{"id":1330,"date":"2022-03-27T10:16:01","date_gmt":"2022-03-27T13:16:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1330"},"modified":"2022-03-27T10:16:01","modified_gmt":"2022-03-27T13:16:01","slug":"presentes-engarrafados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/presentes-engarrafados\/","title":{"rendered":"Presentes engarrafados"},"content":{"rendered":"<p>Sempre disseram que o presente que a pessoa recebe revela o car\u00e1ter, ou pelo menos a imagem que os outros t\u00eam dela. Ningu\u00e9m d\u00e1 livros para quem n\u00e3o l\u00ea, discos para quem n\u00e3o gosta de m\u00fasica, roupa para quem vive amarfanhado. \u00c9 a l\u00f3gica. E \u00e9 o que tem me deixado com pulgas atr\u00e1s da orelha \u2013 e o inseto incomoda.<\/p>\n<p>Se isso for mesmo verdade, devo estar mal falado: s\u00f3 ganho garrafa de cacha\u00e7a. De uns tempos para c\u00e1, uma boa variedade de pingas chegou \u00e0s minhas m\u00e3os. Amigos viajam, trazem uma garrafa; e ainda h\u00e1 embalagem de presentes corporativos, brindes e agrados de conhecidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 cangibrina no sentido lato, que envolve outros tipos de destilado. \u00c9 restrito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da cana de a\u00e7\u00facar mesmo. N\u00e3o tenho do que reclamar al\u00e9m, \u00f3bvio, da desconfian\u00e7a que isso traz a respeito da minha respeitabilidade. Se o Detran descobre, vai fazer ponto na minha rua; se o banco fica sabendo, tranca a conta; se a fam\u00edlia desconfiar, interdita.<\/p>\n<p>Melhor esclarecer: como n\u00e3o sou passarinho, bebo. Mas educadamente, com a parcim\u00f4nia dos ajuizados e a fleuma dos justos.<\/p>\n<p>A \u2018marvada\u2019 j\u00e1 teve inimigos ferozes, como o senador Paulo Abreu que, em 1951, tentou proibir a fabrica\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio e consumo do produto. A desculpa \u00e9 que se tratava de um \u201cmal social\u201d.<\/p>\n<p>Fragorosamente derrotado, o parlamentar ainda tentou proibir marchinhas de carnaval que tinham a cambraia ou seus efeitos como tema, como <em>Ressaca<\/em> (\u201ct\u00e1 todo mundo de ressaca\u201d), <em>Cacha\u00e7a<\/em> (\u201cn\u00e3o \u00e9 \u00e1gua n\u00e3o\u201d) e <em>Tem Nego Bebo A\u00ed<\/em> (\u201cfoi numa casca de banana que pisei\u201d). Falhou de novo.<\/p>\n<p>Atualmente, a caninha n\u00e3o est\u00e1 mais \u00e0 margem da sociedade, foi incorporada como bebida que pode ser apreciada e n\u00e3o apenas para virar o ju\u00edzo nas melhores \u2013 ou piores \u2013 horas da exist\u00eancia. O pre\u00e7o das garrafas mais prestigiadas vai as alturas e h\u00e1 algum tempo s\u00e3o realizados ranqueamentos com jurados especialistas (olha eles de novo!) que elegem os melhores r\u00f3tulos, o que, evidentemente, aumenta o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Mangua\u00e7as tradicionais veem sendo preteridas em nome de produ\u00e7\u00f5es mais sofisticadas, tanto para as brancas como para as amarelas, para seguir a nomenclatura da poesia de Laureano e Raul Torres, no cl\u00e1ssico <em>Moda da Pinga<\/em>, eternizado por Inezita Barroso. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a velha Havana, de Salinas, com 75 anos de hist\u00f3ria, mesmo r\u00f3tulo e paladar para bolsos abastados, sempre no topo das listas.<\/p>\n<p>Confesso que n\u00e3o dou import\u00e2ncia para r\u00f3tulos. A birita produzida em pequena escala, para consumo familiar, envelhecida em barris de madeiras de sabor menos pronunciado ou mesmo no a\u00e7o para manter a brancura, ainda est\u00e3o entre as favoritas. Uma provinha resolve o problema, sem a necessidade de um corpo de jurados.<\/p>\n<p>Na verdade, a terembitina \u00e9 s\u00f3 uma desculpa para estar com amigos; portanto, \u00e9 bom come\u00e7ar a mudar a l\u00f3gica de acreditar que quem ganha garrafas \u00e9 um pingu\u00e7o. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 apenas um sujeito que tem bons amigos \u2013 e se isso n\u00e3o \u00e9 verdade, \u00e9 bom consolo. \u00a0Portanto, continuarei recebendo os mimos et\u00edlicos. De bom grado.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 27 de mar\u00e7o de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre disseram que o presente que a pessoa recebe revela o car\u00e1ter, ou pelo menos a imagem que os outros t\u00eam dela. Ningu\u00e9m d\u00e1 livros para quem n\u00e3o l\u00ea, discos para quem n\u00e3o gosta de m\u00fasica, roupa para quem vive amarfanhado. \u00c9 a l\u00f3gica. 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