{"id":1168,"date":"2021-07-11T10:26:03","date_gmt":"2021-07-11T13:26:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1168"},"modified":"2021-07-11T10:26:03","modified_gmt":"2021-07-11T13:26:03","slug":"coisas-que-falam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/coisas-que-falam\/","title":{"rendered":"Coisas que falam"},"content":{"rendered":"<p>Tem gente que conversa com bot\u00f5es; outros ouvem a voz da consci\u00eancia e h\u00e1 quem fale pelos cotovelos. Os mais rom\u00e2nticos seguem Bilac e, ora (direis) ouvem estrelas sem perder o senso, na certeza que \u00e9 preciso am\u00e1-las para entend\u00ea-las.<\/p>\n<p>Mas Roberto Nogueira Ferreira prefere ouvir seus velhos discos; n\u00e3o da forma que todos n\u00f3s ouvimos, percebendo ritmos, letras e melodias que saem dos sulcos, via agulha, mas a partir de di\u00e1logos que explicam e justificam as obras que est\u00e3o ali gravadas, na vis\u00e3o \u2013 ou melhor \u2013 na fala dos pr\u00f3prios discos.<\/p>\n<p>E foi com os ouvidos atentos que escreveu um livro inteiro com discos guerreiros \u2013 <em>A Sociedade dos Elep\u00eas indignados: A Revolta dos Bolach\u00f5es<\/em>. S\u00e3o mais de 350 p\u00e1ginas com di\u00e1logos engajados, entremeados com letras de can\u00e7\u00f5es que marcaram a hist\u00f3ria do Brasil como cr\u00f4nicas de suas \u00e9pocas. Vez ou outra aparecem can\u00e7\u00f5es de amor, para deixar claro que os brutos tamb\u00e9m amam.<\/p>\n<p>O autor n\u00e3o teve pretens\u00e3o de fazer uma obra enciclop\u00e9dica. Nada de datas, detalhes t\u00e9cnicos e estudos semi\u00f3ticos; s\u00f3 um relato passional em que aparecem can\u00e7\u00f5es e discos \u2013 do tempo em que eles realmente tinham formato de c\u00edrculos chatos \u2013 em que n\u00e3o \u00e9 obedecida nem a sequ\u00eancia l\u00f3gica dos lan\u00e7amentos, mas agrupamentos de afinidades. \u00c9 uma conversa animada, sensorial e descompromissada. E gostosa de ouvir (ou ler).<\/p>\n<p>Nas p\u00e1ginas, casos saborosos e pedacinhos de biografias entremeiam as can\u00e7\u00f5es, tornando os di\u00e1logos mais interessantes do que a simples impress\u00e3o que o personagem Louco Por Vinil (LPV) tem das obras \u2013 ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de mestre de cerim\u00f4nia da assembleia que instituiu a sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que um breve per\u00edodo da vida de Taiguara \u00e9 apresentado \u2013 com destaque para a destrui\u00e7\u00e3o de um disco pronto e longo ex\u00edlio \u2013 e \u00e9 desvendado o truque para aprovar a can\u00e7\u00e3o <em>Cicatrizes<\/em>, de Maur\u00edcio Tapaj\u00f3s e Paulo C\u00e9sar Pinheiro (a m\u00fasica entrou num pacote de can\u00e7\u00f5es que seriam gravadas pelo ultrarrom\u00e2ntico Agnaldo Tim\u00f3teo, ludibriando os censores).<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem quando as coisas come\u00e7aram a falar, mas elas s\u00e3o capazes at\u00e9 de revelar segredos. Pode ser uma algazarra, como no caso dos acumuladores que se recusam a jogar fora at\u00e9 mesmo um parafuso pu\u00eddo ou aquela sentimentalidade que vem com aquele presente de uma pessoa querida. Sim, porque objetos trazem muito mais do que a forma f\u00edsica.<\/p>\n<p>Algumas pessoas d\u00e3o nomes a seres inanimados mais \u00edntimos, como o bluesman B.B. King que tratava sua guitarra por Lucille (ali\u00e1s, mesmo nome que o vil\u00e3o Negan deu a seu bast\u00e3o enrolado com arame farpado em The Walking Dead). Cynthia Rylant escreveu um belo livro sobre isso \u2013 <em>A Velhinha que Dava Nome \u00e0s Coisas<\/em> \u2013 melanc\u00f3lico o suficiente para extrapolar o universo infantil ao qual foi destinado.<\/p>\n<p>Discos e livros, especialmente, t\u00eam a medi\u00fanica fun\u00e7\u00e3o dos cavalos na umbanda e carregam emo\u00e7\u00f5es intransfer\u00edveis e inexplic\u00e1veis, que transcendem a forma f\u00edsica e se arraigam \u00e0 alma. Como dispensar um disco que serviu de trilha-sonora para um momento marcante? Ou um livro ganho daquela namoradinha especial?<\/p>\n<p>Melhor sentar e apurar os ouvidos. Coisas t\u00eam o que dizer.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 11 de julho de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem gente que conversa com bot\u00f5es; outros ouvem a voz da consci\u00eancia e h\u00e1 quem fale pelos cotovelos. Os mais rom\u00e2nticos seguem Bilac e, ora (direis) ouvem estrelas sem perder o senso, na certeza que \u00e9 preciso am\u00e1-las para entend\u00ea-las. 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