{"id":1327,"date":"2022-03-27T10:09:37","date_gmt":"2022-03-27T13:09:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1327"},"modified":"2022-03-27T10:17:22","modified_gmt":"2022-03-27T13:17:22","slug":"os-cafajestes-voltaram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/os-cafajestes-voltaram\/","title":{"rendered":"Os cafajestes voltaram"},"content":{"rendered":"<p>Eles pareciam ser um daqueles retratos amarelados que o velho mundo deixou na parede mais suja. Disfar\u00e7ados como d\u00e2ndis, com seus ternos bem cortados, cabelos engomados e modos afetados, chegaram a fundar um clube que nunca precisou de sede para fazer barulho e espalhar machismo e misoginia: o clube dos cafajestes.<\/p>\n<p>Jovens bem-nascidos, pareciam a cara de um pa\u00eds pronto para se apresentar para o mundo naqueles anos 1940, 1950. N\u00e3o eram. Fazendo fuzarca, humilhando mulheres, forjaram o prot\u00f3tipo do homem brasileiro, o mach\u00e3o que tudo podia, que usava a mulher como adere\u00e7o, quando n\u00e3o como saco de pancadas. Dava-se como extintos.<\/p>\n<p>Mas o \u00edndice dos agora chamados feminic\u00eddios j\u00e1 mostravam que os cafajestes \u2013melhor denominados como covardes \u2013 continuam entre n\u00f3s. Mas esses s\u00e3o a face mais doentia, mais patol\u00f3gica, casos de sa\u00fade mental e de pol\u00edcia. S\u00e3o sujeitos que culpam o ci\u00fame, um modo de buscar alguma justificativa para atos inomin\u00e1veis .<\/p>\n<p>O que ningu\u00e9m esperava \u00e9 que os cafajestes \u00e0 moda antiga tamb\u00e9m continuassem por a\u00ed, at\u00e9 que o tal Mam\u00e3e, Falei \u2013 deputado eleito pelo que se anunciava como mais uma face moderna do pa\u00eds \u2013 exp\u00f4s a caricatura que s\u00e3o esses rapazotes, se n\u00e3o bem-nascidos, certamente malcriados, e o desprezo que eles t\u00eam n\u00e3o apenas pelas mulheres, mas por qualquer ser humano decente.<\/p>\n<p>\u201cElas s\u00e3o f\u00e1ceis porque s\u00e3o pobres\u201d, disse o camarada, revelando mais uma vez o que se esconde sob uma face progressista de quem se apresentava para liderar o pa\u00eds. \u00c9 o t\u00edpico caso que uma desculpa n\u00e3o representa nada, porque aquilo saiu como um jorro, mostrando o preconceito latente.<\/p>\n<p>A onda politicamente correta faz isso. For\u00e7a as pessoas a for\u00e7ar uma autocensura que em nada \u00e9 sincera, finge combater o mal sem esconder o rabo. De que adiantam palavras bonitas se a briga interior subsiste?<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, com esse jeit\u00e3o de cidade do faroeste, com fam\u00edlias ainda em forma\u00e7\u00e3o e nenhuma tradi\u00e7\u00e3o, foi \u2013 e talvez ainda seja \u2013 um campo f\u00e9rtil para esse tipo de personagem. Os nossos cafajestes nasceram muitas vezes da frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o conseguir namorar ningu\u00e9m sem abrir a carteira e de uma necessidade de se mostrar ativo.<\/p>\n<p>A conversa do tal Mam\u00e3e, Falei com os amigos de pelada recorda velhas g\u00edrias canalhas de Bras\u00edlia. \u201cHoje vou pegar uma o-ag\u00e1?, diziam os playboyzinhos. Ou: \u201cHoje \u00e9 dia de pegar dod\u00f3\u201d.\u00a0 E saiam rindo feito hienas se refestelando nas sobras deixadas pelos le\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2018Dod\u00f3\u2019 era o codinome das empregadas dom\u00e9sticas, que naqueles tempos ermos tinham poucas op\u00e7\u00f5es de divers\u00e3o \u2013 moravam com patr\u00f5es, as cidades mais baratas ficavam longe \u2013 e se satisfaziam com alguns momentos de canalhice. \u2018O-ag\u00e1\u2019 era uma sigla para origem humilde, mostrando que a pobreza sempre atraiu os canalhas, muito anos antes dessa guerra.<\/p>\n<p>Cafajestes, canalhas, covardes, idiotas, o adjetivo pode variar, mas nenhuma deles alcan\u00e7a inteiramente o desprezo que se deve ter por esse tipo de gente. N\u00e3o \u00e9 simplesmente o caso de \u201ccancelar\u201d o perpetrador, como est\u00e1 acontecendo com o deputado, porque o problema \u00e9 de todos: preconceito sobrevive como barata.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 20 de mar\u00e7o de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles pareciam ser um daqueles retratos amarelados que o velho mundo deixou na parede mais suja. Disfar\u00e7ados como d\u00e2ndis, com seus ternos bem cortados, cabelos engomados e modos afetados, chegaram a fundar um clube que nunca precisou de sede para fazer barulho e espalhar machismo e misoginia: o clube dos cafajestes. 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