{"id":1223,"date":"2021-09-25T17:54:43","date_gmt":"2021-09-25T20:54:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1223"},"modified":"2021-09-25T17:54:43","modified_gmt":"2021-09-25T20:54:43","slug":"um-sonho-de-50-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-sonho-de-50-anos\/","title":{"rendered":"Um sonho de 50 anos"},"content":{"rendered":"<p>O otimismo anda em baixa no mercado da vida. Ler a primeira p\u00e1gina de um jornal \u00e9 embarcar numa viagem l\u00fagubre como a daqueles antigos trens fantasmas de parques de divers\u00e3o, que traziam uma surpresa aterrorizante a cada virada de esquina. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que a gente sabia que no final a luz do dia iria surgir, radiante. O ser humano, que nunca foi muito digno de confian\u00e7a, anda pior que nunca \u2013 e com vi\u00e9s de baixa.<\/p>\n<p>Como o universo est\u00e1 sempre a conspirar, algu\u00e9m lembra que a can\u00e7\u00e3o <em>Imagine<\/em>, de John Lennon, est\u00e1 completando 50 anos. \u00c9 talvez a m\u00fasica mais otimista jamais escrita, embora a concorr\u00eancia seja dura. Vai desde <em>What a Wonderful World<\/em> (Que mundo maravilhoso), eternizada por Louis Armstrong, at\u00e9 <em>O Que \u00e9, O Que \u00e9<\/em>, de Gonzaguinha, quando deixou de ser o cantor rancor. Mas <em>Imagine<\/em> tem algo a mais.<\/p>\n<p>H\u00e1 50 anos o mundo n\u00e3o estava melhor do que hoje, embora os saudosistas queiram nos convencer do contr\u00e1rio. Em setembro de 1971 a guerra fria resistia, o Vietn\u00e3 ainda vivia um conflito quente, Louis Armstrong havia morrido dois meses antes e, pior, Pel\u00e9 faria sua \u00faltima partida com a camisa 10 canarinha. Ainda assim, John Lennon encontrou motivos para pregar um mundo de paz e harmonia.<\/p>\n<p>Ele disse que a inspira\u00e7\u00e3o veio de Grapefruit, um livro de poemas de Yoko Ono; logo ela, acusada de fazer tanto inferno que provocou o fim dos Beatles. \u201cNaquela \u00e9poca eu era um pouco mais ego\u00edsta, um tanto mais machista e eu omiti a contribui\u00e7\u00e3o dela, mas a ideia surgiu diretamente de Grapefruit\u201d, disse a John Blaney em <em>A Vida de Lennon<\/em>.<\/p>\n<p>O compositor definiu sua can\u00e7\u00e3o, com algum cinismo: &#8220;\u00c9 antirreligiosa, antinacionalista, anticonvencional, anticapitalista, mas \u00e9 aceita porque \u00e9 adocicada &#8230; agora eu compreendo o que se tem a fazer: transmitir sua mensagem pol\u00edtica com um pouco de mel.&#8221;<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Imagine<\/em> tem bem mais que mel. Terceira colocada na rela\u00e7\u00e3o das 500 melhores can\u00e7\u00f5es na lista da revista Rolling Stone, est\u00e1 entre as 30 m\u00fasicas mais tocadas no s\u00e9culo passado e mesmo aqueles que n\u00e3o gostam de m\u00fasicas estrangeiras e preferem o samba se rendem ao primeiro acorde em d\u00f3 e principalmente \u00e0 for\u00e7a dos 22 versos cheios de f\u00e9, a partir de uma provoca\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cimagine que o para\u00edso n\u00e3o existe\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias um rapaz que amealhava uns trocados no Eix\u00e3o Norte fechou os olhos e tocou a can\u00e7\u00e3o ao viol\u00e3o; muita gente parou e sentou durante os tr\u00eas minutos de dura\u00e7\u00e3o do que parecia uma celebra\u00e7\u00e3o, aplaudindo muito. Cantou em ingl\u00eas mesmo, j\u00e1 que a vers\u00e3o em portugu\u00eas, gravada por Paulo Ricardo nunca colou e nem faz justi\u00e7a aos versos originais; individualiza uma quest\u00e3o coletiva desde o primeiro verso \u2013 \u201cesque\u00e7a os seus problemas\u201d.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o vai contra todos os instintos primais do ser humano, sugere uma sublima\u00e7\u00e3o com a delicadeza de uma sugest\u00e3o, uma evolu\u00e7\u00e3o espiritual que muitos \u2013 nesses tempos conflagrados \u2013 podem considerar demod\u00ea. <em>Imagine<\/em> deixa uma pergunta pendente h\u00e1 meio s\u00e9culo: ainda \u00e9 tempo de sonhar?<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 26 de setembro de 2021<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O otimismo anda em baixa no mercado da vida. 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