{"id":1217,"date":"2021-09-19T08:00:03","date_gmt":"2021-09-19T11:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1217"},"modified":"2021-09-19T08:00:03","modified_gmt":"2021-09-19T11:00:03","slug":"chorando-pelas-arvores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/chorando-pelas-arvores\/","title":{"rendered":"Chorando pelas \u00e1rvores"},"content":{"rendered":"<p>Ideiafix \u00e9 um cachorrinho que gani desesperadamente cada vez que v\u00ea uma \u00e1rvore ser arrancada. O que ocorre com certa frequ\u00eancia nas hist\u00f3rias em quadrinhos criadas pelos franceses Goscinny e Uderzo a partir 1959, principalmente quando seu dono, Obelix, enfrenta romanos ou ca\u00e7a javalis nas florestas da G\u00e1lia. Foi o primeiro personagem abertamente defensor da natureza.<\/p>\n<p>Cidade parque, obedecendo o conceito criado por Le Corbusier e abra\u00e7ado por L\u00facio Costa, Bras\u00edlia tamb\u00e9m exerce um poder m\u00e1gico sobre seus habitantes, n\u00e3o como o da po\u00e7\u00e3o do druida Panoramix sobre os irredut\u00edveis gauleses, mas ainda assim poderoso. As \u00e1rvores fazem parte dessa magia.<\/p>\n<p>Algumas pessoas se apaixonam tanto que agora, nessa bobagem de linguagem politicamente correta, as plantas passaram a ser chamadas de \u201cindiv\u00edduos arb\u00f3reos\u201d. S\u00e3o os nossos Ideiafix, que defendem \u00e1rvores \u2013 mesmo as esp\u00e9cies importadas \u2013 com unhas, dentes, cordas e o que mais estiver \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Est\u00e1 acontecendo agora no Sudoeste, onde alguns moradores lutam contra a retirada de algumas \u00e1rvores para a constru\u00e7\u00e3o de um viaduto. Nem mesmo a reposi\u00e7\u00e3o ambiental \u2013 no DF cada \u00e1rvore nativa retirada exige o plantio de outras 10; se for esp\u00e9cie ex\u00f3tica, s\u00e3o cinco \u2013 serve de consolo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 algo novo. Moradores de v\u00e1rias quadras protestam at\u00e9 quando \u00e9 preciso fazer poda, mesmo que represente perigo para eles mesmos, que passam pelo local e estacionam seus carros. Mesmo que no Distrito Federal, todos os anos, sejam plantadas de seis a oito mil \u00e1rvores \u2013 frut\u00edferas ou ornamentais \u2013 a turma Ideiafix chora a cada galho cortado.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, um amigo morador da Asa Sul, fez protesto solit\u00e1rio contra os trabalhadores enviados para cortar uma \u00e1rvore que ficava na frente do bloco. Valente, se p\u00f4s \u00e0 frente do caminh\u00e3o para impedir as manobras, imitando aquele chin\u00eas que enfrentou um tanque de guerra na Pra\u00e7a da Paz Celestial, em Pequim. Do chin\u00eas eu n\u00e3o sei, meu amigo continua por a\u00ed, o que mostra a vantagem da democracia. Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A tentativa de impedir o caminh\u00e3o n\u00e3o deu muito certo e meu amigo apelou para uma a\u00e7\u00e3o mais radical: acorrentou-se \u00e0 \u00e1rvore condenada \u00e0 motosserra. Os trabalhadores se divertiam com o fuzu\u00ea, outros moradores apoiavam o protesto, mas alguns o chamaram de palha\u00e7o. Disposto a tudo para defender a \u00e1rvore, imensa, que alcan\u00e7ava os \u00faltimos andares do bloquinho \u2013 um daqueles de tr\u00eas andares com pilotis, das quadras 400.<\/p>\n<p>Meu amigo s\u00f3 n\u00e3o perdeu os cabelos porque j\u00e1 n\u00e3o os tem h\u00e1 tempos. Falando grosso, desafiava o que ele chamava de inimigos da natureza, amantes do concreto, brutos, insens\u00edveis. N\u00e3o adiantaram as explica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de que as ra\u00edzes da \u00e1rvore amea\u00e7avam a estrutura do pr\u00e9dio. Estava irredut\u00edvel com um gaul\u00eas do gibi.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, resolveu ligar para uma amiga que entendia de plantas, procurando solidariedade e contou toda hist\u00f3ria. A amiga tentou ser solid\u00e1ria, mas n\u00e3o teve jeito.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 um f\u00edcus, uma falsa-seringueira. N\u00e3o vale nada e s\u00f3 d\u00e1 dor de cabe\u00e7a. Deixa cortar.<\/p>\n<p>Cabisbaixo, meu amigo parou de cuincar, recolheu a corrente e foi esconder sua vergonha.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 19 de setembro de 2021<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ideiafix \u00e9 um cachorrinho que gani desesperadamente cada vez que v\u00ea uma \u00e1rvore ser arrancada. O que ocorre com certa frequ\u00eancia nas hist\u00f3rias em quadrinhos criadas pelos franceses Goscinny e Uderzo a partir 1959, principalmente quando seu dono, Obelix, enfrenta romanos ou ca\u00e7a javalis nas florestas da G\u00e1lia. 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