{"id":1127,"date":"2021-05-10T09:18:06","date_gmt":"2021-05-10T12:18:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1127"},"modified":"2021-05-10T09:18:06","modified_gmt":"2021-05-10T12:18:06","slug":"a-bola-achatada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-bola-achatada\/","title":{"rendered":"A bola achatada"},"content":{"rendered":"<p>A pandemia vem transformando o mundo num lugar inteiramente falso, quase sem sentido. N\u00e3o h\u00e1 nenhum amargor na frase; \u00e9 s\u00f3 uma constata\u00e7\u00e3o, feita a partir da situa\u00e7\u00e3o mais besta do mundo: um jogo de futebol.<\/p>\n<p>A mais ordin\u00e1ria pelada, quando transmitida pelo r\u00e1dio, \u00e9 um \u00e9pico, um espet\u00e1culo aberto por cortinas de feltro, emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele. O bom narrador transforma a firula tosca num espet\u00e1culo, o jogador chamb\u00e3o vira g\u00eanio; a jogada banal ganha tintas gloriosas.<\/p>\n<p>O Brasil tem uma tradi\u00e7\u00e3o de grandes narradores que transformam as chamadas \u2013 por eles \u2013 quatro linhas, em um campo de luta com as mais mirabolantes estrat\u00e9gias militares. A pelada vira um drama digno da batalha de Azincourt, na pe\u00e7a Henrique V, de Shakespeare.<\/p>\n<p>Ouvir um jogo pelo r\u00e1dio era uma experi\u00eancia transcendental at\u00e9 pouco tempo, mas a objetividade de nossos dias vem nos tirando mais este prazer.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com o fim do mist\u00e9rio por tr\u00e1s da voz. O r\u00e1dio come\u00e7ou a transmitir programas com imagens, acabando com a magia de se imaginar a cara dos narradores durante a lida.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 poss\u00edvel ver a atua\u00e7\u00e3o de locutores, comentaristas e rep\u00f3rteres em cabine, num enquadramento estranho e invertido: ao inv\u00e9s de mostrar a partida e, naturalmente, os jogadores atr\u00e1s da pelota, exibe a cara \u2013 normalmente muito feia \u2013 dos narradores.<\/p>\n<p>Os radialistas elevaram o futebol a uma categoria especial de cr\u00f4nica falada, em que a verdade importa, mas bem menos que a vers\u00e3o. Hoje eles s\u00e3o objetivos, gelados, insistindo em explorar apenas o fato, sem espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o. Quem perde \u00e9 o torcedor que, presente no est\u00e1dio, mantinha o radinho de pilha na orelha para ouvir um jogo mais emocionante do que o que estava vendo.<\/p>\n<p>Houve tempo em que os torcedores eram personagens t\u00e3o populares quanto dirigentes. Gente como o brutamontes Tarzan, do Botafogo, o apaixonado Ary Barroso, do Flamengo, o supersticioso Fontainha, do Am\u00e9rica, o influente Galotti (ministro de Vargas), do Fluminense, ou a fan\u00e1tica Dulce Rosalina, do Vasco.<\/p>\n<p>Todos esses, e mais alguns, foram imortalizados no livro <em>Torcedores de Ontem e de Hoje<\/em>, de Jo\u00e3o Antero de Carvalho, lan\u00e7ado em 1968, e que ganhei de Renato Vivacqua. S\u00e3o perfis de pessoas que vivem pelo time, \u201chumanos no horror do sacrif\u00edcio di\u00e1rio e cont\u00ednuo pelos seus clubes, o sofrimento, a ang\u00fastia, a alegria, a inenarr\u00e1vel alegria de uma vit\u00f3ria\u201d, conforme atestou Nelson Rodrigues na orelha do livro.<\/p>\n<p>Alguns torciam com uma flautinha (Ary), outros usavam um sino (Bolinha), outros um foguet\u00f3rio infernal (Tarzan), num tempo de paix\u00f5es exacerbadas. Talvez o mais folcl\u00f3rico deles tenha sido o botafoguense, que alternava sua presen\u00e7a entre as p\u00e1ginas esportivas e policiais e ganhou reconhecimento at\u00e9 dos clubes advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mesmo em Bras\u00edlia, sem tanta tradi\u00e7\u00e3o esportiva, houve torcedores t\u00e3o reconhecidos quanto craques, como o falecido palha\u00e7o Pirulito, do Gama.<\/p>\n<p>Mas a \u00faltima novidade \u00e9 pior: com est\u00e1dios vazios, as emissoras transmitem um fundo falso, uma torcida fake gravada sabe-se l\u00e1 quando, incluindo \u2018uuuhs\u2019 e \u2018aaaahs\u2019 quando a bola passa perto e vaias quando um jogador erra. Tudo no estilo desses jogos de computador. Bola rolando sem gente de verdade gritando \u00e9 o retrato desse mundo chato.<\/p>\n<p>(Na foto, Ary Barroso transmitindo um jogo do Flamengo do telhado de uma casa vizinha ao campo)<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 9 de maio de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia vem transformando o mundo num lugar inteiramente falso, quase sem sentido. N\u00e3o h\u00e1 nenhum amargor na frase; \u00e9 s\u00f3 uma constata\u00e7\u00e3o, feita a partir da situa\u00e7\u00e3o mais besta do mundo: um jogo de futebol. A mais ordin\u00e1ria pelada, quando transmitida pelo r\u00e1dio, \u00e9 um \u00e9pico, um espet\u00e1culo aberto por cortinas de feltro, emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele. 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