{"id":1075,"date":"2021-02-14T13:49:36","date_gmt":"2021-02-14T16:49:36","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1075"},"modified":"2021-02-14T13:56:13","modified_gmt":"2021-02-14T16:56:13","slug":"a-folia-ficou-no-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-folia-ficou-no-passado\/","title":{"rendered":"A folia ficou no passado"},"content":{"rendered":"<p>Este ano n\u00e3o vai igual aquele que passou. Ali\u00e1s, a nenhum outro. Desde que os colonos brasileiros incorporaram o entrudo portugu\u00eas (uma saud\u00e1vel brincadeira em que as pessoas saiam sujando umas \u00e0s outras com lama, urina e at\u00e9 excre\u00e7\u00f5es mais s\u00f3lidas) o povo sai \u00e0s ruas fantasiado de Antonieta ou com a camisa social amarrada na altura do umbigo.<\/p>\n<p>S\u00e3o mais de cem anos de folia a serem interrompidos pelo v\u00edrus, embora se d\u00ea como certa a desobedi\u00eancia, outra tradi\u00e7\u00e3o carnavalesca e que vem desde 1841, quando os entrudos foram proibidos, mas continuaram assim mesmo. Quem consegue parar os blocos de sujo?<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, a festa acompanhou o nascimento da cidade, mesmo com a escassez feminina dos anos de poeira vermelha, em bailes realizados nos improvisados sal\u00f5es de madeira da Cidade Livre. Cresceu e formou seus artistas \u2013 compositores, m\u00fasicos e cantores \u2013 que faziam uma festa independente e animada.<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos musicais, a folia era praticamente dividida entre Fernando Lopes e Jos\u00e9 Louren\u00e7o, cantores que ocupavam praticamente todos os espa\u00e7os, e que at\u00e9 inventaram uma rivalidade, que s\u00f3 existiu para os ouvintes.<\/p>\n<p>Amigos, andavam no mesmo autom\u00f3vel quando caitituavam seus lan\u00e7amentos nas emissoras de r\u00e1dio da cidade, onde eram recebidos pelos comunicadores da \u00e9poca, como Galen Balfaker, da extinta R\u00e1dio Alvorada. No ar, se criticavam e se provocavam. E voltavam juntos, rindo da traquinagem.<\/p>\n<p>O filho de Jos\u00e9 Louren\u00e7o, hoje advogado Roberto de Sant\u2019Ana, s\u00f3 se lembra da parte da amizade que unia os dois primeiros \u00eddolos musicais de Bras\u00edlia. E escreveu:<\/p>\n<p>\u201cMeu pai j\u00e1 residia na cidade antes, bem antes de sua inaugura\u00e7\u00e3o. Apaixonado desde sempre pelos festejos Momescos, p\u00f4s-se a trabalhar, convocando m\u00fasicos &#8220;de fora&#8221;- que, via de regra, hospedavam-se em nosso apartamento.<\/p>\n<p>Teve como incans\u00e1vel parceiro na n\u00e3o pouca complexa saga o singular cancionista\u00a0 tamb\u00e9m pioneiro Fernando Lopes, amigo de todas as horas.<\/p>\n<p>Para resumo da hist\u00f3ria, o primeiro carnaval da Bras\u00edlia foi, a despeito das in\u00fameras dificuldades enfrentadas, de pleno sucesso.<\/p>\n<p>Dividiram as primeiras posi\u00e7\u00f5es no concurso realizado para marchas e sambas carnavalescos, os dois companheiros em destaque.<\/p>\n<p>Fernando era \u00edntimo de nossa casa, como seria de se esperar. Meus irm\u00e3os e eu o trat\u00e1vamos carinhosamente por &#8220;Tio&#8221;, como fazemos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Feliz propriet\u00e1rio de simpatia exuberante, sorriso largo e cativante, aprumo permanente no trajar, Fernando Lopes, para al\u00e9m de cantor consagrado, tornar-se-ia paralelamente em colunista de prest\u00edgio na capital, publicando textos saborosos e inteligentes nos jornais, muitos dos quais foram colecionados por meu pai e que hoje releio com sempre renovado prazer.<\/p>\n<p>Artistas pioneiros da &#8220;capital candanga&#8221;, pois, tomaram para si &#8211; como de forma diversa n\u00e3o poderia ser &#8211; o sublime encargo de disseminar alegria na urbe que dava seus primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o a um futuro radiante. Bras\u00edlia, para todo o sempre, penhoradamente h\u00e1 de agradecer-lhes.\u201d<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Louren\u00e7o j\u00e1 morreu; Fernando Lopes continua por aqui. Rec\u00e9m vacinado contra a covid-19, pode ser visto e ouvido nas noites de domingo na roda musical do bar Grao, no \u00faltimo com\u00e9rcio do Lago Norte. Mas sem marchinhas; ele se dedica aos boleros.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Isso Me Ama 1961\" width=\"1440\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6lGLkdhssck?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>No v\u00eddeo, a voz de Fernando Lopes cantando um de seus sucessos carnavalescos,<em> Isso Me Ama<\/em> (1961).<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 14 de fevereiro de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ano n\u00e3o vai igual aquele que passou. Ali\u00e1s, a nenhum outro. 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