{"id":1180,"date":"2021-07-25T08:54:12","date_gmt":"2021-07-25T11:54:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1180"},"modified":"2021-07-25T09:12:01","modified_gmt":"2021-07-25T12:12:01","slug":"poesias-etilicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/poesias-etilicas\/","title":{"rendered":"Poesias et\u00edlicas"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 exatamente um parnasiano. Mal sentou-se e, sem que fosse feito o menor aceno, foi servido, com cerveja de garrafa \u201cmofada\u201d, canela-de-pedreiro, estalando de gelada. Antes do primeiro gole, olhou para o copo j\u00e1 suado e, alto e bom som, declamou:<\/p>\n<p><em>Eu bebo,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 por v\u00edcio, nem por nada<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 que olho no fundo do copo<\/em><\/p>\n<p><em>E vejo o rosto da mulher amada<\/em><\/p>\n<p><em>E eu n\u00e3o quero que ela morra afogada!<\/em><\/p>\n<p>Aplausos e risadas, ningu\u00e9m se cansa do ritual de todos os s\u00e1bados, quando o proctologista M\u00e1rio abandona seus afazeres e vira mortal, como um Thor que deixa o martelo de lado por alguns instantes. Ele est\u00e1 ali para aliviar tens\u00f5es e lembrar que a vida \u00e9 para ser celebrada.<\/p>\n<p>M\u00e1rio \u00e9 um fil\u00f3sofo; acredita que afogar as m\u00e1goas na bebida \u00e9 um desperd\u00edcio. De bebida. Ainda assim adora as can\u00e7\u00f5es que trazem temas et\u00edlicos, sem preconceitos \u2013 de <em>Vingan\u00e7a<\/em>, de Lupic\u00ednio, a <em>Gar\u00e7om<\/em>, de Rossi. S\u00f3 n\u00e3o atura a grandiloqu\u00eancia de <em>O \u00c9brio<\/em>, de Celestino.<\/p>\n<p>Todos os personagens dessas \u2013 e de uma infinidade de outras \u2013 can\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00edtimas da falta de escr\u00fapulos de donos de bar.<\/p>\n<p>O bom dono de bar deve ser um companheiro; deve ficar atento aos sinais que mostram a predisposi\u00e7\u00e3o do sujeito que quer beber para esquecer. E parar de servir, deixar a gan\u00e2ncia de lado.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisa chegar ao exagero do Seu Nelson que limita o consumo em tr\u00eas doses: \u201d- A quarta n\u00e3o \u00e9 aqui\u201d, repete sempre.<\/p>\n<p>E explica: n\u00e3o gosta de aturar bicudo. Prefere perder a venda a ver algu\u00e9m ficar tonto em seu estabelecimento. E n\u00e3o adianta insistir, fazer o quatro levantando uma das pernas, recitar um trava-l\u00edngua sem gaguejar, ajoelhar. \u00c9 um intransigente. At\u00e9 com doutor.<\/p>\n<p>Seu Nelson acredita que o bar \u00e9 um nivelador social. Todo mundo ali tem a mesma import\u00e2ncia \u2013 menos ele, l\u00f3gico, que est\u00e1 acima de todos. E exerce o poder imperial, at\u00e9 mesmo de dar bola preta para determinados sujeitos que, apesar do controle, passaram da conta.<\/p>\n<p>Foi o caso do velho Morsa, que fica bicudo praticamente no primeiro trago, e n\u00e3o \u00e9 mais servido no estabelecimento. Ele j\u00e1 se humilhou, pediu para ficar \u2013 nem o diploma de m\u00e9dico ajudou. Morsa nem perturba ningu\u00e9m; fica num canto recitando poesias imagin\u00e1rias, conversando com pessoas que s\u00f3 ele v\u00ea ou cantarolando improvisos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem se divirta, mas Seu Nelson n\u00e3o gosta do espet\u00e1culo. Diz que \u00e9 degrada\u00e7\u00e3o e se recusa a participar dela. \u00c9 o dono de bar exemplar. Trata a todos com um respeito que nem o pr\u00f3prio cliente tem por si.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 mal-humorado. Consegue rir at\u00e9 quando o Doutor M\u00e1rio se levanta e repete pela en\u00e9sima vez:<\/p>\n<p><em>Desce pinga marvada,<\/em><\/p>\n<p><em>Por esse buraco sem fim,<\/em><\/p>\n<p><em>L\u00e1 em baixo voc\u00ea num vai encontrar<\/em><\/p>\n<p><em>Nem figo, nem ba\u00e7o nem rim.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c1gua do capeta,<\/em><\/p>\n<p><em>Sangue do satan\u00e1s,<\/em><\/p>\n<p><em>80 capeta junto,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o faz o que essa danada faz.<\/em><\/p>\n<p><em>Vai pra l\u00e1, vem pra c\u00e1<\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 bom beber neste lugar.<\/em><\/p>\n<p>E desce mais uma.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 25 de julho de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 exatamente um parnasiano. Mal sentou-se e, sem que fosse feito o menor aceno, foi servido, com cerveja de garrafa \u201cmofada\u201d, canela-de-pedreiro, estalando de gelada. 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