{"id":1106,"date":"2021-04-11T09:45:14","date_gmt":"2021-04-11T12:45:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1106"},"modified":"2021-04-11T09:45:14","modified_gmt":"2021-04-11T12:45:14","slug":"o-sarau-improvisado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-sarau-improvisado\/","title":{"rendered":"O sarau improvisado"},"content":{"rendered":"<p>Bares com as portas novamente abertas, o neg\u00f3cio agora \u00e9 se adaptar ao hor\u00e1rio. Para ver futebol, s\u00f3 se for campeonato europeu por causa do fuso hor\u00e1rio, para ver os jornais da tev\u00ea, n\u00e3o se pode ir al\u00e9m dos programas vespertinos, regados a sangue; a op\u00e7\u00e3o \u00e9 o velho papo. Mas n\u00e3o tem sido f\u00e1cil.<\/p>\n<p>A turma vesperal dos botecos tem pouco a ver com os not\u00edvagos. No tempo em que se podia falar portugu\u00eas claro, eram chamados de bra\u00e7ais, uma rapaziada que pega no batente pesado, de m\u00e3os calejadas, orelhas secas \u2013 hoje soaria rude para esse pessoal de l\u00edngua delicada, que acha que o mundo ser\u00e1 melhor quando emudecer.<\/p>\n<p>Mas a mo\u00e7ada da noite est\u00e1 chegando mais cedo, se misturando e buscando o entendimento, porque na lei do botequim n\u00e3o se nega fogo e papo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitas esposas e detratores imaginam, botequim \u00e9 lugar de cultura. \u00c9 s\u00f3 dar um pouquinho de sorte e escolher o boteco certo para encontrar poetas, intelectuais e pensadores de todas as vertentes. Risco \u00e9 s\u00f3 comer um croquete frito no dia anterior, tomar uma pinga misturada ou um u\u00edsque batizado; o resto vale.<\/p>\n<p>A democracia do bar exige que todos tenham direito a opini\u00e3o, at\u00e9 mesmo aquele sujeito que fica na ponta do balc\u00e3o, gritando. Bar \u00e9 lugar de aproxima\u00e7\u00e3o, onde se admite at\u00e9 mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque depois que a ministra deu um giro de 180 graus em seu voto, todo mundo se sentiu liberado para virar metamorfose ambulante.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 censura, mas sempre determinada pela raz\u00e3o; a regra deve ser sempre a toler\u00e2ncia, embora de vez em quando os \u00e2nimos se acirrem e abrem espa\u00e7o para um quebra pau. E o frequentador de bar n\u00e3o se esconde atr\u00e1s de um avatar, de um pseud\u00f4nimo ou de uma identidade falsa como o pessoal que faz palanque nas redes sociais.<\/p>\n<p>A chegada do pessoal vespertino tem alterado essa rela\u00e7\u00e3o, mas o boteco \u00e9 tamb\u00e9m lugar de surpresa. Depois de ouvir nosso amigo advogado metido a poeta declamar Manoel Bandeira, o rapaz de roupas humildes, certamente desinibido pela cerveja que tomava no balc\u00e3o, disse que tamb\u00e9m conhecia um poema. E come\u00e7ou a narrar uma hist\u00f3ria de terror de um homem atormentado pelas \u00e1rvores que abatia, at\u00e9 se arrepender. S\u00f3 deu para gravar uma parte.<\/p>\n<p>Beijano o gaio e chorano<\/p>\n<p>Dizia: muito obrigado!<\/p>\n<p>Deus te fa\u00e7a aben\u00e7oado<\/p>\n<p>Todo ano ter verdor<\/p>\n<p>Vou arrebentar meu machado<\/p>\n<p>N\u00e3o serei mais lenhador<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois da jura santa<\/p>\n<p>Pra ter de todas as prantas<\/p>\n<p>A gra\u00e7a, o perd\u00e3o inteiro<\/p>\n<p>Dos crimes de homi ruim<\/p>\n<p>Foi se fazer jardineiro<\/p>\n<p>E n\u00e3o fazia outra coisa<\/p>\n<p>Sen\u00e3o tratar do jardim<\/p>\n<p>A v\u00f3, que j\u00e1 carregava<\/p>\n<p>Mais de setenta janeiros<\/p>\n<p>Dizia que neste mundo<\/p>\n<p>Nunca viu jardineiro<\/p>\n<p>Que fosse t\u00e3o bom assim<\/p>\n<p>Dormia todas as noites<\/p>\n<p>Deixando a janela aberta<\/p>\n<p>Pra escuitar todo o rumor<\/p>\n<p>E \u00e0s vezes int\u00e9 altas horas<\/p>\n<p>Ficava ali na janela<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o versos de Catulo da Paix\u00e3o Cearense (foto), narrados com sotaque nordestino e erros criados pelo pr\u00f3prio poeta. S\u00f3 foi interrompido quando o bodegueiro disse que n\u00e3o podia mais vender bebida alco\u00f3lica, encerrando o sarau improvisado.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 4 de abril de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bares com as portas novamente abertas, o neg\u00f3cio agora \u00e9 se adaptar ao hor\u00e1rio. Para ver futebol, s\u00f3 se for campeonato europeu por causa do fuso hor\u00e1rio, para ver os jornais da tev\u00ea, n\u00e3o se pode ir al\u00e9m dos programas vespertinos, regados a sangue; a op\u00e7\u00e3o \u00e9 o velho papo. Mas n\u00e3o tem sido f\u00e1cil. 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