{"id":1360,"date":"2023-02-08T15:57:46","date_gmt":"2023-02-08T18:57:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1360"},"modified":"2023-02-08T15:57:46","modified_gmt":"2023-02-08T18:57:46","slug":"mais-do-que-o-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/mais-do-que-o-ouro\/","title":{"rendered":"Mais do que o ouro"},"content":{"rendered":"<p>Os espanh\u00f3is afiaram as espadas e derramaram sangue no novo continente, de olho no ouro que luzia em templos de incas, astecas e maias, civiliza\u00e7\u00f5es que estavam por aqui milhares de anos antes da chegada das caravelas e de homens vestidos com roupas de ferro. O ouro acabou logo, mas havia muito mais.<\/p>\n<p>Ao final, al\u00e9m do metal dourado, os vencedores levaram as batatas; e isso centenas de anos antes de Quincas Borba inventar a express\u00e3o para o amigo Rubi\u00e3o, no romance de Machado de Assis.<\/p>\n<p>H\u00e1 250 anos, os conquistadores levaram navios cheios de de batatas do Peru para a Europa, mas como era comida de \u00edndio n\u00e3o entrava nos sal\u00f5es da nobreza; toda a produ\u00e7\u00e3o era destinada a engordar porcos e, vez por outra, loucos. Chegou a ser proibida, acusada at\u00e9 de provocar lepra.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria narrada por Eduardo Galeano em <em>Las Caras e Las Mascaras, <\/em>da trilogia <em>Memoria del Fuego<\/em>, em que o autor uruguaio conta alguns segredos da Hist\u00f3ria do continente, mas n\u00e3o a origem, da express\u00e3o \u201cv\u00e1 plantar batatas\u201d.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 Fran\u00e7a, n\u00e3o demorou para a batata entrar na dieta dos pres\u00eddios. E foi entre as grades que come\u00e7ou sua reden\u00e7\u00e3o, pelas m\u00e3os de Antoine Parmentier, personagem de m\u00faltiplas atividades, inclusive a de <em>chef<\/em> de cozinha, que estava preso pelos prussianos, e foi descobrindo utilidade para aquele tub\u00e9rculo.<\/p>\n<p>Livre do c\u00e1rcere, promoveu um festim com v\u00e1rios famosos que naquela \u00e9poca n\u00e3o viam problemas em aparecer ao lado de um ex-presidi\u00e1rio, incluindo o embaixador norte-americano Benjamin Franklin. E no menu s\u00f3 tinha batata: p\u00e3o, bolinho, sopa, salada, pur\u00ea e at\u00e9 uma aguardente, que ningu\u00e9m \u00e9 de ferro, e que foi uma precursora da vodka.<\/p>\n<p>E para a sobremesa, mais batata.<\/p>\n<p>No final, consta que Parmentier fez uma louva\u00e7\u00e3o ao tub\u00e9rculo \u00e0 empanturrada plateia, dizendo que seria o fim da fome na Europa, j\u00e1 que a planta saiu-se muito bem mesmo em clima frio. Foi aclamado e a batata foi expropriada; embora no Brasil seja chamada de inglesa, virou francesa, como escreveu Galeano: \u201creino aonde a arte de bem comer \u00e9 a \u00fanica religi\u00e3o sem ateus\u201d.<\/p>\n<p>Dois s\u00e9culos e meio depois da batata matar a fome de todo mundo, virar comida favorita de crian\u00e7a na forma frita, vem um especialista (sempre eles) dizer que n\u00e3o se pode comer batata todo dia. Que batata engorda por ser carboidrato, at\u00e9 os esqu\u00e1lidos sabem, mas da\u00ed a dizer que faz mal vai uma dist\u00e2ncia enorme.<\/p>\n<p>Ainda mais agora que estamos descobrindo uns petiscos novos, como chips de batata-doce (quem diria!) com p\u00e1prica, batata assada no espetinho, baroa em rodelas na air-fryer e croquetinho de batata. S\u00e3o grandes companheiras de cervejas mais leves ou drinques um pouquinho amargos.<\/p>\n<p>Pode ser que nada disso seja novidade para muita gente, mas as descobertas s\u00e3o mesmo individuais e esta \u00e9 a \u00fanica vantagem de ter amigos formados em gastronomia, j\u00e1 que eles costumam ser meio prolixos quando falam de comida. Melhor que isso \u00e9 s\u00f3 amigo dono de lancha: a gente s\u00f3 entra com a divers\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Publicada no Correio Braziliense em 3 de fevereiro de 2023<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os espanh\u00f3is afiaram as espadas e derramaram sangue no novo continente, de olho no ouro que luzia em templos de incas, astecas e maias, civiliza\u00e7\u00f5es que estavam por aqui milhares de anos antes da chegada das caravelas e de homens vestidos com roupas de ferro. O ouro acabou logo, mas havia muito mais. 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