{"id":1309,"date":"2022-02-13T17:58:36","date_gmt":"2022-02-13T20:58:36","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1309"},"modified":"2022-02-13T17:58:36","modified_gmt":"2022-02-13T20:58:36","slug":"despacho-dificil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/despacho-dificil\/","title":{"rendered":"Despacho dif\u00edcil"},"content":{"rendered":"<p>Vida de pai de santo em Bras\u00edlia nunca foi f\u00e1cil. Tudo por culpa de L\u00facio Costa, que cismou de fazer um projeto para evitar cruzamentos e criou solu\u00e7\u00f5es como as tesourinhas e retornos, avacalhando o of\u00edcio por falta de encruzilhada.<\/p>\n<p>Desde os primeiros dias da nova capital, os despachos tinham que ser improvisados em caminhos de terra cruzados \u2013 mesmo que fossem apenas trilhas de pedestres \u2013, normalmente nas ent\u00e3o cidades sat\u00e9lites, ou na capoeira mesmo.<\/p>\n<p>O primeiro terreiro da nova capital foi instalado em plena Asa Norte, onde permanece, ali\u00e1s, na altura da 911. Mas o mais peculiar, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1970, emitia o som dos tambores\u00a0\u00a0 e o alarido dos er\u00eas do subsolo de uma loja de entrequadra, na Asa Sul, onde, apesar do espa\u00e7o ex\u00edguo, havia sacrif\u00edcio de galinhas e coelhos. E era muito esquisito ver cavalo incorporado subindo e descendo escada.<\/p>\n<p>Hoje seria impens\u00e1vel. Com a patrulha da chatura institucionalizada, logo haveria abaixo-assinado, protesto e pol\u00edcia na porta.<\/p>\n<p>No passado era bem dif\u00edcil pisar num despacho; afinal, em quase todo cruzamento tinha um bal\u00e3o. E al\u00e9m do mais era dif\u00edcil andar a p\u00e9 pelo Plano Piloto, j\u00e1 que n\u00e3o havia cal\u00e7adas e era grande a quantidade de buracos furados sabe-se l\u00e1 por qu\u00ea e que ganhavam a camuflagem do mato que crescia solto.<\/p>\n<p>Hoje s\u00e3o mais de 300 templos, com babalorix\u00e1s respeitados, filhos de santo dedicados, cultos e consultas abertas. H\u00e1 at\u00e9 uma pra\u00e7a dedicada a orix\u00e1s, com imagens que vez ou outra s\u00e3o v\u00edtimas da intoler\u00e2ncia. Foi uma conquista por ocupa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que est\u00e1 instalada no mesmo lugar em que eram lan\u00e7adas as oferendas pioneiras, aproveitando a proximidade com o lago, ao lado da Ponte das Gar\u00e7as.<\/p>\n<p>Outro dia, rec\u00e9m-chegado \u00e0 cidade, o rapaz se aproximou da nossa mesa no bar, atra\u00eddo pela rodada gratuita e comunit\u00e1ria da garrafa de rolha colocada sobre a mesa, trazida do vale de Orizona, Goi\u00e1s. Era uma mesa de ateus e cat\u00f3licos pouco praticantes, mas a conversa girava em torno do candombl\u00e9 e seus mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Da\u00ed o rapaz se sentiu confort\u00e1vel para perguntar se algu\u00e9m conhecia o que, priscas eras, se costumava chamar de centro (com C mai\u00fasculo, ali\u00e1s).\u00a0 \u201cVoc\u00eas conhecem algum tempo de matriz africana aqui? Ando precisando de um banho de sete ervas\u201d.<\/p>\n<p>A terminologia politicamente correta n\u00e3o tem adeptos nos botecos de raiz. Os frequentadores preferem encarar a l\u00edngua portuguesa com o rigor do cais do porto, das zbm; ou seja, sem muitos rodeios, como os dicion\u00e1rios ensinam. O pessoal foi educado, mas n\u00e3o tinha babalorix\u00e1 ou ialorix\u00e1 para indicar, quando um gaiato come\u00e7ou a batucar na mesa.<\/p>\n<p>\u201cAqui n\u00e3o se brinca de roda de copo e nem de chamar exu\u201d, interrompeu o dono do estabelecimento, preocupado com aquele ponto mal executado. \u201cDo jeito que voc\u00ea est\u00e1 tocando daqui a pouco desce o exu caveira. E se explicou: \u201cEu j\u00e1 vi um exu coroado descer e ele n\u00e3o combina com cacha\u00e7a. \u00c9 briga certa\u201d.<\/p>\n<p>E arrematou, batendo na madeira do balc\u00e3o: \u201cMangal\u00f4, p\u00e9 de pato, tr\u00eas vezes\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 13 de fevereiro de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vida de pai de santo em Bras\u00edlia nunca foi f\u00e1cil. 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