{"id":1202,"date":"2021-08-22T10:09:29","date_gmt":"2021-08-22T13:09:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1202"},"modified":"2021-08-22T10:09:29","modified_gmt":"2021-08-22T13:09:29","slug":"exorcismo-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/exorcismo-cultural\/","title":{"rendered":"Exorcismo cultural"},"content":{"rendered":"<p>Assombra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, porque o espa\u00e7o \u00e9 aberto demais e alma penada gosta de um escurinho. Mas n\u00e3o d\u00e1 para negar que a concha ac\u00fastica de Bras\u00edlia carrega uma maldi\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio de sua hist\u00f3ria \u2013 ningu\u00e9m consegue explicar porque ela foi inaugurada s\u00f3 em 1969, depois de receber espet\u00e1culos desde o ano um da nova capital, estreando com a apresenta\u00e7\u00e3o do Bal\u00e9 Municipal do Rio de Janeiro.<br \/>\nNos primeiros tempos, os anos candangos, a concha foi o palco de grandes espet\u00e1culos que se aproveitavam do longo per\u00edodo de estiagem. Um deles pelo menos passou para a hist\u00f3ria como a primeira aglomera\u00e7\u00e3o depois da festa da inaugura\u00e7\u00e3o: quase 30 mil pessoas de uma popula\u00e7\u00e3o em torno de 400 mil plebeus, cantaram e dan\u00e7aram com a realeza do i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea \u2013 Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderl\u00e9a \u2013 em 1967.<br \/>\nA Concha Ac\u00fastica de Bras\u00edlia merece ser visitada mesmo sem espet\u00e1culo, \u00e0 beira do lago, com um desenho que respeita a integra\u00e7\u00e3o do concreto com a natureza e se aproveita da exuber\u00e2ncia do c\u00e9u e da proximidade com a \u00e1gua. \u00c9 uma das mais injusti\u00e7adas obras de Oscar Niemeyer, j\u00e1 que aparece em poucos cat\u00e1logos, mas s\u00f3 a escadaria diante da concha propriamente dita, como se fosse uma continua\u00e7\u00e3o do palco, merece ser apreciada.<br \/>\nSe h\u00e1 algum defeito, ele \u00e9 comum \u00e0 maioria das obras do arquiteto: o distanciamento de \u00e1rvores e a aus\u00eancia de paisagismo, para n\u00e3o tirar a aten\u00e7\u00e3o das linhas de concreto. Com Niemeyer, o concreto sempre vence.<br \/>\nA maldi\u00e7\u00e3o, no entanto, independe da beleza, pois a Concha foi fechada e reaberta algumas vezes. Em setembro de 2014 foi reinaugurada depois de passar por mais uma reforma. OK. Mas nada aconteceu dali para frente e a falta de uso fez com que os equipamentos se deteriorassem, at\u00e9 que algu\u00e9m resolvesse desafiar a maldi\u00e7\u00e3o e espantar os fantasmas, que hoje disputam espa\u00e7o com as capivaras no local.<br \/>\nEis que Bart\u00f4 liga para dizer que a concha ac\u00fastica est\u00e1 de volta. Depois de anos de inatividade, o espa\u00e7o foi mais uma vez revitalizado, reaberto e ter\u00e1 uma ocupa\u00e7\u00e3o mais permanente. Bart\u00f4 \u00e9 Bartolomeu Rodrigues, secret\u00e1rio de cultura, desenhista de passarinhos, fabricante de sorvetes, contador de \u2018causos\u2019, tocador de Cajon, jornalista \u2013 como se v\u00ea, quase um homem da Renascen\u00e7a. Agora, tamb\u00e9m candidato a exorcista.<br \/>\nCheio de ideias, incluindo muitas exibi\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, ele quer mostrar que a Concha precisa ser valorizada n\u00e3o apenas como mais um monumento projetado por Niemeyer, mas como espa\u00e7o cultural e \u00fatil para a comunidade. O desafio \u00e9 manter uma programa\u00e7\u00e3o permanente no local, que atraia as pessoas para os desconfort\u00e1veis bancos de concreto e sem encosto. Se n\u00e3o for assim, a Concha se fecha novamente.<br \/>\nMas Bart\u00f4 \u00e9 de Serra Talhada, terra de Lampi\u00e3o, gente valente, que n\u00e3o tem (muito) medo de visagem. E quer aproveitar o resto da temporada de seca para aplicar o exorcismo cultural no equipamento, mesmo com todos os impedimentos provocados por essa pandemia sem fim. Afinal, quem nadou no rio Paje\u00fa n\u00e3o se deixa vencer. Torcemos por ele.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 22 de agosto de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assombra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, porque o espa\u00e7o \u00e9 aberto demais e alma penada gosta de um escurinho. 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