{"id":1339,"date":"2022-04-10T13:15:49","date_gmt":"2022-04-10T16:15:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1339"},"modified":"2022-04-10T13:15:49","modified_gmt":"2022-04-10T16:15:49","slug":"um-cronista-convidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-cronista-convidado\/","title":{"rendered":"Um cronista convidado"},"content":{"rendered":"<p>Um amigo garante que jamais, em tempo algum, ningu\u00e9m bebeu cerveja com o gosto de Danilo Gomes. Evidente exagero, porque antes de tudo trata-se de um apreciador do l\u00edquido dourado, filho de cereais maltados ou n\u00e3o. O que ningu\u00e9m discute \u00e9 que \u00e9 um connaisseur, al\u00e9m de excelente cronista. Para dirimir d\u00favidas, abro alas para o mestre. Com voc\u00eas, Danilo Gomes, mestre da palavra. E da cerveja.<\/p>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>\u00a0\u00a0Cerveja inglesa<\/strong><\/h3>\n<p>Danilo Gomes<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No seu livro de aventuras <em>O fantasma de Sandokan,<\/em> o italiano Emilio Salgari faz uma brincadeira com os ingleses, fleugm\u00e1ticos ou mais expansivos. Assim entendo a passagem. \u00c0 p\u00e1g. 24, o personagem Ya\u00f1ez pede ao seu criado Mutri: \u201cTraze-me cerveja inglesa, Mutri; \u00e9 a \u00fanica coisa boa que a Inglaterra sabe fazer\u201d. E a emborcou com gosto de velho marinheiro e pirata.<\/p>\n<p>Na sua not\u00e1vel obra <em>A ira de Deus<\/em> <em>\u2013 O grande terramoto de Lisboa<\/em> \u2013 1755\u201d (em Portugal \u00e9 terramoto, no Brasil \u00e9 terremoto), o ingl\u00eas Edward Paice, \u00e0 p\u00e1g. 42 da 2\u00aa ed. portuguesa, Casa de Letras, Lisboa, 2010, escreve:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existiam clubes, havia poucos entretenimentos do g\u00eanero dos que estavam na moda em Londres e, para os que chegavam, vindos de uma cidade com 6.000 cervejarias e 9.000 lojas de bebidas e um consumo m\u00e9dio entre a popula\u00e7\u00e3o \u2013 adultos e crian\u00e7as \u2013 de um litro de gim por semana, Lisboa parecia, aos olhos do ingl\u00eas comum, quase seca\u201d.<\/p>\n<p>Sabe-se que cerveja \u00e9 uma bebida de tempos mui remotos, como o vinho, que embriagou No\u00e9, segundo as Escrituras. Os antigos romanos dos tempos dos reis, imperadores e c\u00f4nsules j\u00e1 bebiam cervicia. Recentemente arque\u00f3logos e cientistas da Academia Austr\u00edaca de Ci\u00eancias analisaram gr\u00e3os de cereais e constataram que a bebida j\u00e1 era produzida na Europa havia mais de 6 mil anos, ainda no per\u00edodo neol\u00edtico, ao mesmo tempo em que o produto se desenvolvia na Sum\u00e9ria (onde hoje est\u00e1 o Iraque) e no Egito. Inicialmente, a cerveja pode ter sido usada em procedimentos ritual\u00edsticos \u2013 dizem os estudiosos da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o da cerveja come\u00e7ou simultaneamente em v\u00e1rias regi\u00f5es do globo, vale dizer, no Egito, na Sum\u00e9ria, na It\u00e1lia, na Su\u00ed\u00e7a, na Alemanha e em v\u00e1rias outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Gravuras eg\u00edpcias dos tempos das dinastias fara\u00f4nicas relatam o contato do povo com uma bebida desconhecida e diferente de tudo que existia. Era a cerveja, que a rapaziada de hoje chama de cerva\u2026<\/p>\n<p>Segundo Kathia Zanatta<em>, sommeli\u00e8re<\/em> e cofundadora do Instituto da Cerveja, os povos antigos descobriram que era poss\u00edvel usar gr\u00e3os, cereais e frutas para muitas coisas al\u00e9m da comida. Ela ensina: coletar gr\u00e3os era uma tarefa de mulheres, que podem ser consideradas as \u201ccriadoras\u201d da cerveja. Foi o que aconteceu com a uva. E foram surgindo, quanto \u00e0 cerveja, aperfei\u00e7oamentos, como fermenta\u00e7\u00e3o e maltea\u00e7\u00e3o. O povo bebeu vinho, bebeu cerveja \u2013 e gostou. E depois veio a geladeira, veio o chope\u2026<\/p>\n<p>Com todo o respeito aos honrados produtores de cerveja da Gr\u00e3- Bretanha (<em>God save the Queen!<\/em>); sou admirador da Rainha Elizabeth II), \u00a0prefiro as nacionais mais leves da ind\u00fastria\u00a0 cervejeira tradicional. Ou um bom chope tradicional, como o da Toca do Chope, do Claude Capdeville, na Quituart, no Lago Norte, em Bras\u00edlia, onde se pode comer um \u00f3timo pastel de angu bem mineiro, com fub\u00e1 de milho vindo de Vi\u00e7osa, MG, terra do Claude e sua mulher, Lana. (Aviso aos navegantes, digo, aos patrulheiros sempre de plant\u00e3o: pelo \u201ccomercial\u201d, juro que n\u00e3o estou ganhando um vint\u00e9m, um tost\u00e3o furado, nem um chope, nem um pastel de angu, j\u00e1 ouviram?)<\/p>\n<p>No mais, pol\u00edtica, gosto, cor, op\u00e7\u00f5es sexuais, time de futebol, religi\u00e3o s\u00e3o temas que n\u00e3o se discutem: podem dar briga. Esse neg\u00f3cio de doutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou religiosa e patrulhamento ideol\u00f3gico s\u00f3 desanda em lit\u00edgio e confus\u00e3o.\u00a0 Melhor evitar e mudar de assunto, falar sobre o tempo, a chuva, o calor, o frio, a lavoura, cachorro, \u00e1rvore, passarinho, viagem a Marte. Melhor beber uma cerveja (inglesa ou n\u00e3o), um chope, lendo um jornal ou proseando com os amigos, numa noite sossegada ou numa animada e ensolarada manh\u00e3 de s\u00e1bado ou domingo. Vamos deixar a infind\u00e1vel brigalhada para a guerrilha das redes sociais\u2026\u00a0 Ainda mais neste ano pol\u00edtico de 2022.<\/p>\n<p>&#8211; Gar\u00e7om, mais uma caneca de chope, por favor!<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 10 de abril de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo garante que jamais, em tempo algum, ningu\u00e9m bebeu cerveja com o gosto de Danilo Gomes. Evidente exagero, porque antes de tudo trata-se de um apreciador do l\u00edquido dourado, filho de cereais maltados ou n\u00e3o. O que ningu\u00e9m discute \u00e9 que \u00e9 um connaisseur, al\u00e9m de excelente cronista. Para dirimir d\u00favidas, abro alas para o mestre. 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