{"id":1256,"date":"2021-11-14T09:30:53","date_gmt":"2021-11-14T12:30:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1256"},"modified":"2021-11-14T09:30:53","modified_gmt":"2021-11-14T12:30:53","slug":"quando-o-povo-canta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/quando-o-povo-canta\/","title":{"rendered":"Quando o povo canta"},"content":{"rendered":"<p>No princ\u00edpio eram contrafa\u00e7\u00f5es: Cauby Peixoto, Orlando Dias, Carlos Alberto. Vozes potentes, como se exigia de cantores da \u00e9poca, mas com uma interpreta\u00e7\u00e3o mais teatral, ainda mais exagerada do que os gigantes do r\u00e1dio. Depois, vieram outros tantos, na improv\u00e1vel mistura de rock (i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea) e bolero, com vozes mais juvenis: Paulo S\u00e9rgio, Reginaldo Rossi, Odair Jos\u00e9, entre muitos outros.<\/p>\n<p>Era essa a verdadeira m\u00fasica popular do Brasil, bem distante daquela que receberia a marca MPB, com can\u00e7\u00f5es que sensibilizavam as elites, mas deixavam o povo de fora da festa. Com a ascens\u00e3o dos artistas sertanejos, que incorporaram guitarras, coros e gala \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es em duo, essa m\u00fasica ficou ainda maior, incorporou as elites que, mesmo torcendo o nariz, n\u00e3o resistiam aos refr\u00f5es grudentos.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a linha que Mar\u00edlia Mendon\u00e7a perseguiu desde os 12 anos de idade, quando come\u00e7ou a compor para outros cantores, se preparando para uma fulminante carreira solo terminada tragicamente aos 26 anos. O que explica a como\u00e7\u00e3o pela perda de um cantor popular \u2013 al\u00e9m da crueldade de chegar no auge da juventude e da produ\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o direta que eles conseguem ter com o p\u00fablico.<\/p>\n<p>As letras pueris, que quando lidas n\u00e3o seriam dignas nem dos romances mais vagabundos de banca de revista, se encaixam perfeitamente em melodias que amplificam significado e explodem na catarse da multid\u00e3o. \u00c9 tudo t\u00e3o simples, t\u00e3o instintivo, que dispensa explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembro do dia em que Edelson Moura, estrela da R\u00e1dio Nacional da Amaz\u00f4nia, me mostrou uma m\u00fasica que estava compondo: \u201cO amor \u00e9 um bichinho, que r\u00f3i, r\u00f3i, r\u00f3i\/ R\u00f3i o cora\u00e7\u00e3o da gente\/ E d\u00f3i, d\u00f3i, d\u00f3i\u201d. Era o resultado de anos de conversas com os ouvintes, das centenas de cartas que ele recebia todos os meses aqui em Bras\u00edlia, uma conex\u00e3o direta com o povo.<\/p>\n<p>O cantor popular de verdade n\u00e3o tem filtro. A m\u00fasica <em>O Fruto do Nosso Amor (Amor Perfeito<\/em>), gravada por Amado Batista, nasceu assim, depois que a irm\u00e3 de um dos compositores, Vicente Dias, morreu na sala de parto. \u201cM\u00fasica tem que falar com o povo\u201d, me disse certa vez.<\/p>\n<p>Odair Jos\u00e9 foi perseguido pela censura, entre outras coisas, por \u201cexalta\u00e7\u00e3o ao amor livre\u201d ou \u201cassunto inconveniente\u201d, mas comp\u00f4s can\u00e7\u00f5es pudicas como <em>Eu, Voc\u00ea e a Pra\u00e7a<\/em>, onde o m\u00e1ximo avan\u00e7o foi \u201cencostar o meu corpo em seu corpo\u201d. Ele me disse: \u201cToda cidade tem uma pracinha, tem namorado; \u00e9 s\u00f3 um retrato da realidade\u201d.<\/p>\n<p>O cantor popular de verdade conhece o Brasil profundo e o brasileiro dos grot\u00f5es, fala com eles. Canta em circos, botecos, cabar\u00e9s, onde tiver um microfone. Hoje est\u00e3o mais sofisticados, ficam em hot\u00e9is estrelados, t\u00eam jatos e fazendas cheias de gado, mas cheguei a acompanhar alguns deles em tempos de vacas magras.<\/p>\n<p>Dessas aventuras nasciam novas can\u00e7\u00f5es, dessas que falam diretamente com a alma do sujeito comum, que fazem marmanjo bruto chorar na mesa de bar, porque aquilo remete a alguma coisa que ele viveu. \u00c9 por isso que cantores como Mar\u00edlia Mendon\u00e7a fazem falta.<\/p>\n<p><strong>P.S.<\/strong> \u2013 Dias antes, o Brasil havia perdido um de seus tesouros, o pianista Nelson Freire. O tratamento que cada um recebeu \u00e9 um retrato dos nossos dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No princ\u00edpio eram contrafa\u00e7\u00f5es: Cauby Peixoto, Orlando Dias, Carlos Alberto. Vozes potentes, como se exigia de cantores da \u00e9poca, mas com uma interpreta\u00e7\u00e3o mais teatral, ainda mais exagerada do que os gigantes do r\u00e1dio. Depois, vieram outros tantos, na improv\u00e1vel mistura de rock (i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea) e bolero, com vozes mais juvenis: Paulo S\u00e9rgio, Reginaldo Rossi, Odair Jos\u00e9, entre muitos outros. 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