente. Antes carregavam baldes de piche; hoje usam uma latinha inventada por Edward Seymor, certamente com a melhor das inten\u00e7\u00f5es, e que, por lei, tem venda limitada. \u00c9 diferente do grafiteiro e do poeta de paredes, que cola cartazes com versos impressos e at\u00e9 ajuda a dar humanidade ao concreto.<\/p>\n<p>Agora temos o pichador reivindicador; ele suja, enfeia, mas tem algo a dizer. Depois de terminadas as reformas nas tesourinhas do Eix\u00e3o para evitar que os viadutos caiam sob nossas cabe\u00e7as \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de dizer \u2013 as novas paredes cinzentas amanheceram com uma inscri\u00e7\u00e3o, com letra caprichada: \u201cCad\u00ea os tijolinhos?\u201d Embaixo, o desenho de uma florzinha&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe discuss\u00e3o para saber o que tijolo tem a ver com flor. Mas o protesto merece alguma aten\u00e7\u00e3o: na reforma, foi retirado o acabamento de tijolinho de cer\u00e2mica marrom das paredes, agora cinzas, da cor do cimento. Os tijolinhos n\u00e3o eram tombados e os novos projetos foram simplificados.<\/p>\n<p>Sem entrar no m\u00e9rito da relev\u00e2ncia, faz parte da cultura da cidade debater esses temas. Ali\u00e1s, Bras\u00edlia desperta umas paix\u00f5es esquisitas nos moradores, natos ou importados. Aqui, briga-se at\u00e9 para preservar barrac\u00e3o que deveria ter sido derrubado logo depois da constru\u00e7\u00e3o, como acontece no planeta inteiro, e para preservar manadas de capivaras pulguentas que invadiram um lago artificial.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o surpreende que algu\u00e9m se incomode com a aus\u00eancia daqueles tijolinhos, que ali\u00e1s eram t\u00e3o feios quanto a parede cinzenta que est\u00e1 l\u00e1 e que foi pichada. Se h\u00e1 alguma evolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 que a caligrafia \u00e9 bem melhor que as garatujas pretas e borradas.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 7 de fevereiro de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Priscas eras, provavelmente no tempo da impress\u00e3o a chumbo quente, me recusei a publicar aqui, neste mesmo Correio, um artigo em que o autor \u2013 vamos mant\u00ea-lo no anonimato \u2013 defendia picha\u00e7\u00f5es como manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica. 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