{"id":1082,"date":"2021-02-21T09:43:04","date_gmt":"2021-02-21T12:43:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1082"},"modified":"2021-02-21T09:43:04","modified_gmt":"2021-02-21T12:43:04","slug":"a-magia-desfeita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-magia-desfeita\/","title":{"rendered":"A magia desfeita"},"content":{"rendered":"<p>Quando um bar fecha as portas a cidade morre um pouco. \u00c9 nos bares que a comunidade pulsa, que os humores se apresentam e as paix\u00f5es afloram. H\u00e1 poucos lugares t\u00e3o democr\u00e1ticos; com o fechamento de um bar o cidad\u00e3o perde sua embaixada, seu p\u00falpito, espa\u00e7o de reivindica\u00e7\u00e3o, protesto, lamento, desabafo.<\/p>\n<p>Como dizia o s\u00e1bio Tet\u00ea Catal\u00e3o, pode n\u00e3o mudar a situa\u00e7\u00e3o, mas altera sua disposi\u00e7\u00e3o. E assim foi o Feiti\u00e7o Mineiro, cen\u00e1rio de grandes hist\u00f3rias, palco de inef\u00e1veis personagens, dramas comezinhos e at\u00e9 decis\u00f5es que mexeram com a vida da cidade, que recentemente fechou definitivamente o expediente.<\/p>\n<p>Na capital que substituiu as esquinas por tesourinhas, os bares prop\u00f5em um pacto de encruzilhada, onde o capeta n\u00e3o entra \u2013 ou pelo menos nem sempre. S\u00e3o ambientes que humanizam o asfalto e o concreto, fazem contraponto \u00e0 imensid\u00e3o de jardins que abra\u00e7am a cidade e \u2013 importante \u2013 formam o ambiente de descompress\u00e3o entre trabalho e lar.<\/p>\n<p>O bar \u00e9 um ref\u00fagio, muitas vezes uma casamata contra os bombardeios do dia a dia, sempre um campo neutro, onde at\u00e9 a solid\u00e3o \u2013 esse sentimento t\u00e3o vilipendiado \u2013 \u00e9 respeitada. E, ao contr\u00e1rio do que se imagina, muitos relacionamentos foram salvos pelos bares, que entregam maridos mais leves, ledos e fagueiros \u00e0s esposas.<\/p>\n<p>Mas tem bar que vai muito al\u00e9m dessas fun\u00e7\u00f5es. O fechamento do Feiti\u00e7o Mineiro carrega um peda\u00e7o significativo da hist\u00f3ria de Bras\u00edlia. N\u00e3o da capital das autoridades de terno, gravata e abotoaduras, embora muitas delas tenham passado por suas mesas, mas da urbe da gente comum, de uma plebe nada ignara que faz a vida girar no compasso cordial \u2013 n\u00e3o o af\u00e1vel, mas aquele que vem direto do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram 31 anos de conviv\u00eancia, a maioria deles sob a dire\u00e7\u00e3o de Jorge Ferreira, que conjurou o feiti\u00e7o \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a: aberto, desbocado, apaixonado. Era um espa\u00e7o de cultura, descontra\u00e7\u00e3o ou debate \u2013 \u201caqui pode discutir tudo, at\u00e9 pol\u00edtica e religi\u00e3o\u201d, dizia o fundador que, insatisfeito com limita\u00e7\u00f5es, ampliou os debates com uma revista, Tira Prosa, de vida breve, mas marcante.<\/p>\n<p>O Feiti\u00e7o sempre serviu um bom chope, u\u00edsque honesto, petiscos valorosos, mas o que era realmente importante n\u00e3o vinha do balc\u00e3o. O bar abrigou uma fauna rica, misto de burocratas, poetas, intelectuais e vagabundos que mostrava a diversidade de pensamento e atitude. Ali, muitos cotovelos receberam os primeiros socorros, muitos encontros proibidos aconteceram, incont\u00e1veis amizades \u2013 e alguma alterca\u00e7\u00e3o \u2013 foram engendradas.<\/p>\n<p>Livros e discos foram lan\u00e7ados. Era um porto seguro para m\u00fasicos da cidade, que alternavam o ex\u00edguo espa\u00e7o do palco com artistas j\u00e1 consagrados, ampliando a percep\u00e7\u00e3o cultural na redu\u00e7\u00e3o \u2013 geograficamente falando \u2013 representada pelo gent\u00edlico do nome, at\u00e9 porque, na verdade, o feiti\u00e7o sempre foi brasiliense.<\/p>\n<p>O bar virou can\u00e7\u00e3o. O compositor mineiro Zebeto Corr\u00eaa, parceiro de Jorge Ferreira em um punhado de m\u00fasicas, pegou emprestadas as palavras de Caio Junqueira Maciel no poema <em>O Feiti\u00e7o Virou contra o Brasileiro<\/em> e fez uma can\u00e7oneta em homenagem ao palco de tantas vozes e que ele registrou no Facebook. Vale a pena ouvir:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/100000204529668\/posts\/4419361448080629\/?sfnsn=wiwspwa\">https:\/\/www.facebook.com\/100000204529668\/posts\/4419361448080629\/?sfnsn=wiwspwa<\/a><\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 21 de janeiro de 2021<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando um bar fecha as portas a cidade morre um pouco. \u00c9 nos bares que a comunidade pulsa, que os humores se apresentam e as paix\u00f5es afloram. H\u00e1 poucos lugares t\u00e3o democr\u00e1ticos; com o fechamento de um bar o cidad\u00e3o perde sua embaixada, seu p\u00falpito, espa\u00e7o de reivindica\u00e7\u00e3o, protesto, lamento, desabafo. 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