{"id":1403,"date":"2023-02-17T10:30:31","date_gmt":"2023-02-17T13:30:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=1403"},"modified":"2023-02-17T10:30:31","modified_gmt":"2023-02-17T13:30:31","slug":"uma-pisada-no-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/uma-pisada-no-carnaval\/","title":{"rendered":"Uma pisada no carnaval"},"content":{"rendered":"<p>O carnaval que come\u00e7a marca o enterro das marchinhas. Ou melhor: mais uma tentativa. \u00c9 hora do piseiro, me dizem. Trata-se de uma contrafa\u00e7\u00e3o da pisadinha que, por sua vez \u00e9 uma contrafa\u00e7\u00e3o do xote, apoiado em teclados eletr\u00f4nicos, letras de mau gosto, erros de portugu\u00eas, palavr\u00f5es \u00e0 granel e com passos arrastados e m\u00e3os coladas no corpo como um beque de time de v\u00e1rzea.<\/p>\n<p>E sai o f\u00e9retro da express\u00e3o \u201cpular carnaval\u201d. Est\u00e1 mais para arrasta-p\u00e9, que era mais comum nas festas juninas, em terreno de ch\u00e3o batido e em volta da fogueira.<\/p>\n<p>Pois a previs\u00e3o \u00e9 que o piseiro tome conta dos bailes, com p\u00e9rolas musicais como <em>Ro\u00e7a em Mim<\/em> (\u201cEu chamei ela pra ro\u00e7a e ela me pediu assim\/ Ro\u00e7a, ro\u00e7a em mim\/ Tira o chap\u00e9u e a bota e me bota gostosim\u201d), <em>Ai Papai<\/em> (\u201cMacetei\/ Foi um tal de vuco, vuco, t\u00e1 maluco, quer replay\u201d) e <em>Bombonzinho<\/em> (\u201cNa cama, c\u00ea tem talento, c\u00ea manja dos movimento\/ &#8230; Pena que c\u00ea \u00e9 pra frente, tem uma porrada de gente\/ Que c\u00ea pega al\u00e9m de mim\u201d).<\/p>\n<p>Ou seja, saem a mal\u00edcia inteligente, as cr\u00edticas sarc\u00e1sticas e o humor esperto e entra a safadeza expl\u00edcita, pura e simples. Uma troca digna dos novos tempos.<\/p>\n<p>De marchinhas ningu\u00e9m quer saber mais. Nascidas no in\u00edcio do s\u00e9culo passado aproveitando o ritmo bin\u00e1rio das marchas portuguesas, com elementos do incipiente jazz norte-americano, embalaram os carnavais por d\u00e9cadas, fazendo foli\u00f5es girarem nos sal\u00f5es e cantarem desregradamente pelas ruas. Hoje sobrevivem gra\u00e7as aos bailes da saudade para foli\u00f5es de mais de 80 anos de idade.<\/p>\n<p>Sem contar que muitas das marchinhas est\u00e3o condenadas pela obtusidade do pensamento chamado de politicamente correto que muitas vezes simplesmente inverte o preconceito. \u00cdndio quer apito? A cabeleira do Zez\u00e9? A cor da mulata n\u00e3o pega? Mulata bossa nova cheia de fiu-fiu? A pipa do vov\u00f4 n\u00e3o sobe mais? Nada disso pode mais.<\/p>\n<p>S\u00e3o temas cancelados. Censurados, melhor dizendo, por uma sociedade que vem se esmerando na hipocrisia.<\/p>\n<p>E pensar que o carnaval brasileiro nasceu como uma v\u00e1lvula de escape para a dureza do dia a dia e como forma de distens\u00e3o das r\u00edgidas normas sociais. Era um tempo, como dizia a marchinha, em que eram \u201ctr\u00eas dias de folia e brincadeira\u201d que acabavam na quarta-feira. Foram esticando at\u00e9 que hoje o carnaval n\u00e3o tem mais muito sentido no calend\u00e1rio.<\/p>\n<p>Muitos rapazes n\u00e3o esperam mais o per\u00edodo momesco chegar para usar vestido, batom e quem sabe o que mais o qu\u00ea, sequer admitindo serem chamados de rapazes. As marchinhas \u2013 como as fantasias \u2013 faziam a subvers\u00e3o do carnaval. Davam o tom de cr\u00f4nica pol\u00edtica e de costumes de cada \u00e9poca; hoje, quando todo mundo tem que fingir que acha tudo normal, n\u00e3o cabe mais, at\u00e9 porque o vulgar e o clandestino fazem parte do cotidiano.<\/p>\n<p>Vale lembrar o velho samba de Gonzaguinha: \u201ctudo vai bem, tudo legal\/ Cerveja, samba e amanh\u00e3, seu Z\u00e9\/ Se acabarem com o teu carnaval?\u201d<\/p>\n<p>Mas enquanto houver marchinha, haver\u00e1 carnaval. Com ou sem piseiro.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 17 de fevereiro de 2023<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval que come\u00e7a marca o enterro das marchinhas. Ou melhor: mais uma tentativa. \u00c9 hora do piseiro, me dizem. 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