{"id":1153,"date":"2021-06-21T10:06:02","date_gmt":"2021-06-21T13:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1153"},"modified":"2021-06-21T10:06:02","modified_gmt":"2021-06-21T13:06:02","slug":"bichos-soltos-na-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/bichos-soltos-na-cidade\/","title":{"rendered":"Bichos soltos na cidade"},"content":{"rendered":"<p>Essa hist\u00f3ria de cidade-parque que Lucio Costa criou, com imensos gramados, arvoredos e espa\u00e7os largos, \u00e9 o que forma a verdadeira identidade de Bras\u00edlia. Mais que pr\u00e9dios monumentais, pra\u00e7as de piso concretado e simbologia da arquitetura.<\/p>\n<p>A empatia do morador de Bras\u00edlia com a cidade tem mais a ver com os p\u00e9s no ch\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 at\u00e1vica com as imensid\u00f5es, do que com a mesura dos pal\u00e1cios.<\/p>\n<p>Aqui, a natureza surpreende. Quem v\u00ea fotos e filmes da \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o jamais imaginaria a for\u00e7a de plantas alien\u00edgenas no meio do cerrado in\u00f3spito, numa \u00e9poca em que n\u00e3o havia as m\u00e1gicas da Embrapa.<\/p>\n<p>Bastou o lago artificial encher para que o clima fosse modificado e \u00e1rvores de outras regi\u00f5es remodelassem a paisagem. As \u00e1rvores tortas e secas deram lugar a frondosas mangueiras, p\u00e9s de jamel\u00e3o (ambas origin\u00e1rias da \u00cdndia e aclimatadas no litoral brasileiro) e ip\u00eas (tamb\u00e9m litor\u00e2neas).<\/p>\n<p>Com frutas e flores, vieram passarinhos; atr\u00e1s deles vieram gavi\u00f5es e urubus. O bicho homem trouxe ratazanas e baratas. E mais urubus. Esta \u00e9 a parte mais complicada de ter a natureza t\u00e3o perto de casa: bichos nem sempre bem-vindos, embora atra\u00eddos por seres humanos.<\/p>\n<p>Hoje temos saru\u00eas enxeridos habitando telhados de mans\u00f5es, capivaras curiosas abordando remadores, macaquinhos andando pelos fios dos postes e frequentando pomares, quero-queros fazendo morada nos gramados e corujas buraqueiras girando o pesco\u00e7o, pousadas nas cercas das casas. Alguns s\u00e3o simp\u00e1ticos, outros podem ser mais violentos quando se sentem amea\u00e7ados.<\/p>\n<p>E h\u00e1 alguns que ningu\u00e9m quer ter por perto. Quem acompanha estas mal datilografadas linhas, sabe que tenho um amigo que vive \u00e0s turras com um casal de urubus. Morador de um apartamento de cobertura, recebe diariamente a visita do casal de abutres, que faz pouso e at\u00e9 ninho no local.<\/p>\n<p>Incomodariam menos se n\u00e3o fizessem as necessidades fisiol\u00f3gicas no local, embora o aspecto l\u00fagubre n\u00e3o agrade a vista de ningu\u00e9m. Ocorre que xixi e coc\u00f4 de urubu \u00e9 pior que \u00e1cidos muri\u00e1tico e sulf\u00farico, misturados. Corr\u00f3i tudo. E fede.<\/p>\n<p>E meu amigo j\u00e1 buscou todas as alternativas para que o casal voasse para longe, sem sucesso. Comprou um produto que promete espantar aves, melecou toda a m\u00e3o para passar no parapeito e&#8230; nada.<\/p>\n<p>Antes, j\u00e1 havia comprado um aparelho sonoro que prometia espantar p\u00e1ssaros, instalou um espantalho p\u00f3s-moderno e at\u00e9 soltou roj\u00f5es na dire\u00e7\u00e3o dos bichos, mas eles nem ligaram. Dias desses foi a uma loja de ferragens, dessas que vendem de quase tudo. Queria uma ratoeira e o balconista perguntou o tamanho do rato.<\/p>\n<p>Ele ficou sem jeito de dizer que \u00e9 para tentar pegar urubu e pediu a maior de todas; levou quatro. Tem 15 dias que os urubus est\u00e3o comendo carne e queijo. Pelo jeito, urubu \u00e9 mais vivo que rato.<\/p>\n<p>A nova sugest\u00e3o que ele recebeu \u00e9 comprar um aparelho de som e deixar tocando o velho samba-enredo da Beija-Flor dos tempos de Jo\u00e3ozinho Trinta: \u201cSai do lixo a nobreza\/ Euforia que consome\/ Se ficar o rato pega\/ Se cair urubu come\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 20 de junho de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa hist\u00f3ria de cidade-parque que Lucio Costa criou, com imensos gramados, arvoredos e espa\u00e7os largos, \u00e9 o que forma a verdadeira identidade de Bras\u00edlia. Mais que pr\u00e9dios monumentais, pra\u00e7as de piso concretado e simbologia da arquitetura. 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