{"id":1373,"date":"2023-02-10T10:01:51","date_gmt":"2023-02-10T13:01:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1373"},"modified":"2023-02-10T10:01:51","modified_gmt":"2023-02-10T13:01:51","slug":"arte-fora-de-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/arte-fora-de-lugar\/","title":{"rendered":"Arte fora de lugar"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 parte a estupidez de destruir uma pintura, qualquer que seja, agravada pelo fato de ser um Di Cavalcanti, entre tantas obras depredadas pela horda b\u00e1rbara que Bras\u00edlia conheceu, \u00e9 preciso reconhecer que eram obras fora de lugar. O quadro, ainda que inspirado pelo muralismo, n\u00e3o foi feito para ser colocado no mezanino do Pal\u00e1cio do Planalto, embora iluminasse o lugar \u2013 pelo \u00fanico fato de poder ser apreciado por poucas pessoas.<\/p>\n<p>Menos gente ainda tem acesso a obra de tape\u00e7aria conhecida como M\u00fasicos, tamb\u00e9m de Di Cavalcanti, que fica na Biblioteca do Pal\u00e1cio da Alvorada \u2013 e l\u00e1 s\u00f3 v\u00e3o convidados do presidente da Rep\u00fablica (a obra est\u00e1 na ilustra\u00e7\u00e3o). Um pouco mais democratizada \u00e9 a aprecia\u00e7\u00e3o de outro painel do artista, conhecido como Candangos (o artista nunca nomeava suas obras), e instalado no sal\u00e3o Verde da C\u00e2mara dos Deputados \u2013 e ainda assim a ilumina\u00e7\u00e3o do local n\u00e3o \u00e9 a mais adequada.<\/p>\n<p>Defensores da localiza\u00e7\u00e3o dessas obras de arte podem dizer que elas servem de complemento \u00e0 arquitetura. M\u00fasicos, por exemplo, foi encomendada, em 1961, pelo pr\u00f3prio Oscar Niemeyer, talvez como forma de compensar a excessiva frieza do ambiente da resid\u00eancia oficial do presidente. Mas ningu\u00e9m pode discordar que s\u00e3o obras maiores que os ambientes que ocupam. Tamb\u00e9m por isso, est\u00e3o fora de lugar.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u00e9 repleta de situa\u00e7\u00f5es como estas. O Banco Central, por exemplo, tem em seu poder obras de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Ismael Nery e outros mestres da cultura brasileira. O acervo inclui o quadro Descobrimento do Brasil, obra-prima de Portinari, e Bandeira do Brasil, o maior quadro de Volpi. Tudo fora de lugar.<\/p>\n<p>O Banco tem uma galeria de arte \u2013 fechada para reforma e que s\u00f3 pode ser vista virtualmente, num tour muito do mixuruca na p\u00e1gina <a href=\"http:\/\/www.bcb.gov.br\">www.bcb.gov.br<\/a>. Ainda assim muitas obras importantes ficam em salas de reuni\u00e3o e em gabinetes de pessoas engravatadas e com o colarinho engomado que certamente n\u00e3o d\u00e3o muita bola para elas, j\u00e1 que s\u00f3 veem cifr\u00f5es, ainda que valham um bom dinheiro.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouquinho melhor com outros acervos banc\u00e1rios, como o do Banco do Brasil, que tem centros culturais em quatro capitais e promove intensa rotatividade de mostras. Ainda assim, gabinetes dos bacanas de plant\u00e3o s\u00e3o coloridos com obras dos mais importantes artistas brasileiros \u2013 e quase ningu\u00e9m v\u00ea.<\/p>\n<p>A Caixa Econ\u00f4mica tamb\u00e9m mant\u00e9m seu acervo, com Djanira, Portinari, Poteiro, e faz exposi\u00e7\u00f5es em seus centros. Mas ningu\u00e9m sabe o que h\u00e1 nas salas de reuni\u00e3o \u2013 certamente nem quem as frequenta; no m\u00e1ximo, o sujeito d\u00e1 uma espiada, solta um oh!, e volta a fazer contas.<\/p>\n<p>\u00c9 uma arte imensa, infelizmente para poucos. O cidad\u00e3o comum tem quase nenhum acesso a esse conhecimento, n\u00e3o pode se deslumbrar com a riqueza do material e tem que se contentar, na maioria das vezes, com visitas pela internet.<\/p>\n<p>Nada pode justificar a a\u00e7\u00e3o destruidora e a sanha violenta daquela gente \u2013 substantivo que n\u00e3o deveria ser permitido \u00e0queles descerebrados \u2013 mas tamb\u00e9m nada pode justificar que este acervo de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos continue t\u00e3o exclusivo e apartado da sociedade que, na maioria das vezes, o inspirou.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 10 de fevereiro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 parte a estupidez de destruir uma pintura, qualquer que seja, agravada pelo fato de ser um Di Cavalcanti, entre tantas obras depredadas pela horda b\u00e1rbara que Bras\u00edlia conheceu, \u00e9 preciso reconhecer que eram obras fora de lugar. 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