{"id":1393,"date":"2023-02-15T13:23:27","date_gmt":"2023-02-15T16:23:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1393"},"modified":"2023-02-15T13:23:27","modified_gmt":"2023-02-15T16:23:27","slug":"a-deriva-no-paranoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-deriva-no-paranoa\/","title":{"rendered":"\u00c0 deriva no Parano\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>JK ainda nem havia nascido quando o bot\u00e2nico franc\u00eas Auguste Glaziou esteve por aqui acompanhando a segunda miss\u00e3o Cruls e imaginou represar os rios para formar um lago \u2013 o Parano\u00e1. Cheio, o fundador o chamou de \u201cmoldura l\u00edquida da cidade\u201d.<\/p>\n<p>Foi uma saga. A empresa norte-americana contratada para construir a barragem n\u00e3o entregou o servi\u00e7o; o escritor (e engenheiro) Gustavo Cor\u00e7\u00e3o rogou praga dizendo que o lago nunca iria encher por causa do solo poroso \u2013 quando a \u00e1gua cobriu toda a \u00e1rea, JK enviou um sucinto e venenoso telegrama ao intelectual: \u201cEncheu, viu?\u201d.<\/p>\n<p>O Parano\u00e1 quase morreu asfixiado pelo esgoto, causando uma fedentina terr\u00edvel que entrou para a hist\u00f3ria da cidade \u2013 este Correio Braziliense estampou a dram\u00e1tica manchete em letras garrafais: Bras\u00edlia fede. Est\u00e1 despolu\u00eddo, ainda enfrenta assoreamento, mas sem ele Bras\u00edlia seria invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Hoje o lago tem vida. Car\u00e1s e tucunar\u00e9s, entre outros peixes, povoam o local e atraem pescadores que saem em pequenas canoas em busca da paz que n\u00e3o encontram em terra. E t\u00eam a companhia esdr\u00faxula de camar\u00f5es, de um batalh\u00e3o de capivaras, entre outros roedores (ariranhas, doninhas), e at\u00e9 de remadores, iatistas e nadares \u2013 alguns impudentes.<\/p>\n<p>Mas nem tudo \u00e9 placidez. Velho amigo, a quem podemos chamar de Sr. W., aceitou o convite cheio de mal\u00edcia de um camarada que h\u00e1 tempos perseguia uma jovenzinha. O problema \u00e9 que havia tamb\u00e9m uma amiga e, sabe como \u00e9, algu\u00e9m tinha que tirar a vela da m\u00e3o dela.<\/p>\n<p>\u2013 Deve ser uma baranga, reagiu Sr. W., desconfiado como um gato ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>O camarada garantiu que n\u00e3o e l\u00e1 foram os dois. A mo\u00e7a tinha encantos e foram os quatro para a lancha \u2013 sim, o encontro era um passeio ao luar, no Parano\u00e1. Mas n\u00e3o havia lua.\u00a0 Noite alta, o camarada apertou a mo\u00e7a de mau jeito, quando encostaram no acelerador da lancha, que deu um pulo e disparou lago adentro.<\/p>\n<p>O Sr. W. ficou. Foi arremessado na \u00e1gua e viu a lancha sumir na escurid\u00e3o. Sentia os sapatos de cromo alem\u00e3o pesando toneladas, o rel\u00f3gio Hublot novinho parecia uma \u00e2ncora, insistindo para ir ao fundo, enquanto a \u00e1gua gelada entrava por todos os poros.<\/p>\n<p>O bom preparo f\u00edsico o mantinha \u00e0 tona, mas os minutos s\u00e3o inexor\u00e1veis. Mr. W pensava nos filhos, no que tinha feito e deixado por fazer e principalmente nos inimigos: o que diriam eles ao ler o obitu\u00e1rio no jornal do dia seguinte?<\/p>\n<p>O camarada deu a volta para procurar o n\u00e1ufrago, mas nada via. A luz da lanterna s\u00f3 achava breu. Sr. W. n\u00e3o ouvia mais o motor da lancha, desligado pelo prudente camarada para evitar o perigo das p\u00e1s girando.<\/p>\n<p>Uma luz que ningu\u00e9m sabe de onde veio foi refletida pelo vidro da lancha e Sr. W. juntou o restinho das for\u00e7as \u2013 j\u00e1 fazia mais de meia hora que havia ca\u00eddo \u2013 berrou e bateu os bra\u00e7os freneticamente. Resgatado, mantinha o rel\u00f3gio e os pesados sapatos no p\u00e9. Ele explicou:<\/p>\n<p>\u2013 Se era para morrer, que fosse pelo menos arrumadinho.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 8 de janeiro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JK ainda nem havia nascido quando o bot\u00e2nico franc\u00eas Auguste Glaziou esteve por aqui acompanhando a segunda miss\u00e3o Cruls e imaginou represar os rios para formar um lago \u2013 o Parano\u00e1. Cheio, o fundador o chamou de \u201cmoldura l\u00edquida da cidade\u201d. Foi uma saga. 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