{"id":1113,"date":"2021-04-18T15:52:35","date_gmt":"2021-04-18T18:52:35","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1113"},"modified":"2021-04-18T15:53:57","modified_gmt":"2021-04-18T18:53:57","slug":"a-cidade-que-nasceu-no-bar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-cidade-que-nasceu-no-bar\/","title":{"rendered":"A cidade que nasceu no bar"},"content":{"rendered":"<p>Nem todo mundo sabe, mas Bras\u00edlia \u2013 essa mesmo que completa 61 anos de vida \u2013 nasceu num botequim. N\u00e3o podia dar errado. Ainda era madrugada no dia 19 de abril de 1956 quando o fundador assinou a Carta de An\u00e1polis e a mensagem ao Congresso Nacional, apresentando o projeto de Lei para a mudan\u00e7a da capital.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio foi um boteco que ficava ao lado do aeroporto de An\u00e1polis, onde o presidente Juscelino Kubitschek se refestelava com uma m\u00e9dia com p\u00e3o e manteiga. Na mensagem, JK citou os ideais da Inconfid\u00eancia Mineira como motiva\u00e7\u00e3o para o ato; a carta \u00e9, na verdade, um bilhete improvisado com garranchos, quem sabe escrita em papel de p\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da garatuja veio o X de Lucio Costa, mas antes disso, em 2 de outubro de 1956, JK pisou pela primeira vez no barro brasiliense e tomou caf\u00e9 na fazenda do Coronel Dilermando, no Gama. 39 dias depois ele estava de volta ao cerrado para inaugurar o Pal\u00e1cio de T\u00e1buas, que ficaria conhecido como Catetinho, para emular a sede do governo federal no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed o Brasil come\u00e7ou a olhar e caminhar para dentro, a entender que existe vida longe do Oceano Atl\u00e2ntico, e que havia riquezas a explorar al\u00e9m das esmeraldas que atraiam os bandeirantes e do ouro das Minas Gerais. Bras\u00edlia \u2013 que dizem ter nascido de um sonho santo \u2013 se transformou na realidade de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos olhos de hoje, o in\u00edcio parecia um pesadelo, mas eram tempos de paix\u00e3o. S\u00e3o v\u00e1rios os relatos mostrando que as esposas dos engenheiros e arquitetos tinham ci\u00fames do fasc\u00ednio que a nova cidade despertava nos maridos.<\/p>\n<p>Elvira Barney registrou as impress\u00f5es de 91 senhoras no livro <em>Mulheres Pioneiras de Bras\u00edlia<\/em>; algumas se lembram da primeira no\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o que chegou na cidade cheia de barracos de madeira: as bicas comunit\u00e1rias onde buscavam \u00e1gua limpa.<\/p>\n<p>Sem energia el\u00e9trica, as resid\u00eancias eram iluminadas com lampi\u00f5es a g\u00e1s ou querosene, dependendo das condi\u00e7\u00f5es financeiras de cada fam\u00edlia. Um dos primeiros programas de lazer era ver o n\u00edvel da \u00e1gua do Lago Parano\u00e1 subindo \u2013 conta-se at\u00e9 que quando se espalhou a not\u00edcia houve uma grande correria porque muita gente enterrava o dinheiro em buracos abertos no ch\u00e3o (na foto, o local onde hoje est\u00e1 o lago).<\/p>\n<p>Nos primeiros anos tamb\u00e9m circulava um caminh\u00e3o que estacionava e chamava as pessoas com um toque de sino; era um cinema ambulante. Montava-se uma tela, e o filme era exibido. E a m\u00fasica estava, literalmente, no ar. Carlos Senna criou um sistema de alto-falante na Cidade Livre (hoje N\u00facleo Bandeirante) onde can\u00e7\u00f5es dividiam o tempo com os primeiros reclames das lojas e alguns recados.<\/p>\n<p>As mulheres iam para as festas com um guarda-p\u00f3 e com um len\u00e7o cobrindo todo o rosto para proteger a maquiagem, tanta era a poeira. S\u00f3 se revelavam quando chegavam ao local da furrupa.<\/p>\n<p>Hoje, Bras\u00edlia est\u00e1 limpa e cheirosa, com gramados imensos, \u00e1rvores frondosas e passarinhos de todas as esp\u00e9cies. E, nessa \u00e9poca, verdinha. \u00c9 um raro caso de quem fica mais bonita com a passagem dos anos.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 18 de abril de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem todo mundo sabe, mas Bras\u00edlia \u2013 essa mesmo que completa 61 anos de vida \u2013 nasceu num botequim. N\u00e3o podia dar errado. Ainda era madrugada no dia 19 de abril de 1956 quando o fundador assinou a Carta de An\u00e1polis e a mensagem ao Congresso Nacional, apresentando o projeto de Lei para a mudan\u00e7a da capital. 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