{"id":1103,"date":"2021-04-11T09:39:43","date_gmt":"2021-04-11T12:39:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1103"},"modified":"2021-04-11T09:39:43","modified_gmt":"2021-04-11T12:39:43","slug":"falta-a-trilha-sonora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/falta-a-trilha-sonora\/","title":{"rendered":"Falta a trilha sonora"},"content":{"rendered":"<p>Em outros tempos bicudos a m\u00fasica nos salvou. Compositores interpretavam a frustra\u00e7\u00e3o das pessoas, transformada em can\u00e7\u00f5es que, de alguma forma, serviam de consolo ou mesmo desabafo. A repress\u00e3o combatia por meio da censura oficial, mas havia alguma resist\u00eancia, o que bastava para aplacar a ang\u00fastia coletiva.<\/p>\n<p>Nos tempos do Estado Novo de Vargas, o samba era um inimigo t\u00e3o considerado quanto os comunistas. O jornalista \u00c1lvaro Salgado chegou a escrever na not\u00f3ria revista <em>Cultura Pol\u00edtica<\/em>, que o samba era \u201cindecente, desarm\u00f4nico e arr\u00edtmico, sendo necess\u00e1rio trabalhar para torn\u00e1-lo mais educado e social\u201d.<\/p>\n<p>E foi Radam\u00e9s Gnatalli, para a felicidade da elite, o respons\u00e1vel por dar ao samba a dignidade de uma orquestra, relegando os instrumentos de couro originais a um papel secund\u00e1rio \u2013 embora o arranjador tenha preservado uma cozinha bem brasileira, incluindo o prato batucado por Heitor dos Prazeres.<\/p>\n<p>Como a malandragem e o samba viviam de m\u00e3os dadas, o governo combatia o elogio ao \u00f3cio. O caso mais not\u00f3rio teria sido a mudan\u00e7a da letra do samba de Ataulfo Alves e Geraldo Pereira, que dizia \u201co bonde S\u00e3o Janu\u00e1rio\/ Leva mais um s\u00f3cio ot\u00e1rio\/ S\u00f3 eu n\u00e3o vou trabalhar\u201d.<\/p>\n<p>A lenda diz que, pressionados, os compositores foram convencidos a mudar a letra: \u201co bonde S\u00e3o Janu\u00e1rio\/ Leva mais um oper\u00e1rio\/ Sou eu que vou trabalhar\u201d. Mas n\u00e3o deve ter sido assim, afinal o samba j\u00e1 come\u00e7a com um elogio ao batente: \u201cQuem trabalha \u00e9 que tem raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A censura voltou forte no final dos anos 60 e teve muito trabalho. Foi o auge das m\u00fasicas de protesto no Brasil. <em>Pra n\u00e3o Dizer que n\u00e3o falei das Flores<\/em>, de Vandr\u00e9, <em>Apesar de Voc\u00ea<\/em>, de Chico Buarque, <em>Comportamento Geral<\/em>, de Gonzaguinha, s\u00e3o algumas das can\u00e7\u00f5es que fizeram o contraponto \u00e0 dureza do momento, alivio pela limita\u00e7\u00e3o das liberdades individuais.<\/p>\n<p>Hoje o que temos? Anita e MC Rebecca cantam \u201ct\u00f4 preocupada com a minha amiga\/ Ela t\u00e1 descontrolada\/N\u00e3o pode ver o gostoso\/ Que ela fica tarada\u201d; Israel e Rodolfo v\u00e3o de \u201cenquanto o som do pared\u00e3o toca\/ C\u00ea gasta seu batom de cereja\/ Eu bebo, c\u00ea beija, eu bebo, c\u00ea beija\u201d; Simone e Simaria confessam \u201cnunca prestei\/ e nem vou prestar\/ cora\u00e7\u00e3o que nasce torto\/ nunca vai se apaixonar\u201d. E depois reclamam que as pessoas n\u00e3o entendem quando se diz que n\u00e3o pode ter aglomera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ul>\n<li><\/li>\n<\/ul>\n<p>A prop\u00f3sito de m\u00fasica de protesto, j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel em alguns canais de streaming o filme <em>Os Estados Unidos contra Billie Holiday<\/em>, de Lee Daniels. \u00c9 uma hist\u00f3ria que gira em torno da obsess\u00e3o da cantora com a m\u00fasica <em>Strange Fruit<\/em>, um retrato cruel do racismo no sul dos Estados Unidos, que culmina com frutos estranhos perdurados por uma corda em \u00e1rvores que t\u00eam \u201csangue nas folhas, sangue na raiz\u201d.<\/p>\n<p>O filme conta a persegui\u00e7\u00e3o que o FBI dedicou a ela, infernizando ainda mais a atormentada vida de uma das maiores vozes da m\u00fasica norte-americana, com desempenhos marcantes de Andra Day (Billie Holiday) e de Trevant Rhoades, como o agente Jimmy Fletcher. \u00c9 um filme profundamente triste, mas fundamental.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 28 de mar\u00e7o de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outros tempos bicudos a m\u00fasica nos salvou. 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