{"id":1247,"date":"2021-10-31T08:50:24","date_gmt":"2021-10-31T11:50:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1247"},"modified":"2021-10-31T08:50:24","modified_gmt":"2021-10-31T11:50:24","slug":"a-normalista-e-o-sorvete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-normalista-e-o-sorvete\/","title":{"rendered":"A normalista e o sorvete"},"content":{"rendered":"<p>As olheiras enormes, cinzentas e profundas evidenciavam o cansa\u00e7o da mo\u00e7a. A colega que iria rend\u00ea-la ficou doente e l\u00e1 estava ela dobrando o servi\u00e7o; e fazia de tudo. Talvez pelo esgotamento, n\u00e3o parava de falar. Estava diante de um cliente que certamente mal conhecia, mas despejava lam\u00farias e inconformismo.<\/p>\n<p>&#8211; Bom era no tempo da minha av\u00f3, quando as mulheres s\u00f3 trabalhavam em casa, n\u00e3o tinham que dar duro na rua tamb\u00e9m e depois ainda cuidar da fam\u00edlia, organizar as coisas, fazer comida para deixar na geladeira, olhar se o menino fez dever de casa&#8230;<\/p>\n<p>O senhorzinho que estava sendo atendido ainda tentou argumentar, dizendo que as mulheres lutaram muito para ter direitos iguais e que o trabalho era uma parte importante da vida, aquela conversa comprida de sempre, que irrita quem est\u00e1 atr\u00e1s querendo s\u00f3 pagar a cibalena que comprou \u2013 sim, est\u00e1vamos numa pequena farm\u00e1cia no Gama.<\/p>\n<p>Sem ter muito o que fazer al\u00e9m de esperar, comecei a viajar no di\u00e1logo dos dois quando o telefone pia. E era uma mensagem que parecia querer se intrometer na conversa, j\u00e1 que trazia um contrato para a contrata\u00e7\u00e3o de professoras em 1923.<\/p>\n<p>Era um documento ainda em branco, com espa\u00e7o para nome e detalhes pessoais a preencher, mas com revela\u00e7\u00f5es importantes que mostram como era a vida das mulheres naquele tempo sonhado pela balconista estressada. Ali estavam listadas exig\u00eancias para que a candidata ao cargo de professora fosse aceita.<\/p>\n<p>Hoje seria um esc\u00e2ndalo; ainda mais que as mulheres do Congresso protestam at\u00e9 pela liberdade de usar decote (no que est\u00e3o cert\u00edssimas, ali\u00e1s). Mas em 1923 as mulheres nem podiam votar \u2013 ainda teriam que esperar nove anos depois. Para assinar um contrato v\u00e1lido por oito meses e receber um sal\u00e1rio mensal de $ 75 mil reis era preciso concordar com os seguintes termos:<\/p>\n<ol>\n<li>N\u00e3o se casar. Este contrato ficar\u00e1 automaticamente anulado e sem efeito se a professora se casa.<\/li>\n<li>N\u00e3o andar na companhia de homens.<\/li>\n<li>Ficar em sua casa entre as 8h da noite e \u00e0s seis da manh\u00e3, a n\u00e3o ser que seja para atender a uma fun\u00e7\u00e3o escolar.<\/li>\n<li>N\u00e3o passear pelas sorveterias do centro da cidade.<\/li>\n<li>N\u00e3o abandonar a cidade sob nenhum pretexto, sem permiss\u00e3o do presidente do Conselho de Delegados.<\/li>\n<li>N\u00e3o fumar cigarros. Este contrato ficar\u00e1 automaticamente anulado e sem efeito se a professora for encontrada fumando.<\/li>\n<li>N\u00e3o beber cerveja, vinho ou u\u00edsque. Este contrato ficar\u00e1 automaticamente anulado e sem efeito se a professora for encontrada bebendo cerveja, vinho ou u\u00edsque.<\/li>\n<li>N\u00e3o viajar em carruagem ou autom\u00f3vel com qualquer homem exceto seu irm\u00e3o ou seu pai.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas mo\u00e7as \u2013 as normalistas \u2013, com seus vestidinhos azuis em suspens\u00f3rios e camisas brancas, aturdiam os homens de antanho. Culpa em parte do samba de 1949, de Benedito Lacerda e David Nasser, interpretado por Miltinho e Nelson Gon\u00e7alves. Hoje n\u00e3o se v\u00ea mais normalistas uniformizadas, mas os uniformes s\u00e3o vendidos em sex shops, vejam s\u00f3.<\/p>\n<p>Agora, 98 anos depois, essas oito exig\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o feitas nem mesmo pelo Vaticano quando busca informa\u00e7\u00f5es para canonizar algu\u00e9m. S\u00f3 n\u00e3o estava claro se o sorvete estava liberado ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>N\u00c3O publicado no Correio Braziliense em 31 de outubro de 2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As olheiras enormes, cinzentas e profundas evidenciavam o cansa\u00e7o da mo\u00e7a. A colega que iria rend\u00ea-la ficou doente e l\u00e1 estava ela dobrando o servi\u00e7o; e fazia de tudo. Talvez pelo esgotamento, n\u00e3o parava de falar. 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