{"id":1252,"date":"2021-11-07T10:25:11","date_gmt":"2021-11-07T13:25:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1252"},"modified":"2021-11-07T10:25:11","modified_gmt":"2021-11-07T13:25:11","slug":"a-virtude-do-chato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-virtude-do-chato\/","title":{"rendered":"A virtude do chato"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar pessoas autodepreciativas hoje em dia. Normalmente eles andam com uma nuvenzinha preta sobre a cabe\u00e7a que a gente v\u00ea de longe; e n\u00e3o \u00e9 apenas um subproduto da crise moral que o Pa\u00eds vive, embora certamente seja um fen\u00f4meno influenciado pela vida moderna, cheia de regrinhas n\u00e3o combinadas antes e que n\u00e3o entendemos, onde at\u00e9 a ironia vem sendo condenada.<\/p>\n<p>Estamos todos sob escrut\u00ednio, em revis\u00e3o permanente, como se fosse preciso apagar o passado para avan\u00e7ar. E assim acreditamos que a mudan\u00e7a de nome de ponte, a derrubada de uma est\u00e1tua de um her\u00f3i transformado em vil\u00e3o, o vandalismo em s\u00edmbolos religiosos, s\u00e3o mais importantes do que a\u00e7\u00f5es efetivas. Apenas porque \u00e9 como quer\u00edamos que o passado tivesse sido.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 apenas uma digress\u00e3o para chegar ao ponto: a autocomisera\u00e7\u00e3o. Normalmente, s\u00e3o pessoas que est\u00e3o de mal com a vida, que veem a exist\u00eancia como um estorvo, que n\u00e3o sabem o que fazer numa manh\u00e3 ensolarada ou numa noite fria. Est\u00e3o sempre de cabe\u00e7a baixa, cheio de lamentos. Mas h\u00e1 quem se orgulhe da condi\u00e7\u00e3o e faz quest\u00e3o de espalhar o \u2013 sup\u00f5e-se \u2013 defeito.<\/p>\n<p>Era bem no in\u00edcio da tarde quando ele se aproximou da rodinha que, claro, tratava da filosofia da vida e do Campeonato Brasileiro naquele boteco improvisado. N\u00e3o era um desconhecido, mas precisava ser apresentado a alguns no recinto. Como ningu\u00e9m se animou a apresent\u00e1-lo, logo depois de uma r\u00e1pida \u2013 embora desnecess\u00e1ria \u2013 interven\u00e7\u00e3o, ele disse, de bate-pronto: \u201cDesculpe, eu sou um chato!\u201d.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que v\u00edamos algu\u00e9m se introduzir assim, com uma eiva. Normalmente, para ser aceito, o sujeito precisa dizer alguma compostura, que possa contribuir com o grupo social. Mas como o mundo anda diferente, talvez algu\u00e9m prepare uma lei com sistema de cotas obrigando a presen\u00e7a de chatos nas rodas de cerveja, como era o caso.<\/p>\n<p>Passada a estranheza, o rapaz mostrou que tinha ao menos uma virtude: n\u00e3o era mentiroso. \u00c9 mesmo um chato. E dos grandes. Se metia em tudo, falava alto, lan\u00e7ava perigosos perdigotos pelo ar e, embora inteligente, era \u2013 caracter\u00edstica de todo chato \u2013 repetitivo e veemente. Atrapalhava o papo que precedia o almo\u00e7o e deu-se o fen\u00f4meno t\u00e3o conhecido quanto a pororoca amaz\u00f4nica: o espalha-bolinho.<\/p>\n<p>O chato tem esse poder. Uma vez que ele se instala, s\u00f3 uma a\u00e7\u00e3o radical pode resolver o problema. Talvez por isso aqueles piolhos pubianos receberam o apelido de chato. S\u00e3o resistentes a bomba de flit, detefon, baygon e \u00e0s vezes at\u00e9 a Ivermectina. Da\u00ed, o \u00fanico jeito \u00e9 a depila\u00e7\u00e3o. No nosso caso o isolamento resolveu.<\/p>\n<p>Levantamos do boteco improvisado para mudar de ares, porque ainda n\u00e3o hav\u00edamos terminado os assuntos. A roda foi recomposta algumas quadras \u00e0 frente, mas \u00e9 claro que o chato, ainda que ausente, continuou por ali; virou assunto principal e esquecemos as relevantes tratativas. Chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que chato aborrece mesmo que esteja longe.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que no pr\u00f3ximo s\u00e1bado ele certamente estar\u00e1 l\u00e1. E n\u00f3s n\u00e3o estamos preparados para abandonar o boteco improvisado. Alguma sugest\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar pessoas autodepreciativas hoje em dia. 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