{"id":1265,"date":"2021-11-28T17:30:11","date_gmt":"2021-11-28T20:30:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1265"},"modified":"2021-11-28T17:30:11","modified_gmt":"2021-11-28T20:30:11","slug":"marvada-inflacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/marvada-inflacao\/","title":{"rendered":"Marvada infla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o faz muito tempo, quando algu\u00e9m fazia men\u00e7\u00e3o a trocado, se dizia que aquilo era \u201cdinheiro de pinga\u201d. Valia para uma oportunidade de neg\u00f3cio, para um preju\u00edzo ou para uma bagatela qualquer. Era uma express\u00e3o-sin\u00f4nimo para ninharia. E fazia sentido.<\/p>\n<p>No chamado Brasil profundo ainda faz. \u00c9 poss\u00edvel beber cacha\u00e7a \u2013 na risca, obedecendo ao padr\u00e3o do copo americano (que, ali\u00e1s, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o brasileira) \u2013 por at\u00e9 R$ 0,25. E tem boteco que ainda fia; embora deva-se desconfiar que ningu\u00e9m, depois de uma talagada em caninha sem nome, sem origem e sem-vergonha, tem condi\u00e7\u00f5es de voltar para pagar.<\/p>\n<p>Mas a express\u00e3o caiu em desuso. H\u00e1 alguns anos era poss\u00edvel comprar um garraf\u00e3o da aguardente JK (produto decente, da regi\u00e3o do Entorno) por R$ 10,00. Hoje est\u00e1 por R$ 40,00. O litro! Se bem que \u00e9 uma bagatela perto do que \u00e9 cobrado por uma garrafa Extra Premium da Cacha\u00e7a do Ministro, produzida na vizinha Alex\u00e2nia, que n\u00e3o se acha por menos de R$ 120,00.<\/p>\n<p>Se o bicudo optar por um produto de \u2018terroir\u2019 mais tradicional vai ter que cortar despesas sup\u00e9rfluas como feij\u00e3o e p\u00e3o. Uma garrafa de 600 ml da uca Canarinha que era vendida por R$ 30,00 h\u00e1 poucos anos, est\u00e1 sendo oferecida por R$ 150,00.<\/p>\n<p>\u00c9 uma cangibrina de qualidade, produzida em Salinas, Minas, e que dorme quatro anos em barris de b\u00e1lsamo e desce com maciez. Mas vamos acertar aqui: R$ 150,00 n\u00e3o \u00e9 dinheiro de pinga. Ainda bem que n\u00e3o se mede infla\u00e7\u00e3o pela tabela tatuzinho.<\/p>\n<p>O Brasil bebe da branquinha h\u00e1 s\u00e9culos, mas n\u00e3o h\u00e1 500 anos como alguns apressados tentaram nos fazer acreditar. Se as primeiras mudas de cana chegaram ao Brasil com a expedi\u00e7\u00e3o de Martin Afonso, em 1532, os cinco s\u00e9culos s\u00f3 ser\u00e3o comemorados daqui a 11 anos.<\/p>\n<p>Outra balela \u00e9 que a danada teria surgido a partir da sorna de escravos, que deixaram uma por\u00e7\u00e3o de melado fermentando at\u00e9 a evapora\u00e7\u00e3o, quando gotas se formavam no teto e pingavam. Como se os portugueses, craques na bagaceira, n\u00e3o conhecessem um alambique.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1 o gor\u00f3 virou uma das marcas da identidade nacional. Bebe-se caninha do Monte Cabura\u00ed ao Chu\u00ed, da Ponta do Seixas ao Rio Moa. Em qualquer birosca tem forra-peito.<\/p>\n<p>E de todo pre\u00e7o. Dia desses vieram me oferecer uma pechincha: uma garrafa de Havana por R$ 500,00. Declinei. Por falta de numer\u00e1rio. Podia ser mais grave: a famosa Havana 75 anos, edi\u00e7\u00e3o numerada, sai por R$ 5 mil.<\/p>\n<p>A Havana voltou ao mercado depois de uma briga judicial pelo nome que durou uma d\u00e9cada, mas na verdade nunca deixou de ser vendida, j\u00e1 que recebeu o nome do seu alambiqueiro, An\u00edsio Santiago. Durante este per\u00edodo de contenda o mesmo l\u00edquido foi vendido a a pre\u00e7o bem mais baixo. Muita gente bebe r\u00f3tulo.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do Brasil com a cacha\u00e7a \u00e9 t\u00e3o \u00edntima que \u00e9 o termo com mais sin\u00f4nimos na l\u00edngua portuguesa: mais de 700. Ganha de lavada do dem\u00f4nio, que tem apenas 250 apelidos registrados.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense de 28 de novembro de 2021<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o faz muito tempo, quando algu\u00e9m fazia men\u00e7\u00e3o a trocado, se dizia que aquilo era \u201cdinheiro de pinga\u201d. Valia para uma oportunidade de neg\u00f3cio, para um preju\u00edzo ou para uma bagatela qualquer. Era uma express\u00e3o-sin\u00f4nimo para ninharia. E fazia sentido. 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