{"id":1297,"date":"2022-01-23T13:40:29","date_gmt":"2022-01-23T16:40:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1297"},"modified":"2022-01-23T13:40:29","modified_gmt":"2022-01-23T16:40:29","slug":"e-proibido-se-alienar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/e-proibido-se-alienar\/","title":{"rendered":"\u00c9 proibido se alienar"},"content":{"rendered":"<p>Um amigo acaba de voltar de f\u00e9rias. Encontrou sol, brisa, paisagem, mas n\u00e3o achou paz. O vatic\u00ednio dele: n\u00e3o h\u00e1 mais rota de fuga do mundo, n\u00e3o h\u00e1 como escapar. A express\u00e3o usualmente rutila foi substitu\u00edda pelo olhar abatido do beque que acabou de levar um drible: \u201cEu n\u00e3o consegui desligar o telefone\u201d, murmurou.<\/p>\n<p>Era a imagem da derrota, do viciado impotente. Estava em lugar remoto, at\u00e9 h\u00e1 pouco um canto escondido do mundo. Mas o telefone celular continha tudo o que ele queria deixar para tr\u00e1s. E o que n\u00e3o veio com ele, chegou por ele.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou com uma foto que mandou para amigos. Como uma coisa leva a outra, continuou ligado aos problemas do escrit\u00f3rio, sofrendo com cada bip que ouvia quando chegava uma postagem nova. Na hora nem notava que estava ligado nas mesmas coisas que deixou por aqui; hoje, viu que exagerou.<\/p>\n<p>A aldeia global preconizada por McLuhan chegou. Mas o que seria apenas a redu\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia e a unifica\u00e7\u00e3o de comportamento, se transformou em nova forma de escravid\u00e3o, com grilh\u00f5es et\u00e9reos, materializados na tela do telefone inteligente. Ficar longe provoca crises de abstin\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais permitido se alienar. Em segundos o mundo vira \u2013 e como resistir a acompanhar \u00e0 chamada marcha dos acontecimentos em tempo real?<\/p>\n<p>Lembrei de um texto de Andr\u00e9 Carrazzoni. Fui apresentado ao autor, ga\u00facho que chegou a morar em Bras\u00edlia, pelo incans\u00e1vel Danilo Gomes. Morto em 1982, n\u00e3o viu a transforma\u00e7\u00e3o do vasto mundo em aldeia e defendia a necessidade da informa\u00e7\u00e3o, quando encontrou um candidato a aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O interlocutor resolveu se apartar do mundo como o Luiz Gonzaga de <em>Riacho do Navio<\/em>, que sonhava com o ranchinho \u201csem r\u00e1dio e sem not\u00edcia das terras civilizadas\u201d. Diante da enxurrada de informa\u00e7\u00f5es de hoje, talvez Carrazzoni n\u00e3o escrevesse a cr\u00f4nica <em>Imagens de uma Noite de Chuva<\/em> em que defende a palavra escrita, contestando o amigo, que pede um conhaque (\u201cg\u00eanero de primeira necessidade\u201d, pontua o cronista)<\/p>\n<p>\u201cSem jornal, suicida-se o espectador da vida, que muda incessantemente na dan\u00e7a das formas ou dos ritmos&#8230; Desta coluna ou desta reportagem, tiramos um som humano \u2013 gemido ou queixume, grito de triunfo, m\u00fasica de gl\u00f3ria, murm\u00fario de id\u00edlio, voz de paix\u00e3o, s\u00faplica de trag\u00e9dia\u201d, escreveu, numa \u00e9poca em que ainda havia ponto de exclama\u00e7\u00e3o \u2013 sinal gr\u00e1fico em desuso, j\u00e1 que n\u00e3o nos \u00e9 mais permitido se espantar com nada.<\/p>\n<p>Era um tempo em que as pessoas iam atr\u00e1s da not\u00edcia; hoje somos atropelados pela informa\u00e7\u00e3o. Com isso, perdemos a no\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do fato \u2013 esc\u00e2ndalos cabeludos duram minutos. \u00c9 um jeito novo de encarar a vida, mas que n\u00e3o agradou ao meu amigo que perdeu as f\u00e9rias na tela do celular, vivendo como um avatar numa dessas cidades-jogos inventadas no computador como SimCity.<\/p>\n<p>Como as filhas de Danaus, obrigadas a encher um tonel sem fundo por terem matado os maridos, o amigo de Carrazzoni lamenta o destino dos jornalistas, \u201ccondenados a encher o tonel das Danaides da curiosidade an\u00f4nima\u201d. Ou seja: todos estamos danados.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 23 de janeiro de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo acaba de voltar de f\u00e9rias. Encontrou sol, brisa, paisagem, mas n\u00e3o achou paz. O vatic\u00ednio dele: n\u00e3o h\u00e1 mais rota de fuga do mundo, n\u00e3o h\u00e1 como escapar. 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