{"id":1356,"date":"2022-05-16T14:07:38","date_gmt":"2022-05-16T17:07:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1356"},"modified":"2022-05-16T14:07:38","modified_gmt":"2022-05-16T17:07:38","slug":"a-vida-voltando-ao-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-vida-voltando-ao-normal\/","title":{"rendered":"A vida voltando ao normal"},"content":{"rendered":"<p>Aos poucos n\u00f3s, sobreviventes, vamos vendo a vida que a pandemia nos roubou nos \u00faltimos dois anos. \u00c0 parte a trag\u00e9dia de amigos e queridos perdidos, um peda\u00e7o da exist\u00eancia de cada um ficou em uma esp\u00e9cie de c\u00e2mara criog\u00eanica, com sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es suspensos, naqueles dias em que ficamos t\u00e3o estupefatos que n\u00e3o medimos a gravidade de ficar sem liberdade de fazer o que der na telha.<\/p>\n<p>Era a ditadura do v\u00edrus, que devia servir de exemplo para muita gente que fala tanta bobagem, em busca de um salvador, ou pior, de um tutor para \u2013 num pensamento torto \u2013 tomar conta da sua vida, naquela pregui\u00e7a de quem faz tudo para n\u00e3o ter que lutar por nada. O v\u00edrus passou; as ideias de jerico n\u00e3o passam nunca.<\/p>\n<p>Por causa do v\u00edrus fiquei meses sem ir ao estabelecimento do Silvio Ronaldo, o que privou meu paladar do melhor sarapatel que se pode sonhar, al\u00e9m de outras iguarias brutas como mungunz\u00e1 salgado, maxixe com nata, rabada, costela e tudo o mais que nos entope as car\u00f3tidas e enche a alma de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Silvio finge que tenta ser politicamente correto ao oferecer um prato de salada em peda\u00e7os, como uma pizza alta, mas s\u00f3 de folhas e algumas rodelas de tomates. Mas \u00e9 s\u00f3 para enganar o santo. Logo em seguida traz a feijoada, com muita orelha, p\u00e9, rabo de porco e pouco paio. E tudo volta \u00e0 harmonia, ainda mais que o acompanhamento \u00e9 a cerveja mais gelada que se pode encontrar, quase no ponto do congelamento, que entorpece as papilas gustativas e rasga a goela.<\/p>\n<p>A volta foi festejada. Uma abrideira, papo curto porque o trabalho \u00e9 muito, comida na mesa, a qualidade de sempre, o mesmo ambiente. Mas quem era aquela gente toda? A freguesia mudou. Mais engravatada de um lado, mais descolada de outro, o estabelecimento se transformou, mas por m\u00e9rito do novo p\u00fablico que descobriu o lugar, j\u00e1 que nada foi alterado, nem mesmo as desconfort\u00e1veis cadeiras duplas que exigem um fornido par de gl\u00fateos para segurar a press\u00e3o no c\u00f3ccix.<\/p>\n<p>O lugar j\u00e1 foi bem mais acanhado. N\u00e3o tinha nem placa e a refer\u00eancia era a padaria que vendia material de constru\u00e7\u00e3o na esquina superior da comercial da 114 norte. E tinha uma gama curiosa de frequentadores. A conversa era controlada porque Silvio n\u00e3o gosta de confus\u00e3o; no primeiro sinal de pol\u00eamica ele j\u00e1 interferia \u2013 botou muito fregu\u00eas para correr; mas os sem-vergonha sempre voltavam.<\/p>\n<p>Mulher n\u00e3o ia porque s\u00f3 havia um banheiro, mas esperto como todo comerciante cearense \u2013 e h\u00e1 algum que n\u00e3o seja? \u2013 Silvio logo notou que as esposas \u00e9 quem tiravam os maridos do bar. Depois de poucas horas, come\u00e7ava uma sinfonia de telefone convocando as caras metades para outro canto. Foi a senha para a primeira reforma: a constru\u00e7\u00e3o de um banheiro feminino.<\/p>\n<p>Foi o in\u00edcio da transforma\u00e7\u00e3o, consolidada com a sedu\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, atra\u00eddas pela melhor batata frita que se pode comer, j\u00e1 que ele se recusa a comprar o tub\u00e9rculo cortado e congelado; no mercado, seleciona as melhores batatas, descascadas na hora e fritas em \u00f3leo fervendo, o que deixa o miolo cozido e o exterior crocante.<\/p>\n<p>Silvio \u00e9 bem-humorado como um major endinheirado, mas cumpre muito bem o papel de turr\u00e3o, necess\u00e1rio para se administrar um local que vende esp\u00edritos \u2013 que \u00e9 como os chiques chamam as bebidas alco\u00f3licas. No dia em que um sujeito puxou o viol\u00e3o para cantar, ele interveio: \u201cVoc\u00ea aceita pedidos\u201d. O bo\u00eamio aquiesceu: \u201cClaro que sim\u201d. Levou um bate-pronto: \u201cEnt\u00e3o para de cantar\u201d.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea \u00e9 um lugar em que os casados se sentem em casa.<\/p>\n<p><strong>Publicada no Correio Braziliense em 15 de maio de 2022<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos poucos n\u00f3s, sobreviventes, vamos vendo a vida que a pandemia nos roubou nos \u00faltimos dois anos. \u00c0 parte a trag\u00e9dia de amigos e queridos perdidos, um peda\u00e7o da exist\u00eancia de cada um ficou em uma esp\u00e9cie de c\u00e2mara criog\u00eanica, com sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es suspensos, naqueles dias em que ficamos t\u00e3o estupefatos que n\u00e3o medimos a gravidade de ficar sem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":1357,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[178,20,25,620],"class_list":["post-1356","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica","tag-bar","tag-brasilia","tag-cronica","tag-restaurante"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1356","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1356"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1356\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1358,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1356\/revisions\/1358"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}