{"id":1109,"date":"2021-04-11T09:50:58","date_gmt":"2021-04-11T12:50:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1109"},"modified":"2021-04-11T09:50:58","modified_gmt":"2021-04-11T12:50:58","slug":"enterrados-vivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/enterrados-vivos\/","title":{"rendered":"Enterrados vivos"},"content":{"rendered":"<p>A senhora chegou de repente, saiu do carro e esticou o pesco\u00e7o, perscrutando o ambiente, obviamente a procura de algu\u00e9m. Esperou mais um pouco sem falar com ningu\u00e9m at\u00e9 que desistiu, entrou no carro e foi embora. Jo\u00e3ozinho, o atendente que tamb\u00e9m faz as vezes de fofoqueiro, disparou:<\/p>\n<p>&#8211; Salvo pelo gongo!<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos em Londres. N\u00e3o h\u00e1 gongo, nem sino, sirene ou corneta no bar para avisar a hora em que o pub para de vender bebida. Mas ele usou uma figura de linguagem para se referir ao cliente que tinha acabado de deixar o estabelecimento, prov\u00e1vel alvo da senhora que esperava lavrar um flagrante no local. E a mesa ganhou assunto novo: \u2018que papel\u00e3o\u2019, \u2018mulher minha n\u00e3o faz isso\u2019, \u2018megera\u2019, \u2018frouxo\u2019.<\/p>\n<p>Mas tudo desembocou na sem\u00e2ntica. De onde vem essa express\u00e3o? Os mais \u00f3bvios acreditam que a origem est\u00e1 nas lutas de boxe, no final dos assaltos, marcados pelo clangor do gongo. Muitas vezes \u00e9 o que salva um pugilista do massacre.<\/p>\n<p>Boxe era briga de rua, disputado sem regras e com m\u00e3os nuas; s\u00f3 depois de 1867 \u00e9 que foi dividido em assaltos, iniciados e terminados em gongadas. Mas a express\u00e3o nasceu bem antes, segundo nos informou o professor Azevedo, enciclop\u00e9dia ambulante nem sempre presente na roda, e que narrou sua explica\u00e7\u00e3o a partir de alguns personagens.<\/p>\n<p>\u201cSabem o que o m\u00fasico Chopin, o qu\u00edmico Nobel e o pol\u00edtico George Washington tinham em comum?\u201d, perguntou o jurisconsulto, j\u00e1 respondendo: \u201cOs tr\u00eas tinham medo de serem enterrados vivos\u201d. E antes que algu\u00e9m pudesse gongar ou buzinar o vetusto companheiro pela men\u00e7\u00e3o \u00e0 tatofobia alheia ele engatou a hist\u00f3ria macabra.<\/p>\n<p>Sim, tatofobia \u00e9 o medo de ser enterrado vivo.<\/p>\n<p>At\u00e9 o s\u00e9culo XVIII eram comuns relatos de exuma\u00e7\u00e3o de caveiras reviradas ou de caix\u00f5es arranhados por dentro. Eram v\u00edtimas de catalepsia, enterradas vivas, como o personagem de Edgar Alan Poe no conto <em>O Enterro Prematuro<\/em>.<\/p>\n<p>Essa era a pa\u00fara que atormentava o compositor Frederic Chopin, que pediu para ter o cora\u00e7\u00e3o retalhado antes de ser levado no f\u00e9retro. Alfred Nobel criou a dinamite, mas exigiu que suas art\u00e9rias fossem abertas ap\u00f3s a morte e Washington escreveu que queria ser velado por tr\u00eas dias antes de ser enterrado.<\/p>\n<p>V\u00e1rios sistemas de preven\u00e7\u00e3o foram criados para tentar socorrer as v\u00edtimas do terr\u00edvel engano. Foram criados caix\u00f5es com janela de vidro, outros com espa\u00e7os para \u00e1gua e comida e at\u00e9 com sa\u00eddas de emerg\u00eancia, mas a solu\u00e7\u00e3o mais engenhosa foi bem mais simples: amarrar uma fita na m\u00e3o dos defuntos, ligada a um sino deixado do lado de fora, onde ficava algu\u00e9m permanentemente de plant\u00e3o por alguns dias. Muita gente foi \u201csaved by the bell\u201d, traduzida entre n\u00f3s como salvo pelo gongo.<\/p>\n<p>O marido ou namorado da senhora que apareceu no bar n\u00e3o parecia correr o risco de acordar num caix\u00e3o, embora a presa com que ele tenha deixado o estabelecimento \u2013 inclusive pendurando a conta \u2013 levantasse suspeitas.\u00a0 Mas para Jo\u00e3ozinho podia ser pior.<\/p>\n<p>\u2013 Pelo jeito que olhava, s\u00f3 ia jogar terra em cima.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 11 de abril de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A senhora chegou de repente, saiu do carro e esticou o pesco\u00e7o, perscrutando o ambiente, obviamente a procura de algu\u00e9m. Esperou mais um pouco sem falar com ningu\u00e9m at\u00e9 que desistiu, entrou no carro e foi embora. Jo\u00e3ozinho, o atendente que tamb\u00e9m faz as vezes de fofoqueiro, disparou: &#8211; Salvo pelo gongo! N\u00e3o estamos em Londres. 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