{"id":1317,"date":"2022-03-06T10:27:55","date_gmt":"2022-03-06T13:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1317"},"modified":"2022-03-06T10:27:55","modified_gmt":"2022-03-06T13:27:55","slug":"agua-que-vem-do-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/agua-que-vem-do-ceu\/","title":{"rendered":"\u00c1gua que vem do c\u00e9u"},"content":{"rendered":"<p>Em dezembro de 1957 pouco mais de 2.200 pessoas moravam na Cidade Livre, nome original do que hoje conhecemos como N\u00facleo Bandeirante. Era o centro comercial da capital que estava sendo constru\u00edda, atendendo aos mais de sei mil moradores do Plano Piloto e outros tr\u00eas mil que ficavam nos acampamentos das construtoras.<\/p>\n<p>A cidade tinha apenas um ano de idade, desde que Bernardo Say\u00e3o havia assentado pessoalmente o restaurante Pellechia, um hotel, dois mercados e um a\u00e7ougue. J\u00e1 tinha outros hot\u00e9is, lojas, casas noturnas e at\u00e9 algumas ind\u00fastrias pequenas, muitas oficinas mec\u00e2nicas e at\u00e9 uma moagem de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Foi ali que, no dia 14 de dezembro, desabou o primeiro temporal que se tem not\u00edcia no que seria o Distrito Federal.<\/p>\n<p>As constru\u00e7\u00f5es eram todas prec\u00e1rias, porque aquela cidade nasceu para ser demolida assim que Bras\u00edlia fosse inaugurada. Paredes e pisos de madeira, teto de zinco ou palha, puxados de lona, ruas de terra batida, conforto m\u00ednimo; parecia com as cidades do velho-oeste norte-americano que se via nos filmes \u2013 a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o eram permitidas armas.<\/p>\n<p>Era uma \u00e9poca de muito trabalho para o incipiente Corpo de Bombeiros. Com tanto material de f\u00e1cil combust\u00e3o, fog\u00f5es de lenha, tempo seco e vento forte, o fogo se alastrava com velocidade. E havia tamb\u00e9m a esperteza da popula\u00e7\u00e3o: cada sinistro era compensado com uma casa de alvenaria constru\u00edda pelo governo no mesmo lugar do inc\u00eandio&#8230;<\/p>\n<p>O livreiro Jorge Brito, alfarrabista das letras e cousas do DF, tem v\u00e1rios exemplares de jornais editados no local, desde o DC-Bras\u00edlia at\u00e9 o Bras\u00edlia em Foco, do cearense Lourival Pinto Bandeira. Mas eles s\u00f3 seriam publicados anos depois, a partir de setembro de 1959, antes disso s\u00f3 havia os apontamentos oficiais e o registro oral do que acontecia naquele n\u00facleo improvisado.<\/p>\n<p>Desta forma, s\u00f3 se sabe daquele primeiro p\u00e9-d\u2019\u00e1gua por causa dos estragos que ele provocou, registrados pelas empresas construtoras em seus border\u00f4s, acrescidas de relatos de testemunhas de quem viu o c\u00e9u escurecer de repente e a \u00e1gua cair com viol\u00eancia, acompanhada de trov\u00f5es, raios e rajadas de ventos. N\u00e3o havia nem como se proteger.<\/p>\n<p>A obra do castelo d\u2019\u00e1gua da usina de Saia Velha, que estava sendo constru\u00edda para fornecer energia para o Catetinho e aeroporto, al\u00e9m de \u00e1reas residenciais da Asa Sul, foi literalmente por \u00e1gua abaixo. A barragem do Ip\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o resistiu; foi parar no Riacho Fundo. Choveu em outros pontos do DF, mas com menos estragos.<\/p>\n<p>No detalhado relat\u00f3rio da miss\u00e3o Cruls, de 1894, que explorou a regi\u00e3o para determinar se havia condi\u00e7\u00f5es de trazer a capital para o meio do pa\u00eds, n\u00e3o havia qualquer advert\u00eancia sobre uma tempestade como aquela. Ao contr\u00e1rio, a comiss\u00e3o classificou como ameno o clima do planalto central, indicando temperaturas constantes, chamando a aten\u00e7\u00e3o para a leveza e pureza no ar.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas se passaram, a cidade cresceu. Toneladas de concreto e asfalto foram aplicados em todos os cantos da capital. Mas os temporais continuam com a mesma for\u00e7a dos primeiros tempos, trazendo medo e o \u00fanico consolo de encher as barragens.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 6 de mar\u00e7o de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dezembro de 1957 pouco mais de 2.200 pessoas moravam na Cidade Livre, nome original do que hoje conhecemos como N\u00facleo Bandeirante. Era o centro comercial da capital que estava sendo constru\u00edda, atendendo aos mais de sei mil moradores do Plano Piloto e outros tr\u00eas mil que ficavam nos acampamentos das construtoras. 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