{"id":1175,"date":"2021-07-19T10:06:29","date_gmt":"2021-07-19T13:06:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1175"},"modified":"2021-07-19T10:06:29","modified_gmt":"2021-07-19T13:06:29","slug":"descansem-em-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/descansem-em-paz\/","title":{"rendered":"Descansem em paz"},"content":{"rendered":"<p>Ainda n\u00e3o saiu no obitu\u00e1rio do jornal, mas certamente \u00e9 porque algu\u00e9m cochilou. J\u00e1 devia ter sido publicado o falecimento e at\u00e9 missas de s\u00e9timo dia e de anivers\u00e1rios do Formador de Opini\u00e3o. Sujeito fino, \u00e0s vezes fidalgo, outras vezes metido a besta, era ele quem decidia as coisas por todos os outros.<\/p>\n<p>Com o dom da ubiquidade ele podia ser visto em todos os ambientes derramando conceitos e defini\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que foi tragado: ningu\u00e9m mais quer saber a opini\u00e3o do Formador de Opini\u00e3o. E para economizar no f\u00e9retro, est\u00e1 indo com ele o L\u00edder, que s\u00f3 sobrevive hoje no ambiente pouco recomend\u00e1vel dos partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Formavam uma dupla do barulho. Fizeram o que quiseram durante muitos anos ao interpretar os desejos coletivos do jeito que sempre acharam melhor; mais at\u00e9, enquanto um se arvorava de condutor das massas o outro buscava mold\u00e1-las. E o mundo foi constru\u00eddo sob os alicerces dessas figuras amorfas, ainda que \u2013 ainda que metaforicamente \u2013 bem vestidas.<\/p>\n<p>O Formador de Opini\u00e3o era ouvido sempre que se precisava falar de qualquer coisa. Hoje, h\u00e1 quem tente substitu\u00ed-lo pelo \u201cespecialista\u201d, mas este n\u00e3o tem o menor glamour e anda cada vez mais desacreditado, tanto pelo uso excessivo, quanto pelo personalismo. Afinal, o Formador de Opini\u00e3o nunca teve cara ou identidade claras.<\/p>\n<p>O L\u00edder nunca precisou argumentar. Bastava decidir unilateral e ditatorialmente o que era melhor para os outros e seguir em frente, que uma ruma de gente o acompanhava, sem muito argumentar, sem reclamar, repetindo frases feitas sob medida \u2013 como ovelhas que, mesmo balindo, seguem fielmente o pastor e seu cajado.<\/p>\n<p>A\u00ed o povo resolveu bagun\u00e7ar tudo. Aqui, em nossa Pindorama, destruiu o mito do brasileiro cordial que soci\u00f3logos constru\u00edram por tantos anos, p\u00f4s abaixo a tese da \u00edndole pac\u00edfica que servia de esteio para tantas brutalidades oficiais. O brasileiro, de repente, virou um cidad\u00e3o de voz ativa. Um rebelde de sand\u00e1lia de dedo; tipo Macuna\u00edma (na foto, segundo Grande Otelo).<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe ainda no que isso vai dar. Neste primeiro momento, h\u00e1 um evidente desarranjo do que se convencionou chamar tecido social, com palpites demais, troca de ofensas e muito pouca intelig\u00eancia. O fil\u00f3sofo italiano Umberto Eco foi um dos pioneiros na an\u00e1lise da internet: \u201cas redes sociais deram voz a uma legi\u00e3o de imbecis\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, quem frequenta bar sabe que nunca foi negada voz aos imbecis. Naquele ambiente an\u00e1rquico, todo mundo tem direito a falar o que quer e muitas vezes a ouvir o que n\u00e3o quer, embora obedecendo ao regimento interno. E cada boteco tem o seu. O Silvio n\u00e3o gosta que se fale de mulher. \u201cIsso s\u00f3 d\u00e1 confus\u00e3o\u201d, repete.<\/p>\n<p>Alguns s\u00e3o mais tolerantes. No bar do Bira do Parano\u00e1 ele deixava claro que s\u00f3 arrumava confus\u00e3o com quem n\u00e3o tinha dinheiro para pagar a conta. Fechou, n\u00e3o se sabe se foi por causa do pendura.<\/p>\n<p>Mas o problema \u00e9 que as redes sociais aumentaram a confus\u00e3o, acabaram com a liturgia do boteco, que sempre respeitou a hierarquia intelectual. Professor aposentado da Um, PhD, nosso amigo come\u00e7ou a descrever o ambiente pol\u00edtico com polidez e alguma erudi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que ouviu-se uma voz de fora da mesa. \u201cN\u00e3o #\u00a7\u00a2*, professor. T\u00e1 errado isso a\u00ed!\u201d<\/p>\n<p>Era Baiano, o flanelinha, cheio de opini\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 18 de julho de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda n\u00e3o saiu no obitu\u00e1rio do jornal, mas certamente \u00e9 porque algu\u00e9m cochilou. 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