{"id":1313,"date":"2022-02-27T21:07:57","date_gmt":"2022-02-28T00:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1313"},"modified":"2022-02-27T21:07:57","modified_gmt":"2022-02-28T00:07:57","slug":"outro-carnaval-sem-folia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/outro-carnaval-sem-folia\/","title":{"rendered":"Outro carnaval sem folia"},"content":{"rendered":"<p>Mais um ano sem carnaval, ainda que estejamos todos \u2013 os que t\u00eam ju\u00edzo pelo menos \u2013 mascarados. Se faltava alguma coisa para bater o prego no caix\u00e3o, as marchinhas, que est\u00e3o entre n\u00f3s desde o in\u00edcio do s\u00e9culo passado, trazidas pelos portugueses, e que tomaram forma definitiva a partir da d\u00e9cada de 1920, sucumbiram ao funk.<\/p>\n<p>A aposta \u00e9 que nos dias de folia deste ano o que vai ser ouvido \u00e9 um certo Pedro Sampaio, que lan\u00e7ou duas can\u00e7\u00f5es \u2013 <em>Galopa<\/em> e <em>No Ch\u00e3o Novinha<\/em> \u2013 que s\u00f3 t\u00eam como rival o xote estilizado <em>&#8230;Revoada no Colch\u00e3o<\/em>, de Z\u00e9 Felipe e Marcynho Sensa\u00e7\u00e3o. A \u00fanica certeza \u00e9 que vai faltar algod\u00e3o para colocar nos ouvidos.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o s\u00e3o m\u00fasicas de carnaval, embora sejam carregadas de mal\u00edcia como as velhas e boas marchinhas; certamente bem mais expl\u00edcitas, como tudo hoje em dia. Voltamos ao in\u00edcio de tudo, quando o carnaval era embalado por outros ritmos.<\/p>\n<p>Muito antes das marchinhas, que se popularizaram pela facilidade oferecida aos foli\u00f5es, que nem precisavam de muito molejo: \u00e9 s\u00f3 marcar o passo andando em c\u00edrculos nos bailes ou indo sempre em frente nas ruas. Os sal\u00f5es se abriram aos foli\u00f5es em 1835, quando o Hotel de It\u00e1lia, no Rio, promoveu o primeiro baile \u2013 animado por polcas, tangos (n\u00e3o o argentino, que nem existia ainda), chulas e at\u00e9 emboladas.<\/p>\n<p>O carnaval s\u00f3 foi para a rua em 1852, quando o sapateiro portugu\u00eas Jos\u00e9 Nogueira de Azevedo juntou amigos lusos e saiu dando vivas a um certo Z\u00e9 Pereira. Era um personagem de folias portuguesas que em terras brasileiras acabou virando sin\u00f4nimo de bloco de sujos.<\/p>\n<p>As marchinhas s\u00f3 entraram na farra em 1899, quando Chiquinha Gonzaga fez <em>\u00d4 Abre Alas <\/em>para o Cord\u00e3o Rosa de Ouro. Mas ainda seriam necess\u00e1rias mais duas d\u00e9cadas para que a marchinha assumisse a prefer\u00eancia do chamado tr\u00edduo momesco \u2013 <em>A Baratinha<\/em>, de Jo\u00e3o Rabelo, deu o tom. At\u00e9 a Bandeira Branca ser desenvergada.<\/p>\n<p>Renato Vivacqua, que divide a vida entre pesquisas musicais e a fisioterapia, diz que a can\u00e7\u00e3o de Max Nunes e La\u00e9rcio Alves, fechou o ciclo das marchinhas em 1970. De fato, muito pouco se produziu depois disso, embora outros sucessos carnavalescos, mas na forma de sambas e frevos, tenham se destacado.<\/p>\n<p>No novo mil\u00eanio o carnaval parece ter se resumido aos desfiles de escolas de samba que, premidas entre um hor\u00e1rio a cumprir, regras r\u00edgidas na forma\u00e7\u00e3o das alas, custos que afastam os menos abastados, desfilam com sambas t\u00e3o velozes que se aproximam das marchinhas, impedindo os passistas de mostrar samba no p\u00e9.<\/p>\n<p>A libera\u00e7\u00e3o dos costumes tamb\u00e9m atrapalhou a folia. Toda sexta-feira tem balada. Ningu\u00e9m mais precisa esperar os tr\u00eas dias de folia e brincadeira, voc\u00ea pra l\u00e1 eu pra c\u00e1 at\u00e9 quarta-feira ou para se fantasiar de Antonieta e ir dan\u00e7ar no Bola Preta at\u00e9 o sol raiar, como ensinam as velhas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E \u00e9 s\u00f3 observar os cabelos coloridos, as roupas soltas e estampadas, as maquiagens cada vez mais esdr\u00faxulas para entender que agora todo dia \u00e9 carnaval. Evo\u00e9, Momo.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 27 de fevereiro de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um ano sem carnaval, ainda que estejamos todos \u2013 os que t\u00eam ju\u00edzo pelo menos \u2013 mascarados. Se faltava alguma coisa para bater o prego no caix\u00e3o, as marchinhas, que est\u00e3o entre n\u00f3s desde o in\u00edcio do s\u00e9culo passado, trazidas pelos portugueses, e que tomaram forma definitiva a partir da d\u00e9cada de 1920, sucumbiram ao funk. A aposta \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":1314,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[159,25,301],"class_list":["post-1313","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica","tag-carnaval","tag-cronica","tag-marchinhas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1313"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1315,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1313\/revisions\/1315"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}