{"id":1240,"date":"2021-10-24T17:49:23","date_gmt":"2021-10-24T20:49:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1240"},"modified":"2021-10-24T17:52:38","modified_gmt":"2021-10-24T20:52:38","slug":"com-o-rabo-entre-as-pernas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/com-o-rabo-entre-as-pernas\/","title":{"rendered":"Com o rabo entre as pernas"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais ou menos 30 anos, m\u00fasicos profissionais e amadores come\u00e7aram a se reunir numa peixaria do final da Asa Norte. Eram diletantes; ningu\u00e9m recebia nada pelo espet\u00e1culo, que n\u00e3o era feito para o p\u00fablico, mas para eles pr\u00f3prios, numa troca de viv\u00eancias e talentos que melhorou a habilidade de muita gente.<\/p>\n<p>A peixaria do Deraldo fechou, a 216 norte ficou sem gra\u00e7a, mas o bandolinista Coqueiro n\u00e3o desistiu e levou a roda para o final do Lago Norte, que herdou a mesma anima\u00e7\u00e3o. Todos os domingos, final da tarde, samba e choro fechavam a semana.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"COQUEIRO . CHORINHOS . BAR NO GRAO . 16.01. .mpg\" width=\"1333\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xmYS6bnkj-A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a j\u00e1 faz 15 anos. Os m\u00fasicos se renovaram, Dion\u00edsio Della Penha \u2013 nome de batismo de Coqueiro \u2013 morreu, mas o choro continuou na cal\u00e7ada do bar No Grao. Suspensa na pandemia, a roda musical est\u00e1 voltando aos poucos, com outros m\u00fasicos diletantes. Ou pelo menos estava. No \u00faltimo domingo, a trucul\u00eancia dos fiscais entrou em a\u00e7\u00e3o e decidiu fechar o local com a alega\u00e7\u00e3o de \u201cexerc\u00edcio de atividade de alto risco\u201d.<\/p>\n<p>Fiscal do DF Legal, do alto de sua pseudoimport\u00e2ncia, n\u00e3o explica nada. Se pelo menos conhecesse a Lei, saberia que o anexo VI do decreto 36.948 define como alto risco, abate de bovinos, equinos, bufalinos ovinos e caprinos. Ao que se saiba n\u00e3o s\u00e3o executados bois no pequeno com\u00e9rcio; muito menos b\u00fafalos, ao menos um bode. O maior perigo ali \u00e9 uma eventual desafinada de um cantor aleat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O que parecia incomodar o fiscal Claudinaldo de Tal, que exibia uma reluzente corrente de ouro no pulso direito enquanto \u2013 cena de pastel\u00e3o \u2013 buscava no google uma forma de tipificar a ocorr\u00eancia, era a alegria demostrada pelos frequentadores do local com a m\u00fasica. At\u00e9 porque a maioria das pessoas estava com m\u00e1scara e preservava alguma dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ele dizia, com a ajuda de outro fiscal, Wilson de Tal, que o local n\u00e3o pode ter m\u00fasica sem se dar conta que eram m\u00fasicos que al\u00e9m de n\u00e3o receber nada por tocar ainda pagam a conta do que consomem.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s dos instrumentos est\u00e3o professores universit\u00e1rios aposentados, coron\u00e9is reformados, servidores p\u00fablicos, gente comum, moradores do bairro. Mas os fiscais n\u00e3o viram nada disso; n\u00e3o viram sequer o alvar\u00e1 que permite o funcionamento do local at\u00e9 a uma da madrugada. Queriam apenas mostrar que podem fazer o que quiserem, ao arrepio da Lei.<\/p>\n<p>Tr\u00eas policiais militares acompanhavam as \u2018otoridades\u2019, mas nem isso dava ar de seriedade \u00e0s duas tristes figuras \u2013 era uma ign\u00f3bil caricatura do momento de trucul\u00eancia pelo qual passa o pa\u00eds. Os policiais estavam visivelmente constrangidos de ter que \u201cproteger\u201d a dupla dos moradores do local, gente pacata, que estava ali para se divertir um pouco, antes de mais uma semana de batente.<\/p>\n<p>Os fiscais s\u00f3 n\u00e3o contavam com a rea\u00e7\u00e3o da clientela, que protestou vivamente contra os absurdos, demonstrando claramente que aquele n\u00e3o era uma festa patrocinada, mas um congra\u00e7amento comunit\u00e1rio. Foram desmoralizados; o bar fechou, mas os moradores se abasteceram e permaneceram no local at\u00e9 que os fiscais se retirassem com o rabo entre as pernas.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 24 de outubro de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais ou menos 30 anos, m\u00fasicos profissionais e amadores come\u00e7aram a se reunir numa peixaria do final da Asa Norte. Eram diletantes; ningu\u00e9m recebia nada pelo espet\u00e1culo, que n\u00e3o era feito para o p\u00fablico, mas para eles pr\u00f3prios, numa troca de viv\u00eancias e talentos que melhorou a habilidade de muita gente. 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