{"id":1284,"date":"2022-01-02T10:13:58","date_gmt":"2022-01-02T13:13:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1284"},"modified":"2022-01-02T10:13:58","modified_gmt":"2022-01-02T13:13:58","slug":"um-mundo-sem-aventura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-mundo-sem-aventura\/","title":{"rendered":"Um mundo sem aventura"},"content":{"rendered":"<p>Quando o mundo era um lugar menos embrutecido as pessoas buscavam a aventura nas p\u00e1ginas de livros de bolso, fasc\u00edculos baratos e gibis. Era um tempo em que era poss\u00edvel acreditar em her\u00f3is, altru\u00edstas que punham a vida em risco pelos outros, aproveitando a imagina\u00e7\u00e3o de escritores como Alex Raymond, Burroughs, Lee Falk e muitos outros, que proporcionavam viagens ao futuro, ao passado ou as mais in\u00f3spitas paisagens do planeta.<\/p>\n<p>Este era o mundo de Athos Eichler Cardoso, que \u2013 ao contr\u00e1rio dos her\u00f3is de papel \u2013 terminou suas aventuras no final de ano passado. N\u00e3o \u00e0 toa, tinha o nome de um dos tr\u00eas mosqueteiros de Dumas. Como Flash Gordon, Tarzan e Mandrake, se mantinha jovem e com muitos planos, embora aos 88 anos e apoiado numa bengala, reclamasse do peso dos anos, mas sempre com um coment\u00e1rio sarc\u00e1stico.<\/p>\n<p>Mostrava com orgulho a cole\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o que amealhou desde os anos 1960 e que fica guardada em uma sala do Bras\u00edlia R\u00e1dio Center. S\u00e3o milhares de volumes. Tinha consci\u00eancia da import\u00e2ncia do material, base para seus artigos e livros, inclusive o op\u00fasculo <em>O que \u00e9 Aventura<\/em>, integrante da cole\u00e7\u00e3o <em>Primeiros Passos<\/em> da Editora Brasiliense.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=u0qjGfdhAPU&#038;t=78s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=u0qjGfdhAPU&amp;t=78s<\/a><\/p>\n<p>Tinha especial orgulho pelos fasc\u00edculos de aventura, publicados no Brasil desde 1910, que traziam hist\u00f3rias das dime novels norte-americanas com aventureiros que iam da idade m\u00e9dia ao espa\u00e7o sideral, e passando pelos becos mais escuros das cidades, com crimes b\u00e1rbaros. S\u00e3o romances populares, curtos, baratos, emo\u00e7\u00e3o concentrada.<\/p>\n<p>Como os piratas de algumas das aventuras deixadas nas prateleiras, Athos sabia que guardava um tesouro. Mas era generoso. H\u00e1 mais ou menos tr\u00eas anos doou um imenso acervo de gibis \u00e0 Biblioteca Nacional de Bras\u00edlia, que \u2013 pena \u2013 continua encaixotado a espera, talvez, de um curador. At\u00e9 porque n\u00e3o s\u00e3o exemplares para serem manuseados pelo p\u00fablico em geral, t\u00e3o raros.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a ele \u2013 de temperamento obsessivo e organizado como os melhores militares \u2013 o Brasil tem a possibilidade de ler a obra-prima completa de Angelo Agostini, <em>As Aventuras de Nh\u00f4-Quim &amp; Z\u00e9 Caipora<\/em>, os primeiros quadrinhos brasileiros, um dos primeiros do mundo. O livro foi lan\u00e7ado pela Biblioteca do Senado Federal, que tamb\u00e9m lan\u00e7ou <em>Mem\u00f3rias do Tico-Tico<\/em>, em que ele reuniu as cria\u00e7\u00f5es de J. Carlos. Os dois livros podem ser baixados pelo site www2.senado.leg.br.<\/p>\n<p>Todo o material \u00e9 resultado de visitas aos sebos de todos os cantos do Brasil, onde ele fu\u00e7ava as prateleiras em busca de publica\u00e7\u00f5es raras em todos os formatos; de suplementos dos jornais a livros de bolso. Nos \u00faltimos anos, trocou os \u00e1caros e tra\u00e7as pelas p\u00e1ginas eletr\u00f4nicas da hemeroteca da Biblioteca Nacional, da qual era uma esp\u00e9cie de garoto-propaganda<\/p>\n<p>Ultimamente, Athos se dedicava a um projeto ainda mais ambicioso e que conseguiu financiamento do Fundo de Apoio \u00e0 Cultura do GDF, mas que h\u00e1 anos espera pelos parceiros que, por algum motivo, n\u00e3o o encaram com a mesma prioridade. Ele levou anos para completar a cole\u00e7\u00e3o de suplementos dos jornais publicados na \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial \u2013 cerca de dois mil exemplares, ele contava. Mas um dia a obra sai; pena que Athos n\u00e3o est\u00e1 mais aqui para ver.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 2 de janeiro de 2022<\/strong><\/p>\n<p><em>Na ilustra\u00e7\u00e3o, quadros de Z\u00e9 Caipora, de Agostini; no v\u00eddeo, a cole\u00e7\u00e3o de Athos Eichler.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o mundo era um lugar menos embrutecido as pessoas buscavam a aventura nas p\u00e1ginas de livros de bolso, fasc\u00edculos baratos e gibis. 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