{"id":1388,"date":"2023-02-14T17:15:53","date_gmt":"2023-02-14T20:15:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1388"},"modified":"2023-02-14T17:15:53","modified_gmt":"2023-02-14T20:15:53","slug":"musica-violenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/musica-violenta\/","title":{"rendered":"M\u00fasica violenta"},"content":{"rendered":"<p>Carmen Miranda, em 1932, gravou um samba de Andr\u00e9 Filho, o autor de <em>Cidade Maravilhosa<\/em>, que dizia assim: \u201cVivo feliz, no meu canto, sossegada\/ Tenho amor, tenho carinho\/ Tenho tudo, at\u00e9 pancada\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo ano, Noel Rosa escreveu: \u201cMas que mulher indigesta, merece um tijolo na testa\u201d. Em 1930, Ary Barroso ganhou o concurso de m\u00fasicas de carnaval na voz de Francisco Alves, que cantava: \u201cEssa mulher h\u00e1 muito tempo me provoca\/ D\u00e1 nela! D\u00e1 Nela\u201d.<\/p>\n<p>Em 1974, outro dia mesmo, portanto, Simone gravou um samba de roda que diz: \u201cSe essa mulher fosse minha\/ Eu tirava do samba j\u00e1, j\u00e1\/ Dava uma surra nela\/ Que ela gritava: chega\u201d.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia, al\u00e9m da pancada f\u00edsica, era humilhante. Francisco Alves, o rei da voz, em parceria com Jorge Faraj, gravou uma valsinha em 1936: \u201cCertas mulheres que conhe\u00e7o\/ Que vendem conforme o pre\u00e7o\/ Os seus amores banais\/ E eu volto a chorar pensando\/ Que fui bem tolo te amando\/ Pois tu deves ser das tais\u201d.<\/p>\n<p>E M\u00e1rio Lago, que quatro anos depois, com Ataulfo Alves, comporia <em>Am\u00e9lia<\/em>, o s\u00edmbolo da mulher submissa, treinou antes com Benedito Lacerda. A m\u00fasica foi gravada por Orlando Silva, em 1939: \u201cEras no fundo uma f\u00fatil\/ E foste de m\u00e3o em m\u00e3o\/ Satisfaz tua vaidade\/ Muda de dono \u00e0 vontade\/ Isto em mulher \u00e9 comum\u201d.<\/p>\n<p>E o fato de gostar de m\u00fasica n\u00e3o significa comunh\u00e3o de ideias com os autores. At\u00e9 porque muitas mulheres, de ontem e de hoje, participam da detra\u00e7\u00e3o; Francisco Alves, que tantas m\u00fasicas machistas gravou, derreteu cora\u00e7\u00f5es femininos at\u00e9 a morte, em 1952, quando milhares de mulheres sa\u00edram \u00e0 rua para chorar pelo \u00eddolo.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia, m\u00fasica-s\u00edmbolo da mulher submissa, est\u00e1 completando 80 anos. Ainda \u00e9 ouvida em rodas de samba pela cidade. N\u00e3o surpreende: a letra \u00e9 de uma candura angelical diante de alguns funks atuais, alguns deles cantados por mulheres.<\/p>\n<p>\u00c9 uma m\u00fasica importante, uma das primeiras a usar uma estrutura mais parecida com o samba ouvido nas escolas, menos estilizada do que o que se ouvia no r\u00e1dio de ent\u00e3o, criada por Ataulfo Alves (foto). Mas a letra, de M\u00e1rio Lago, provocou pol\u00eamica desde o in\u00edcio, tanto que nenhum dos grandes cantores da \u00e9poca a lan\u00e7ou, foi gravada pelo pr\u00f3prio Ataulfo (e suas Pastoras).<\/p>\n<p>Am\u00e9lia virou verbete de dicion\u00e1rio como sin\u00f4nimo de submiss\u00e3o; a can\u00e7\u00e3o \u00e9 condenada, vem sendo cancelada. Hoje \u2013 mesmo depois de passada a pandemia \u2013 muita gente prefere usar m\u00e1scara, se esconder por tr\u00e1s de palavras corretas, ao inv\u00e9s de coibir as a\u00e7\u00f5es incorretas.<\/p>\n<p>Am\u00e9lias e Em\u00edlias (\u201cEu quero uma mulher\/ Que saiba lavar e cozinhar\/ E de manh\u00e3 cedo\/ Me acorde na hora de ir trabalhar\u201d, do samba de Wilson Baptista) s\u00e3o personagens de outra \u00e9poca. Nos funks atuais a submiss\u00e3o \u00e9 bem mais expl\u00edcita, com letras que n\u00e3o se ouvia nem nas m\u00fasicas safadas de outros tempos.<\/p>\n<p>A sociedade vem se alternando contraditoriamente entre a amoralidade absoluta e as palavras politicamente corretas. \u00c9 um mundo meio perdido e triste quando a gente v\u00ea que as pessoas est\u00e3o se alienando da vida.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 13 de janeiro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carmen Miranda, em 1932, gravou um samba de Andr\u00e9 Filho, o autor de Cidade Maravilhosa, que dizia assim: \u201cVivo feliz, no meu canto, sossegada\/ Tenho amor, tenho carinho\/ Tenho tudo, at\u00e9 pancada\u201d. No mesmo ano, Noel Rosa escreveu: \u201cMas que mulher indigesta, merece um tijolo na testa\u201d. 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