{"id":1352,"date":"2022-05-16T14:01:46","date_gmt":"2022-05-16T17:01:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1352"},"modified":"2022-05-16T14:01:46","modified_gmt":"2022-05-16T17:01:46","slug":"um-leao-sem-dentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-leao-sem-dentes\/","title":{"rendered":"Um le\u00e3o sem dentes"},"content":{"rendered":"<p>Era olhado com admira\u00e7\u00e3o. Pelos homens e por algumas mulheres. N\u00e3o era bonito, mas fazia tipo, com longas costeletas \u00e0 Elvis de Las Vegas, enquanto jogava migalhas de charme no ch\u00e3o, s\u00f3 para sentir em quais pombas podia investir. \u00c9 a velha escola da paquera: primeiro sente-se o pulso; em seguida, o tiro. Era um predador, um le\u00e3o.<br \/>\nPode-se dizer que foi um dos \u00faltimos da sua esp\u00e9cie, o conquistador barato. Bras\u00edlia era ainda uma cidade pequena; todos se conheciam e se cumprimentavam, nos lugares de sempre.\u00a0 As exce\u00e7\u00f5es se davam em locais determinados: havia um c\u00f3digo entre cavalheiros que frequentavam espa\u00e7os como o Cavalo de A\u00e7o, na 502 Sul, ou o Sereia, na 213 Sul. Neles, ningu\u00e9m via nada, ningu\u00e9m falava nada.<br \/>\nO nosso conquistador n\u00e3o frequentava esses ambientes. Preferia locais mais discretos, quase clandestinos \u2013 como a ditadura estava viva, eram\u00a0<em>aparelhos<\/em>\u00a0de lux\u00faria. O favorito era o Xadrezinho, localizado numa quebrada pr\u00f3xima ao Cota Mil, onde hoje funciona, vejam o desperd\u00edcio, at\u00e9 uma academia de gin\u00e1stica.<br \/>\nO Xadrezinho merece um cap\u00edtulo \u00e0 parte na hist\u00f3ria bo\u00eamia e gastron\u00f4mica dessa cidade. Durante o dia, atra\u00eda a clientela com uma cozinha internacional excelente, onde se destacava um fil\u00e9 \u00e0 bourguignonne inesquec\u00edvel; \u00e0 noite, o card\u00e1pio era outro. J\u00e1 na varanda a discri\u00e7\u00e3o era garantida por mesas protegidas por altos biombos.<\/p>\n<p>Para quem achava pouco, numa sala cont\u00edgua se cultivava o legitimo breu. Essas amea\u00e7as de apag\u00e3o n\u00e3o mudariam muita coisa. Luz, ali, s\u00f3 nas pontas dos cigarros (neste mundo distante quem mandava eram os fumantes) e para renovar o Old Eight do copo era preciso alguma ci\u00eancia \u2013 equa\u00e7\u00e3o resolvida com gorjeta antecipada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m via ningu\u00e9m. Os carros no estacionamento em frente podiam at\u00e9 denunciar alguns donos. Mas ningu\u00e9m se encontrava; quando um casal sa\u00eda, ningu\u00e9m mais deixava a casa. Era a regra n\u00e3o escrita do estabelecimento. Um por vez.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u2013 uma sele\u00e7\u00e3o de sucessos estrangeiros de um passado ainda mais distante \u2013 tinha volume suficiente apenas para abafar as vozes. N\u00e3o que algu\u00e9m estivesse ali para conversar, se \u00e9 que me fa\u00e7o entender. Esse ambiente era a cova do le\u00e3o \u2013 melhor: a alcova.<\/p>\n<p>Uma garrafa azul de vinho branco e um pouco de conversa bastavam para um abate certo. Gentilomem, ele n\u00e3o contava de suas conquistas. Diante do flagrante e da inevit\u00e1vel pergunta \u2013 \u201cE a\u00ed?\u201d \u2013 ele arqueava as sobrancelhas e, ainda com a insepar\u00e1vel capanga sob o bra\u00e7o, lan\u00e7ava a d\u00favida: \u201cO que aconteceu foi bom demais&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>O Xadrezinho n\u00e3o existe mais; faz parte de um passado que a Bras\u00edlia de hoje n\u00e3o reconhece. O predador perdeu as costeletas, n\u00e3o usa mais capanga, nem mais atormenta maridos. Virou um velho le\u00e3o sem dentes de circo de lona furada, que suporta chicote, cadeirada e a cabe\u00e7a do domador entre as mand\u00edbulas; pl\u00e1cido como um bovino gordo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o vamos nos iludir. O le\u00e3o continua na ativa. Mais seletivo, comedido, medindo conseq\u00fc\u00eancias, mas ainda esbanjando l\u00e1bia. \u00c9 um felino que s\u00f3 come biscoito molhado no leite mas, ainda assim, se alimenta.<br \/>\n<strong>Publicada no Correio Braziliense em 8 de maio de 2022<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era olhado com admira\u00e7\u00e3o. Pelos homens e por algumas mulheres. N\u00e3o era bonito, mas fazia tipo, com longas costeletas \u00e0 Elvis de Las Vegas, enquanto jogava migalhas de charme no ch\u00e3o, s\u00f3 para sentir em quais pombas podia investir. \u00c9 a velha escola da paquera: primeiro sente-se o pulso; em seguida, o tiro. Era um predador, um le\u00e3o. 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