{"id":1376,"date":"2023-02-10T10:45:49","date_gmt":"2023-02-10T13:45:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1376"},"modified":"2023-02-10T10:45:49","modified_gmt":"2023-02-10T13:45:49","slug":"sebastianismo-a-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/sebastianismo-a-brasileira\/","title":{"rendered":"Sebastianismo \u00e0 brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Era uma vez&#8230; assim come\u00e7am as hist\u00f3rias para crian\u00e7as. Mas talvez devessemos incorporar o clich\u00ea tamb\u00e9m para alguns contos para adultos, especialmente agora, quando mitos, f\u00e1bulas e o folclore parecem ter sido incorporados ao dia a dia de tanta gente. Se a carochinha est\u00e1 solta, vamos l\u00e1:<\/p>\n<p>Era uma vez um sertanejo chamado Jo\u00e3o Ant\u00f4nio dos Santos e que vivia em Pedra Bonita, Pernambuco. Num dia mais quente que o normal ele viu uma apari\u00e7\u00e3o; era um rei, morto 187 anos antes, dizendo que iria libertar o povo da pobreza.<\/p>\n<p>O sertanejo interpretou aquilo como um chamado e resolveu fundar o Reino Encantado de Pedra Bonita, que n\u00e3o passava de um acampamento pr\u00f3ximo a duas pedras grandes. Neste local, e j\u00e1 sob a lideran\u00e7a de Jo\u00e3o Ferreira, cunhado de Santos, houve um massacre: alguns homens iniciaram a carnificina, outros aderiram e mais de 300 morreram.<\/p>\n<p>A profecia \u00e9 que o sangue dos adeptos traria o rei, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, de Portugal, de volta \u00e0 vida. O mito do sebastianismo em terras brasileiras vinha de antes, embalado por lendas que cruzaram o Atl\u00e2ntico e se arraigaram entre os nordestinos.<\/p>\n<p>De boca em boca, verso em verso dos cord\u00e9is, a morte do rei em terras mouras, na batalha de Alc\u00e1cer Quibir, em 1578 (na imagem), ganhou contornos, complementos e temperos locais.<\/p>\n<p>Inconformados, muitos portugueses nunca acreditaram na morte do soberano; chegaram a fazer vig\u00edlia nos portos a espera dele. O sumi\u00e7o do corpo alimentou o mito messi\u00e2nico em torno do rei, que tinha apenas 24 anos e n\u00e3o deixou herdeiros \u2013 o escritor Aydano Roriz chegou a levantar a hip\u00f3tese que o rei seria hermafrodita, no livro <em>O Desejado<\/em>, onde reuniu fatos e salpicou um bocado de imagina\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o vem ao caso.<\/p>\n<p>O sebastianismo chegou ao Brasil com v\u00e1rias vertentes, todas mirabolantes. Desde a lenda que ele teria se transformado em um boi que, se fosse ferido, provocaria o afundamento da ilha dos Len\u00e7\u00f3is, Maranh\u00e3o, at\u00e9 como pai dos pobres.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia de Pedra Bonita serviu de inspira\u00e7\u00e3o para Jos\u00e9 Lins do Rego e Ariano Suassuna (rendeu at\u00e9 novela) e se desdobraria a Canudos, d\u00e9cadas depois, onde a volta de Dom Sebasti\u00e3o era pregada para reestabelecer a monarquia no Brasil. Acabou com a morte de Ant\u00f4nio Conselheiro e cerca de 25 mil pessoas<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o foi o rei que para proteger sua na\u00e7\u00e3o dos infi\u00e9is havia ido a guerra, morrera, mas voltaria; na m\u00e3o de cordelistas de talento, a hist\u00f3ria ganhou elementos ainda mais fant\u00e1sticos. Como escreveu Luar do Conselheiro:<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do retorno<\/p>\n<p>Do rei Dom Sebasti\u00e3o<\/p>\n<p>Ainda corre calada<\/p>\n<p>No meio desse sert\u00e3o,<\/p>\n<p>Num cochicho, numa prosa,<\/p>\n<p>Os cabras valentes da ro\u00e7a<\/p>\n<p>Tramando revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O Sebastianismo \u00e0 brasileira acaba de ganhar um novo cap\u00edtulo, com acampamento, fan\u00e1ticos, prociss\u00e3o, trama de revolu\u00e7\u00e3o (ou golpe, viol\u00eancia e muita reza por um sujeito ausente e que nem se chama Sebasti\u00e3o. Em comum, tamb\u00e9m, a insanidade. \u00c9 preciso dizer que, al\u00e9m da Terra ser redonda, Dom Sebasti\u00e3o, o rei menino, est\u00e1 morto. E nem por isso Portugal acabou.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 22 de janeiro de 2023<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez&#8230; assim come\u00e7am as hist\u00f3rias para crian\u00e7as. Mas talvez devessemos incorporar o clich\u00ea tamb\u00e9m para alguns contos para adultos, especialmente agora, quando mitos, f\u00e1bulas e o folclore parecem ter sido incorporados ao dia a dia de tanta gente. 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